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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Imposturas e impostores

O mito e a farsa política

09/10/2019 22h22

Temos visto recentemente fenômenos interessantes no âmbito político social, relacionados a posturas de diversas pessoas frente ao governo que se estabeleceu no poder.

Na sua grande maioria, são pessoas que não tinham qualquer evidência no cenário nacional, exceto dentro de um círculo de pessoas, fruto da hegemonia que imperou por décadas na vida cultural, intelectual e educacional brasileira. Outras sequer tinham conhecimento acerca do processo político que se desenvolveu, mas, frente a iminente chance de sucesso, acompanharam o movimento favorável. Há ainda aqueles que mantinham um histórico de oposição ao pensamento em ascensão. Além desses há uma massa de pessoas que se formou em torno dessa ação.


É possível classificá-los nesse processo entre:

i) o círculo íntimo e mais próximo desses que conduziram a ação, que, embora não tivessem qualquer notoriedade, desenvolviam um pensamento desconhecido do público brasileiro em geral, mas com bases sólidas e intelectuais e que eram capazes de fazer frente ao poder estabelecido. Nesse grupo temos o mito ou herói, o guru, seus discípulos e seguidores;
ii) também temos o grupo adesista, que, com um certo atraso, descobriu a trilha de acesso a promessa de pertencer ao projeto de ascendência ao poder, mas que não mantinham qualquer formação necessária para pertencer, mas apenas o sendo de oportunidade, muito apurado em certas pessoas desprovidas de dignidade e temor à ridicularização. Justamente por se incluir voluntariamente, seu valor se reduz à mera instrumentalização, em conformidade com sua utilidade, estabelecendo uma relação precária;
iii) além daqueles que se lançaram por iniciativa própria, há os convertidos. Seriam aqueles que nunca mantiveram simpatia aos grupos e ideais, mas por um ato repentino, passaram por imediata transformação. Igualmente, ao renunciar a sua história, despiram da sua dignidade.
iv) o movimento somente poderia ter êxito se tiver uma aderência maciça popular, desde que fossem interligados pelo personalismo do líder a frente da movimentação.

As ideais firmadas em torno da figura do líder estão relacionadas à sua identificação como um ser escolhido para cumprir uma missão, de natureza escatológica, apelo à urgência, que dispensa maiores reflexões, especialmente referentes à existência de um plano ou alternativas, demandando atos extremos, combatendo um grande mal, que somente essa figura seria capaz de executa-lo. Na realidade, é o apelo emocional, visando a carência e fragilidade daqueles que são alvo da mensagem salvacionista.

A mensagem em torno desse mito, nesse caso, não pode ser sustentada por ele mesmo, exigindo a presença de uma figura que seja o emissário escolhido, por ser um indivíduo dotado de faculdades especiais para compreensão da revelação. Por ser o receptor da mensagem, detém o monopólio dessa verdade, que deve ser recebida e interpretada por seus emissários de forma estrita e fiel.

Os mais próximos e os discípulos devem ser fiéis cumpridores, zelosos para o cumprimento das tarefas que são atribuídas, mesmo que contrárias às suas convicções, sendo necessariamente responsáveis pelo êxito da ação, uma vez que a infalibilidade é uma característica dos superiores. O fracasso está vinculado à falta de observância do comando ou falha na interpretação do comando. Exatamente por isso se sujeitam à penalização. A aprovação é elemento necessário para ascensão e sentido de importância no grupo restrito. A confiança irrestrita é necessária, ou seja, fé e fidelidade.

Fora desse círculo há aqueles que por adesismo buscam a iniciação, se sujeitando de maneira irrestrita, pois, ao se candidatar a essa posição, simplesmente já não detém qualquer traço de amor próximo. A característica preponderante é a capacidade de representar a mensagem e se portar como fiel combatente.

As conversões são mais do que necessárias, uma vez que o projeto necessita de aliança, mesmo que conflitantes, exigindo o processo de transformação para eliminar a aparente incoerência. A confissão e os votos bastam para a confirmação.

A estrutura hierárquica é mantida por uma condição: a submissão.

A submissão é a moeda de troca, cujo valor é arbitrado pelo guru e mito, em conformidade com a missão a ser realizada. A submissão consiste em diversos atos de demonstração de fidelidade, renúncia à personalidade, à opinião, à dignidade, tudo que diferencia o sujeito como indivíduo.

Os discípulos constantemente estão sujeitos à avaliação de aprovação e promoção ao círculo íntimo, detendo alguns privilégios, que oferecem motivação, perdendo, conforme o insucesso da sua tarefa.

Os iniciados se prestam a qualquer coisa em troca de uma recompensa imediata. Não têm nada a oferecer além de sua sujeição, que, finda sua serventia, recebem o tratamento correspondente. Há, apesar disso, um sentimento de pertencimento, de afetividade e dependência emocional. A ausência de valor é substituída por atos extremos de demonstração de fidelidade, que confere alguma aparência de importância ou destaque quanto aos demais.

Os convertidos estão renunciando a sua história, sendo suficiente para, ao professar a nova crença, está renunciando a si próprio, em busca de uma retribuição. Nessa condição, já se coloca à disposição para se sujeitar a qualquer comando, sem qualquer poder de barganha futuro.

A massa é complementada pela multidão de seguidores, pessoas não identificadas, pelo volume de pessoas agregadas, que, apesar da aparente diversidade, formam um ser homogêneo ligado pelo fim absoluto, que é a superação de um inimigo, a vitória sobre o mal, sempre em forma escatológica, que não admite desvios, desistências, questionamentos e recuos, pois carregam a verdade e deve ser defendida e efetivada a qualquer custo.

Essa estrutura não permite a divergência, uma vez que já domina os seus integrantes que se prestam à submissão total.

A massa se reúne pela incapacidade do sujeito de suportar as responsabilidades advindas das ideais próprias, que devem ser constantemente defendidas, exigindo um custo de informação e esforço, que é uma opção mais árdua do que seguir à corrente, no difícil processo de leitura política.

Identifica-se na massa o apelo emocional ao sentido de pertencimento, de confirmação da opinião de forma quantitativa e não substantiva e forma de segurança e conforto, como se extrai das lições de Elias Canetti, Gustave Le Bon, Eric Hoffer, Eric Voeglin, entre outros.

Como a grande massa reunida não tem valor próprio, a forma de execução é sempre a mais bárbara, sendo capaz de praticar em nome de uma moralidade, atos que espantam qualquer valor espiritual, mas tem um sentido maior, que a justifica. Mas a massa exige o seu crescimento contínuo, que deve ser combinada com a submissão, sendo necessário, cada vez mais, a convocação de sujeitos desajustados da sociedade.

A ação é um grande culto ao mito. Aparentemente ridículo, concede forças à prática de atos irracionais e cada vez mais fiéis, que em grandes proporções preserva um estado de catarse permanente.

Os elementos que permitem a formação dessa massa são de difícil coincidência, mas o espírito do tempo jamais perde essas oportunidades. O sentido de urgência está ligado ao clamor popular por mudança, ruptura ou quebra da ordem, com apelo unicamente emocional.

Deve ser sempre radical, eliminando aqueles que são apontados como responsáveis pela situação atual, culminando no sectarismo, que conduz à purificação, mesmo que seja ao custo de elementos de violência psicológica e até física. Não há espaço para diálogo, uma vez que a mensagem é dada por figuras especiais, cuja compreensão secular não seria capaz de entendê-la. Seria inútil, mas como empecilho ao cumprimento da missão, devem ser sumariamente superados.

No caso presente, esse momento histórico é conduzido em nome da “guerra cultural”. A missão é a eliminação do mal que ocupou os espaços políticos, institucionais, culturais, educacionais e sociais, que falhará se não se proceder de forma mais extremada, concedendo licença para utilizar atos de violência contra o adversário.

As divergências internas são vistas como traição, passível de punição imediata. Há a excomunhão, acompanhada do escárnio público, com reprodução do “zero ao infinito”, que é cumprido com intensidade máxima, com a esperança de retribuição e reconhecimento. Aqueles que por fatalidade podem ser responsabilizados por eventual desacerto, são utilizados como exemplos para punição e humilhação. Aqueles que se colocaram à disposição por vontade própria, renunciando à personalidade, são eliminados habitualmente, da forma mais degradante.

As resistências à conversão também são causa para agressões, fixando o alvo de ataque com a pecha de inimigos do processo salvacionista. Os inimigos estabelecidos desde o início não podem ser suportados, devendo ser subjugados ou extintos.

Nesse processo não se admite intermediadores, pois a mensagem se destina a massa, a abstração, o “povo”. As instituições não são componentes do trânsito da vontade popular, mas empecilhos, que tem servido aos interesses escusos.

Embora seja empregado acima um tom grave e sombrio dessa singela e sumária descrição, não é possível identificar e enquadrar esse aparente caos que vivenciamos no cenário político nacional?

O que aparentemente é o desgoverno e caos é método, uma vez que os atos se encaixam nessa sistemática. É possível se abarcar por essa ótica atos desde a seleção de membros autorizados à intimidade do centro de poder, demissões degradantes de ministros ou membros do governo, ataques ou incitações contra inimigos como veículos de informação, pedidos de apoio incondicionado, discurso direto ao seu público, declaração de infidelidade, defesa de incoerências e constrangedoras demonstrações de fidelidade, etc.

A preocupação nacional está firmada em questões de interesses pessoais em relação à assuntos de governo, sem qualquer enfrentamento dessa temática de poder. Alcançado o fim almejado e satisfeitas as pessoas, o projeto de poder resta estabelecido, fixando em mecanismos cuja resistência será muito mais complicada.
Não é possível relacionar imediatamente à regimes de natureza coletiva e autoritária que tem se sucedido, apesar dos traumas e perdas humanas?

Nossa esperança natural, reluta em admitir isso, principalmente por resistir a ideia de que estamos diante de fatos que repetem períodos históricos inconcebíveis. Mas a realidade não tem qualquer apreço pela nossa esperança, se não há sequer iniciativa para entendimento dela.

O espírito de nosso tempo é sempre compatível com mudança no imaginário, sob o qual os valores vigentes têm aderência. A ideia de progresso, abastecida pela crença no domínio técnico, econômico, científico, tem substituído a imprescindível simbologia que limitou os impulsos humanos do avanço sobre os campos do desconhecido, que habitava o subconsciente humano, sustentado pelo divino, como explicado em Carl Jung, Joseph Campbell.

Ao eliminar o divino, invadindo o mistério através do conhecimento científico, caminhamos rumo a deificação do ser humano, onde não há um sistema próprio de valores que se sustente, pela finitude de sua existência, que, até hoje, somente foi possível ser superado por elementos metafísicos, ou melhor, espirituais. Com isso, se rompe o sistema que se sustenta a humanidade, firmada entre o sagrado e o profano, destacada pela elaboração por Mircea Eliade e Rene Girard.

O fenômeno produzido redunda na ideia desenvolvida por Ernst Cassirer em “O mito do Estado”. A simbologia que envolve a humanidade não se suprime. Há a identificação em elementos contemporâneos que geram efeitos na busca de sentido, mas se assentado na finitude da realidade humana, que se sobrepõe ao eterno.

A demanda humana por sentido passa a ter uma limitação à necessidade de segurança e oferta de uma vida idealizada, com crescente medo do inesperado, do incerto, do futuro.

Como efeito contrário há a ascensão da promessa de proteção, que se sucedem nos mais diversos regimes políticos e governos. Os efeitos colaterais são atos extremos, representados com destaque no ataque de 11/9 aos EUA com demanda por respostas ainda maiores. As necessidades pela fruição máxima de cada interesse, com ressentimento crescente e insatisfação, gera um grande problema democrático, que tem produzido, contraditoriamente, figuras “populistas”, de viés cada vez mais autoritário, apelando para valores sem aderência à verdadeira ordem moral, como meio de radicalização e instrumentalização.

As seitas e fanatismos sectários, incluindo o religioso, sempre foram a falsificação desse sistema moral genuíno, manipulado por impulsos baseado na mentalidade supressora e autoritária, que despreza a alma, subjugando-a, mas oferece e conforto de sentido, baseado em impulsos emocionais. A combinação entre o esquema de seitas, baseado em fanatismo, e política salvacionista, fornece elementos para emergência de regimes de natureza autoritária.

Como ensinou Cassirer: “o mito não foi realmente vencido e subjugado. Está lá sempre, espreitando no escuro e esperando a sua hora. Essa hora chega quando as outras forças unificadoras da vida social do homem, por uma razão ou outra, perdem sua força e já não são capazes de lutar contra a força demoníaca do mito.”

O governo nacional atual é um resultado inevitável da demanda por ordem, simulando uma defesa de valores, sem que fossem estabelecidos certos paradigmas e parâmetros para o desenvolvimento humano e individual, por temor da responsabilidade e valores de natureza superior.

A submissão é condição exigida por impostores, diferentemente do consenso obtido por verdadeiros líderes. Produzimos, assim, impostores. A coerência das ações é resultado de sucessivas imposturas.