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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Homem de Moro no COAF caiu. Ou: Mais um capítulo no acordão com o Supremo

Verdades precisam ser ditas — sob pena de nos tornarmos, todos, petistas de sinal trocado

20/08/2019 16h21

Até quando a direita brasileira vai continuar bovina, plácida, impávida, perdida entre mitadas na imprensa e disputas bobocas de rede social? Até quando irá fingir que o presidente da república não está metido até o pescoço num grande “acordão nacional”, como muito bem exposto pela Revista Crusué, envolvendo as forças políticas do Centrão e o STF?

Os elementos são muitos. Desde o fatídico despacho de Dias Toffoli — beneficiando Flávio Bolsonaro e investigados na Lava-Jato — temos um novo Bolsonaro na área. Não mais o “Johnny Bravo” turrão e jacobino, disposto — lembremos da retórica eleitoral — a “meter em cana todos esses vagabundos“. Nada disso! Temos, sim, um Bolsonaro do conchavo pouco republicano, do acordo com Supremo, do “filé mignon pro meu filho”.

É o Bolsonaro que interfere na Polícia e na Receita Federal. Que o faz, lembremos, berrando que “aqui quem manda sou eu“. Que orienta a bancada do PSL — e não fuja da conversa, caro amigo! — a colocar o “Abuso de Autoridade” em regime de urgência. Que rifa Sérgio Moro em praça pública, que chama Dallagnol — mesmo ele tendo, de fato, muitos defeitos — de “esquerdista tipo PSOL” nas redes sociais.

SÉ o Bolsonaro que pretende indicar um amigo de Toffoli, devidamente trabalhado por Flávio Bolsonaro, para a procuradoria geral da república. É o Bolsonaro que ignora Moro para escalar o “terrívelmente evangélico” — e terrívelmente ex-funcionário de Toffoli — André Mendonça para o STF. É o Bolsonaro — o mito, o infalível! — que veta projeto de lei abordando a sanha legisladora do Supremo Tribunal.

Sei que muitos já desistiram da leitura até aqui. Ossos do ofício. Lidar com tais contradições tira o sono de quem pretende enquadrar o mundo no dualismo mocinhos x vilões. Mas verdades precisam ser ditas — sob pena de nos tornarmos, todos, petistas de sinal trocado. Não podemos nos abster de falar o que deve ser dito!

Na tarde desta terça-feira o presidente da república oficializou o UIF – Unidade de Inteligência Financeira, órgão que substituirá o finado COAF. Além de perder parte de suas atribuições — dentre elas a cooperação direta com PF e MPF, suprimida na medida provisória — também poderá ser alvo de aparelhamento. De acordo com a medida, cargos comissionados poderão ocupar sua estrutura administrativa. E para muitos, está tudo bem.

Além disso — sintoma da lógica operacional do presidente — caiu Roberto Leonel, indicado de Moro para a presidência do órgão. O motivo? Leonel criticou, com razão, o despacho de Dias Toffoli em petição de Flávio Bolsonaro:

“Não cabe ao Coaf questionar decisões judiciais. No entanto, não há como negar a preocupação com o impacto imediato da decisão liminar e, principalmente, caso seja mantida no julgamento de mérito (no plenário do STF). Nesse cenário, a efetividade do sistema brasileiro de prevenção e combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, que tanto evoluiu nos últimos anos, ficaria sensivelmente prejudicada”

Roberto Leonel, ex-presidente do COAF, ao Estado de São Paulo

Leonel cometeu erro capital em tempos de Filé Mignon paternal: discordou, ora bolas, de decisão que beneficiava o filho do presidente. Filho este, vale ressaltar, envolvido em esquisitíssimo — e já abafado — escândalo de repasses de dinheiro envolvendo seus assessores na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

Dando Bolsonaro como “Mito” — um Aquiles, para facilitar a analogia — temos que Flávio é seu calcanhar. Graças a ele, o tal “sistema” — ou “estamento burocrático” , como preferem os próceres de Olavo — colocou cabresto na “Revolução Conservadora“. E Bolsonaro, de bom grado, vem cumprindo sua parte no Grande Acordo.

O rei está nu. E quem apontar o dedo para o óbvio será tirado do caminho. Hoje foi Roberto Leonel, homem do “COAF com Moro” pedido pelas ruas; amanhã poderá ser alguém ainda mais relevante.

Aguardemos os vetos ao abuso de autoridade.

Quer saber mais? Assista o vídeo a respeito: