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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Há um lugar para o lugar de fala? (o problema)

“Lugar de fala”, indiscutivelmente, é uma expressão de uso típico na esquerda. Costuma ser utilizada como um

12/12/2018 11h54

“Lugar de fala”, indiscutivelmente, é uma expressão de uso típico na esquerda. Costuma ser utilizada como um popular cala a boca, um modo preguiçoso e oportunista de excluir opiniões divergentes, sob o signo da justeza discursiva. “Não, você não pode falar sobre a situação de x ou y ou z porque nunca a vivenciou. Você não pode opinar sobre os sofrimentos de x ou y ou z porque é da raça, do sexo ou da classe social que, supostamente, os oprime. Cale a boca!” – eis o lugar de fala que lhe sobrou, o silêncio.

Sabidamente, a esquerda sabe variar as razões, dosando fala e silêncio. Quando Holiday, vereador negro do MBL, discorda da opinião corrente do movimento negro, ele começa, se não exatamente a embranquecer, a assumir papéis sociais negativos: vira o capitão-do-mato, de açoite na mão, a zurzir o lombo de seus irmãos pretos sob ordens dos sinhôs. Se ele fosse mulher e não-feminista, presumivelmente seria a mulher dominada pelo marido, frustrada e submissa, fofoqueira contumaz da sacada, que sussurra, maliciosamente, contras as “manas” mais “livres”. Para qualquer grupo supostamente desprivilegiado, é possível imaginar o personagem odioso, dele egresso, subjugado pelos grupos hegemônicos e que lhe serve como capacho.

É lógico que se é assim, a primeira consequência é notar que a esquerda reafirma a universalidade do discurso, independente do lugar de fala. O pressuposto evidente dessa tática torpe desmente o fundamento: o erro objetivo do discurso mostra que o seu lugar de fala está distorcido. É óbvio que, nesse caso, é a validade universal do discurso o critério que calibra a correção do lugar de fala, e não o lugar de fala que valida o discurso. A única dificuldade para o interlocutor de direita, quando branco, hétero, homem e cis é não cair na armadilha psicológica da esquerda; perceber e mostrar tática é facílimo.

Por isso mesmo, lhes proponho algo diferente. Quero mostrar que existe um sentido legítimo para a concepção do lugar de fala, que guarda uma ligação muito vaga com a tópica da esquerda, a qual compartilha, ao menos, uma intuição correta.

Há, basicamente, dois modos de analisar tal conceito. Ou por via histórica, na qual destilaríamos o conceito no cadinho das minúcias do estado da arte, ou pela análise conceitual pura, tentando projetar, dialeticamente, quais as implicações e pressupostos embutidos na ideia de um lugar de fala. Seguirei a segunda posição.

Lugar de fala é um conceito epistemológico e assertórico, contido numa metáfora espacial. Um lugar está sempre num espaço. Se há lugar de fala, para além dele, circundando-o,  existe o espaço discursivo total, que presume o entrelaçar de todos os discursos reais e potenciais. Um diagrama de Venn poderia mostrar as intersecções dos vários lugares de fala com seus múltiplos discursos.

Lugar também traz um ângulo. Quem está em um lugar situa-se frente aos demais que estão em outros lugares. Assim, na metáfora espacial, o opressor olha o oprimido por cima e pelo ombro; talvez o interseccione, dolorosamente, naquilo que ele tem de historicamente frágil, por onde nasce a dominação. Um opressor não pode compreender bem os problemas do oprimido porque não possui a sua perspectiva. É uma questão de ver. Ele está de costa para tudo o que importa na condição do outro. E não pode enxerga-lo.

No approach clássico da esquerda militante, o lugar de fala é determinado pela sua condição biográfica, portanto, ele é fixo. Se você é homem, não importa o que faça, jamais poderá entender realmente a perspectiva feminina, exceto apenas aceitando-a (e aceitando-a das feministas, mas aí já é o roubo no truco). Seu lugar de fala está determinado pela sua condição concreta. Se você é rico, há constrangimento similar. Talvez seja necessário empobrecer, passar uns bons anos na miséria e – voilá – você pode começar a enxergar as coisas na direção adequada.

O que, geralmente, muita gente não percebe é que isso tudo tem raízes antigas, mesmo veneráveis. Tem a ver com aquele grande e belo e terrível movimento chamado iluminismo. E com a não menos gigantesca reação histórica do pós-iluminismo. Tem a ver com poesia e filosofia, com as ciências da natureza na sua velha tentativa de colonizar a compreensão do mundo. Tem a ver com a filosofia do Eu, do Outro, com os grandes temas da fenomenologia, com o existencialismo e a cadeia dourada do Ser. Estou louco? Quero crer que não. Acompanhem.

Todo mundo sabe que o grande projeto histórico do século XVIII foi o iluminismo. Aufklärung, Enlightenment, Illuminisme – as grandes nações da época tiveram um iluminismo para chamar de seu. Em comum, todo iluminismo trazia a esperança messiânica em uma revolução da Razão, no inaugurar de todas as coisas como se dantes nada houvesse, assim como em gênesis, quando Deus-Pai ordena “Fiat Lux!”. Mas a luz era Newton – como no poema célebre de Pope – e ele refulgia com as órbitas esféricas perfeitas da Razão instrumental.

Naturalmente, diante de um projeto tão abrangente, nada ficou intocado. Foi como o desbastar da natureza virgem, que macula os santuários florestais da religião dos antigos. O desbastar petulante, racional, científico, amadurecido pela frieza das relações comerciais e pelas novíssimas descobertas do espírito, trouxe o gradual desencantamento do mundo. O mundo foi desencantado pelas ciências. Nossa weltanschauung foi geometricamente cortada e pesada e medida. Pois Deus a tudo fez com número e medida, já diz a Escritura. Número e medida foram, enfim, descobertos, só que não havia balança para Deus.

O grande paradoxo dialético é que o esforço de desencantar era tamanho que novos encantamentos foram criados. Um deles foi a ideia de que todas as ciências aspiravam ao mesmo tipo de objetividade das ciências naturais, sendo medidas quanto ao grau de objetividade alcançada pela proximidade relativa do modelo matemático haurido da física e depois da físico-química. Assim, a sociologia nascerá como “física social”. A História, revolucionada pelo gênio de L. von Ranke, será posta nos trilhos da ciência pelo exame imparcial dos documentos (é impossível matematizar os eventos singulares). As ciências do homem, da subjetividade humana – palavra de ordem! – serão purificadas de todo valor, de toda subjetividade, destiladas em um gigantesco laboratório ideal. O processo dura mais de um século. Esforços sem conta são realizados. Como resultado, temos a sociologia positivista, a sociologia weberiana e a funcional. O uso das estatísticas em sociologia. A matematização da psicologia por Wundt. A filosofia da lógica, os desenvolvimentos do neopositivismo do círculo de Viena. E assim por diante.

Aí vem a reação. A reação não é um gracejo. É uma reação violentíssima, arrasadora, tremenda. O próprio iluminismo, com sua filosofia tipicamente inglesa dos sentimentos sociais já traz as contradições que se tornarão agônicas. Por sua vez, o romantismo, imbuído de contravalores, estimula a reação, a qual vai culminar no pós-modernismo que, malgrado os exageros, praticamente sepultará de vez as pretensões de universalidade daquela Razão instrumental iluminista. Como resultado, temos as geisteswissenschaften, a filosofia da arte de Riegl, as novas escolas historiográficas francesas, a crítica social de Lyotard, Lipovetsky, Baudrillard, o pós-estruturalismo, o existencialismo, a fenomenologia. E assim por diante.

Convenhamos, não é pouca coisa. Mas, afinal, o que esses dois arcos tem a ver com o assunto, com o maldito lugar de fala? 

Como o artigo já está gordinho, deixaremos  o desenvolvimento para o próximo. Não se frustrem, não se desesperem. No próximo artigo, mostrarei como a discussão do lugar de fala tem a ver com a oposição desses dois projetos e qual é o lugar legítimo – se existe algum – para esse apelo à subjetividade discursiva.