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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Incoerências bolsonarianas, ou: Eu sei o que vocês fizeram no verão passado

Nos idos anos 90, que para quem é muito novo já parece outro éon, o filme “Eu

07/01/2019 17h20

Nos idos anos 90, que para quem é muito novo já parece outro éon, o filme “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado” fez fama, bilheteria alta e muitos fãs. Era um popularíssimo blockbuster cujo enredo, uma história americana de terror teen, trazia quatro jovens que atropelavam sem querer um homem e faziam um pacto de silêncio em torno do crime.  Após um tempo, eles passam a receber bilhetes com a fatídica mensagem “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, e começam a serem assassinados por um vingador psicopata em trajes de pescador.

Pactos de silêncio, crimes às espreitas e assassinatos vingadores não são um bom enredo político. Mas é divertido pensar que o mote do filme era precisamente a longa memória de algo que se quer esconder. O passado nos assombra. E os atos passados nos assombram ainda mais.

Recentemente, ficamos bastante surpresos em ver algumas notícias do governo recém-eleito do presidente Bolsonaro. Como já tive ocasião de repetir, em artigos mais antigos, esse é um governo tremendamente legitimado. Tendo feito uma campanha barata, subido graças à força do povo, o governo girou a máquina com fluidez durante toda a transição. Colocou nomes impolutos e técnicos a frente dos principais ministérios: Moro, Vélez Rodrigues, Paulo Guedes são alguns destaques positivos. Teve uma posse sóbria, clássica, operou uma transição republicana e serena. As expectativas pareciam tão douradas quanto um Sonho de uma Noite de Verão, título da famosa comédia de Shakespeare.

Mas, aí começaram a embaçar um pouco os verões. Primeiro, houve o caso do Flávio Bolsonaro, as duas saídas pela tangente do Queiroz, e, finalmente, a explicação que nada explicou. Foi antes da posse. Deu o que falar para a esquerda. Hipocritamente, aliás, a mídia “esqueceu” de noticiar que o COAF havia pego irregularidades maiores em partidos como PT, PSOL, PDT. Usaram o caso para bater no Bolsonaro exclusivamente. Claro que é esperteza mal intencionada. Foi denunciada pelo MBL. Foi objeto de crítica no jornal MBLNews. Entretanto, gostemos ou não, o caso do Queiroz estava (e está) realmente mal explicado. Esse é um fato e não devemos criar ilusões a respeito dele.

Porém, se era ruim para a família Bolsonaro, o caso não tangenciava – nem de longe – o próprio governo Bolsonaro, motivo de gáudio para todos nós. Infelizmente, mais coisas ocorreram para embaçar os verões. Estamos vendo certa manutenção, muito estranha à luz do antigo discurso bolsonariano, de figuras antigas do establishment. É um fato que muito nos surpreendeu, pois contrasta drasticamente com o tipo de discurso construído ao longo de toda a campanha e pré-campanha de Bolsonaro.

Temos, por exemplo, a nomeação de Carlos Marun para o conselho de Itaipu, nome ligado ao presidente Temer. Marun não é nem um técnico nem um nome impoluto. Ao contrário. É um operador clássico, quase emoldurado do velho sistema, um homem forte do Michel no PMDB. Ele está numa importantíssima estatal brasileira, sabe-se lá para fazer o quê. O vice, general Mourão, criticou. Foi silenciado por Onyx Lorenzoni. Por outro lado, apareceu a notícia de que Bolsonaro não poderia tê-lo retirado por se tratar – a nomeação – de ato jurídico perfeito. Mas, nesse caso, a declaração de Onyx que Bolsonaro “tomou a decisão” tampouco faria muito sentido. Que decisão se ele não poderia tomar outra? Tudo muito esquisito.

Também tivemos a notícia da adesão do PSL à candidatura de Rodrigo Maia à presidência da Câmara. Coroando a sinalização partidária, ainda houve a publicação de um tweet de Bolsonaro – que foi rapidamente apagado – falando que quem não gostasse desse tipo de articulação deveria parar de ser “mimado” e aprender como se joga o xadrez político.

Era um tweet um pouco agressivo, aludindo até a um possível apoio ao Renan Calheiros, o que, felizmente, parece que não será o caso, pois o PSL deve lançar Major Olímpio à presidência da alta câmara. Em todo caso, como já diz o ditado, a internet não perdoa. A anamnese da net abrange desde nudes amadores até as falas do presidente. Ficará, pois, o registro… per secula seculorum.

Diante dessas coisas, já nos primeiros dias de governo, o que pensar? Que Bolsonaro se vendeu ao sistema? Que Bolsonaro é um corrupto safado? Que virou o Lula e um dedo dele sumiu misteriosamente?

Não convém exagerar nem darmos uma de “oposição”. Se assim o fizéssemos, estaríamos realmente “jogando o jogo da esquerda”, além de sermos profundamente injustos com o governo que tem acertado tanto na transição e começa com tamanha responsabilidade. Acredito, sinceramente, que as intenções de Bolsonaro e equipe sejam as melhores. Também acredito que exista uma natural disputa de poder entre alas do PSL, entre alas do próprio governo e tendências do vasto movimento de direita denominado “nova direita”. E também acredito que o governo tenha se apercebido, afinal, que, como diz o ditado, “o buraco é mais embaixo”.

O grande problema é que essa percepção chegou tardiamente, após as alas do bolsonarismo terem atacado o resto da direita, feito um jogo antipolítico muito feroz com o intuito de cacifar Jair Bolsonaro como a grande nêmesis vingadora de todo o sistema. É bom nos recordar que, objetivamente, o discurso do bolsonarianismo sempre foi o de reduzir o sistema a pó, vencer o estamento burocrático, se opor e enfraquecer o establishment. Com efeito, ele enxergava no horizonte o problema do estamento burocrático, expressão de Faoro que Olavo de Carvalho popularizou entre a direita em suas análises do processo político. Nesse percurso, eles cometiam várias assimilações excessivas. Era o discurso que PSDB e PMDB são iguais ao PT (o que não é verdade); que todo mundo está no mesmo saco; que quadros que saiam por partidos como o DEM, PSDB e PMDB são automaticamente suspeitos. “Cala a boca, esquerdista safado!” – foi quase um mote – dito a torto e a direito, inclusive contra notórios próceres da direita os quais, justamente, entendendo a complexidade da correlação de forças partidárias, buscavam avançar uma agenda reformista através de coalizações, conversas, articulações e formação de consensos.

Para não dizer que falamos no vazio, vamos a uma brevíssima amostra do vastíssimo manancial de declarações:

Carlos Bolsonaro foi particularmente loquaz nesse quesito. Em tweets antigos, ele dizia que todo o sistema iria cair: “Ninguém dos sistema (sic) corrupto conseguirá se esconder atrás das cortinas de fumaça malandramente  criadas para enganar o eleitor! PSDB, PMDB, DEM, PT todos se alinhando o que é bem diferente de se aliando […]”

E ainda: “O papi Maia e o filhinho fofinho citados na Lava-Jato! Entendeu o desespero?”

Se o “fofinho” Maia é uma figura tão execrável assim, justamente apoiá-lo à presidência da Câmara parece ser sacrificar valores no altar do pragmatismo, mesmo considerando que a negociação tenha sido amplamente vantajosa ao governo (o que não foi). É um movimento em nada legitimado pelo tipo de discurso construído antes da posse. Ademais, lendo essa declaração do Carlos Bolsonaro hoje, ela nos parece muito engraçada. Pois o que vemos é um Maia mais fofinho do que nunca a esconder, em sua magnânima fofura, a serenidade de quem dobrou o PSL a apoiá-lo.

Antes que digam que esses tweets mais revelam o temperamento de Carlos do que uma tendência, na militância bolsonarista é bom lembrar do próprio Eduardo Bolsonaro, atacando o jornalista e formador de opinião Alexandre Borges porque ele havia tirado uma foto com Dória. Ora, se alegava justamente que aquilo era um absurdo, pois o PSDB era falsa oposição e Dória um farsante. Como poderia um direitista tirar foto com Dória?

Evidentemente, o clã Bolsonaro temia que Borges estivesse dando um apoio tácito a Dória, que a época tinha certo potencial eleitoral ameaçador. É um motivo razoável. O que não é razoável é usar estratégia de intimidação e acusações de “falsa direita” sem muito critério, apenas para proteger um feudo eleitoral. Sendo um formador de opinião extremamente combativo contra a esquerda, no campo da guerra cultural, se há uma coisa que o Alexandre Borges definitivamente não é é esquerdista… E muito menos pegaria o sarampo do esquerdismo porque apertou a mão do Dória e publicou uma foto com ele (aliás, Borges apoiou o próprio Bolsonaro e nunca deu sinais de querer fazer o contrário).

São apenas ilustrações de uma tendência muito conhecida da militância bolsonariana: a tendência de acusar os outros de falsa direita e exigir que ninguém possa ter conversas, articulações e composição de consensos com o centro ou com partidos como DEM, PSDB, PMDB e outros do espectro político mais ao centro, mas dominados, em maior ou menor medida, por um horizonte cultural hegemonizado pelos acadêmicos de esquerda. Assim, quando se tem esse discurso, nesse nível de radicalidade, fica difícil engolir um “apoio pragmático” a uma figura como o Maia. Rodrigo Maia foi o mesmo que se aliou ao PCdoB na câmara, impediu o escola sem partido; é um quadro de um centro-esquerda muito antipático a toda a tendência de construção da “nova direita”.

Uma última palavra sobre “fazer o jogo da esquerda”.

Diante dessa críticas, muita gente tem acusado a direita de estar “fazendo o jogo da esquerda” ao criticar, pontualmente, o governo Bolsonaro. É uma abordagem equivocada, creio eu. Haveria razão em dizer isso se grupos como o MBL, Partido NOVO, ou deputados do próprio PSL que declararam apoio a outros candidatos (Janaína Paschoal declarou apoio ao Kim, p ex.) começassem a se opor sistematicamente ao governo. Isso é oposição. Isso é fazer o “jogo da esquerda”.

Criticar alguma decisão do governo, apoiando no essencial as pautas e propostas, buscando viabilizá-las e seguir o trabalho de contrahegemonia, não é fazer o jogo da esquerda. Isto é justamente ser uma base crítica.

Ora, a importância de termos uma base crítica de direita não é desprezível. Duas grandes vantagens táticas decorrem da sua existência. Primeiro, eventuais problemas do governo não serão capitalizados exclusivamente pela esquerda. O motivo é que se somente a esquerda pode criticar o governo, então pode ser que, entre 100 críticas injustas, apareçam 2 que sejam justas. Nesse caso, a esquerda capitaliza com exclusividade em cima delas, e a direita estaria numa posição delicada de defesa irrestrita do governo o que, convenhamos, é complicado, a não ser que o governante seja o próprio Jesus Cristo no Juízo Final. Não sendo Ele, é preciso haver certa margem de manobra para poder tecer alguma crítica e, ao mesmo tempo, apoiar o governo, não permitindo justamente que a esquerda se assenhore do monopólio da crítica. 

Segundo, uma base crítica significa vigilância. Todo governo precisa de vigilância. Um governo que seja vigiado apenas pela sua oposição radical é um governo sob forte pressão externa e nenhuma pressão da sua base. Em cenários como esse, a tendência natural é o governo não conseguir alterar em nada sua diretrizes, ou, pior ainda, começar a fazê-lo a partir dos critérios do inimigo. A existência de uma base crítica, que critique o que lhe parecem decisões ruins e aplauda o que lhe parecem boas decisões, permite ao governo se avaliar com maior isenção, sabendo que não está sendo esquadrinhado por um inimigo e, deste modo, poder seguir novos cursos de ação.

Dito isto, uma vez que o PSL parece, de fato, fechado a apoiar Maia, façamos votos que ao menos as reformas passem com facilidade a partir desse apoio. Se é para dar esse apoio, ao menos tenhamos uma consequência pragmática muito positiva (veremos os desdobramentos em breve). Teremos também muitas ocasiões para verificar esses dilemas e nos posicionarmos de acordo com a defesa de pautas, propostas e princípios. Finalmente, esperamos que a militância bolsonariana, a partir de agora, passe a fazer um discurso menos “purista”, tendo, pois, compreendido as complexidades pelas quais passaram outros grupos de direita, entre os quais o próprio MBL. Coerência é fundamental. Não podemos ser assombrados por atos do passado. Respiremos com alívio.