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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Jair Bolsonaro e o desafio da “Nova Direita”

Há exatos dois meses atrás, com o artigo “Jair Bolsonaro e o Futuro da ‘Nova Direita’” eu

02/01/2019 20h49

Há exatos dois meses atrás, com o artigo “Jair Bolsonaro e o Futuro da ‘Nova Direita'” eu fazia minha estreia nesse veículo de comunicação do MBL, hoje recordista de views e já uma importante ferramenta de notícias no país. Neste artigo, eu sublinhava a importância crucial da eleição de Bolsonaro para a transformação da direita de um grupo contra-hegemônico para um bloco político consolidado, apto a operar transformações estruturais no Brasil. Salientava quatro, de muitas possibilidades de ação: a) eliminação do viés em concursos públicos b) desaparelhamento da máquina pública c) pautas estruturais como o plurissindicalismo e o aprofundamento da reforma do ensino médio  d) corte de verbas para a mídia de esquerda.

Indo na mesma direção, o artigo de Renan Santos “Cadê o Queiroz? A direita e o caso Flávio Bolsonaro” fazia ponderações interessantes sobre o papel da direita no enfrentamento, não propriamente das mesmas pautas ideológicas – que eu já havia citado – mas de um problema antigo e bem assente no Estado brasileiro – o patrimonialismo, essa típica confusão entre as dimensões do público e do privado, que de acordo com a sociologia de Sérgio Buarque de Holanda, é uma herança lusa que nos define.

Notem que são dois os tipos de desafio que o governo alberga, com uma interseção entre eles. Do ponto de vista da pauta ideológica, há muito a se fazer na seara educacional, universitária, econômica, moral. Muito pode ser feito mantendo-se as mesmas regras que permitem o patrimonialismo. Por isso convém nos lembrarmos de uma conhecida história.

De fato, temos um exemplo de ação nesse âmbito, que operou transformações  consideráveis mantendo intacto o patrimonialismo. Só que o exemplo vem com o sinal ideológico à esquerda: o PT. O PT deixou sua marca indelével na sociedade brasileira: política externa de alinhamento com os BRICs, ampliação das instituições públicas de ensino superior, expansão do crédito, uso do consumo das classes baixas como critério de ascensão social, liderança no processo de consolidação da esquerda na América Latina via Foro de São Paulo.

Entretanto, o PT conservou a mesma estrutura patrimonial do Estado brasileiro, com a desculpa, ideologicamente farsesca, de pragmatismo político. O PT se mostrou profundamente conivente com o patrimonialismo, literalmente construindo uma poderosa máquina de compra de voto e subsídio político. Parecia, à consciência moral adormecida da esquerda, uma jogada necessária: mantendo os privilégios da camarilha de políticos tradicionais, o PT podia operar com as suas finalidades ideológicas e de transformação social sem precisar gerar uma crise aguda que o enfraqueceria. Assim, o lulismo tinha a dupla face de Jano: ideologia personalíssima do poder e acomodação de classe, de partidos, de lideranças políticas tradicionais.

Não se pode dizer que o PT fez pouco quando no poder. Ele fez muito, e sua trajetória foi coerente com a guinada de 2002, da Carta ao Povo Brasileiro, incorporando o chamado “espírito do Anhembi”, em oposição àquele tipo de radicalismo socialista que o havia criado, o “espírito do Sion”, de acordo com a distinção de André Singer. O “espirito do Sion” não aceitava pacificamente o tipo de conciliação que o PT havia feito com as classes políticas tradicionais. Ele queria uma ruptura muito mais profunda com o sistema, e já de imediato: quando Lula manteve o famoso tripé macroeconômico a partir de 2003, e quando a máquina de compra de consciência começou a girar, muitos foram os militantes do partido que tiveram crise de consciência e não pouco foram os sociólogos que empreenderam uma forte crítica ao partido (o caso de Chico de Oliveira é modelar).

Ora, Bolsonaro entra em campo como oposição arquetípica ao PT em uma dupla dimensão: oposição à construção de Brasil que o PT operou e, sobretudo, oposição a manutenção do patrimonialismo, que o PT não construiu, mas sedimentou e se utilizou para passar o seu próprio projeto de poder. Se, pelo lado ideológico, a transição do governo Bolsonaro promete uma forte tomada de posição (talvez forte demais, mas isso é assunto para um próximo artigo) (1), pelo lado do patrimonialismo é preciso ver se: a) ele terá intenção de reduzir os privilégios da classe política e das corporações b) ele conseguirá manejar a complexa máquina administrativa que lhe cai nas mãos.

Quanto ao primeiro desafio, alguns elementos problemáticos foram trazidos à baila no artigo de Renan Santos: a)  o alinhamento do deputado Jair com sua corporação militar, eleito para representar-lhe os interesses b) o uso irrestrito de verbas de gabinete c) o caso Flávio Bolsonaro que, conquanto não implica o próprio Jair, revela um tipo de prática amoralista no seio da família Bolsonaro, característica daqueles que desejam se cevar no poder.

Esses são elementos complexos. É preciso entender que aí vai a intersecção ideológica aludida acima. Bolsonaro sobe nos ombros do movimento liberal-conservador e essa alcunha não pode ser dissociada. Inapelavelmente, o movimento de direita que o elege é, simultaneamente, conservador e liberal e de um antipatrimonialismo muito marcado. Por isso mesmo, ele precisa se livrar dos resquícios de patrimonialismo e corporativismo se quiser representar bem essa base eleitoral quando chega, hoje, ao poder. Afinal de contas, a mera mudança de titularidade do poder não garante mudança de práticas. Em outras palavras, a eleição do legislativo no primeiro turno por si só já operou uma mudança de envergadura quase revolucionária: foi a maior taxa de renovação da história do Senado. Contudo, a mera renovação das pessoas não significa que os novos eleitos irão agir de modo diferente daqueles que substituíram. Mas é exatamente isso o que se espera. Daí a importância que o PSL se mantenha nos limites da boa governança, da seriedade e da responsabilidade.

Quanto ao segundo desafio, é muito cedo para estimar. Bolsonaro não tem experiência executiva, tem uma boa equipe montada, porém ainda com pouco traquejo político, com exceção de alguns nomes. Temos que aguardar e trabalhar, fora dos muros, pelo sucesso do governo, enquanto ele representar os anseios que o puseram no poder.

Façamos votos que consiga realizar o intento. Que o ano de 2019 seja um marco para o Brasil rumo a um novo horizonte.

NOTAS:

(1) O alinhamento automático com os EUA em política externa, sem aparentemente nenhuma negociação de termos, a promessa de transferência da embaixada para Jerusalém, as brigas internas do PSL travestidas de competição de purismo “bolsonariano” são indícios negativos do ideologismo, essa doença infantil do direitismo.