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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Há um lugar para o lugar de fala? (a solução)

No artigo anterior, coloquei um problema: será que existe um papel legítimo para a ideia de lugar

21/12/2018 10h50

No artigo anterior, coloquei um problema: será que existe um papel legítimo para a ideia de lugar de fala, propalada pela esquerda mundial? Colocamos o problema descortinando dois horizontes macro-históricos: o projeto do século XVIII, o Iluminismo, e a resposta anti-iluminista, cujo último avatar talvez seja o pós-modernismo. De certo modo, o evento central da história do Ocidente nos últimos três séculos é o Iluminismo. Todas as nossas discussões se dão neste âmbito. Assim, a pergunta se esse tipo de pano de fundo tem a ver com o lugar de fala é facilmente respondida. E pode ser melhor ilustrada, como segue abaixo.

Quando alguém invoca o lugar de fala ele está valorizando a subjetividade dos juízos históricos e sociais, da argumentação sobre as condições históricas e sociais. Assim, se você entra em um debate sobre a questão do negro favelado, mas é rico e branco, surge a pergunta: será que você sabe o que essas pessoas passam para poder argumentar sobre a condição delas? Em uma versão iluminista, a sua condição biográfica não seria um óbice infranqueável, pois sendo a Razão universal, o que importa é a correção dos dados, o apelo às estatísticas corretas, os bons argumentos. Tudo é plano e claro. O único problema seria a nossa incapacidade de lidar, racionalmente, com o assunto, o que se resolve mediante o embate argumentativo e um melhor exame dos fatos.

A visão não-iluminista coloca o problema da subjetividade. Ela se antepõe como a dizer: “Tudo bem, meu caro amigo. Agora, vamos para a prática. Você está vendo os mesmos dados que seu interlocutor, tem acesso ao mesmo conjunto de informações. Entretanto, sua opinião é bem diferente. Será que a sua condição biográfica, a sua subjetividade não intervém nisso aí?”.

Em filosofia da mente, existe um divertido e famoso experimento mental chamado de experimento do “quarto preto-e-branco”. Mary, uma cientista hipotética, sabe tudo, absolutamente tudo sobre o funcionamento do mundo físico, o que podemos estender para todo conhecimento do mundo objetivo, o que inclui todos os fatos físicos, todos os dados relacionais e tudo que depende de indexicação. Deste modo, ela conhece, por exemplo, como se dá a formação cerebral de cada pensamento subjetivo de cada indivíduo ao longo de toda a história, e consegue correlacionar todos esses fatos de modo absolutamente total. Certamente, nossa cientista hipotética tem uma inteligência muito acima da capacidade de qualquer ser humano já nascido. Entretanto, há um probleminha com ela. Ela fora educada, durante toda a sua vida, em um quarto preto-e-branco, por livros, filmes sempre em preto-e-branco. Jamais viu uma cor sequer.

Considerando que Mary sabe tudo sobre a formação óptica e nervosa da cor, será que o conhecimento do mundo que tem Mary é completo ou lhe falta algo?

A resposta intuitiva é que lhe falta o conhecimento subjetivo das cores. Parece que mesmo possuindo todas as informações possíveis sobre a formação óptica da cor e como se dá o circuito neuroquímico do cérebro quando alguém vê, por exemplo, o vermelho – tudo isso não fornece o conhecimento do que é o vermelho. Esse conhecimento seria irredutível, fenomênico e, necessariamente, subjetivo. Assim, a subjetividade acrescentaria um continente próprio ao mapa do conhecimento humano.

Há extensa literatura a respeito desse famoso experimento. O que nos interessa é que, se a conclusão intuitiva estiver correta, temos um limite absoluto à capacidade de fornecer informação mediante argumentação objetiva – a própria existência de um conhecimento irredutivelmente subjetivo.

Agora, mesmo imaginando situações menos radicais, podemos ver que a subjetividade, e as várias modalidades sociais da sua conformação em clivagens etárias, por emprego, raça, sexo, etc modulam as opiniões que temos a respeito do mundo. Uma das pesquisas estatísticas mais comuns é aquela que seleciona um grupo amostral por idade, sexo, profissão ou religião e oferece um questionário político. Ora, o que sempre se nota, qualquer que seja o conteúdo específico do questionário, é que as pessoas tendem a possuir crenças e a defender argumentos relativamente similares dentro dos seus grupos. Em outras palavras, a intersubjetividade coletiva parece modular o modo como nós percebemos o mundo e, por conseguinte, o tipo de opinião que nos parece mais razoável e os argumentos que selecionamos para defendê-lo.

Um objetivista estrito nos objetaria que as consequências estatísticas não servem para validar ou invalidar um argumento. Independente do quanto as condições sociais possam influenciar o interlocutor, o que conta na inquirição séria são as suas razões, bem como a amplitude e correção do conjunto de informações utilizado. Essas coisas são objetivas. Deste modo, um silogismo inválido ou uma falácia não-formal continuam falhos independente de qualquer presumido “lugar de fala” evanescente ao qual queiramos atar o interlocutor.

É uma visão sedutora, mas, creio eu, um tanto simplista. Primeiro, como é bem óbvio, argumentos devem partir de premissas. O exame das premissas pode ser muito mais complexo do que exemplos básicos sugerem. Uma coisa é minha premissa ser um fato elementar da percepção, a ser apreendido empiricamente de maneira direta. Imagine que o meu fato é: “Há um copo vermelho nessa mesa.” Neste caso, não se vê porque vários interlocutores, de sexo, raça, cultura diferentes, não chegariam a um consenso quase imediato; entendendo os termos da frase, não sendo daltônicos nem cegos, qualquer um pode averiguar a correção da premissa.

No entanto, nem toda premissa é um fato elementar da percepção. Uma premissa de meu raciocínio – que faz parte, digamos, de uma crítica cultural – pode ser de descompactação infindável. Digamos, “muçulmanos tem uma cultura violenta”. Uma extensa pesquisa histórica a respeito do Islam é totalmente incapaz de servir de veredito definitivo para essa frase, inclusive porque historiadores e islamólogos frequentemente divergem quando resolvem expressar juízos de valor sobre a cultura estudada. De Robert Spencer a S.H.Nasr, existe uma miríade de nuances, que fazem da violência ora um elemento essencial e definidor, ora apenas um aspecto guerreiro enobrecido por uma cultura essencialmente pacífica e espiritual.

Não adianta o objetivista argumentar que, no fim das contas, um lado está certo, invocando o princípio de não-contradição. Nesses assuntos, é possível que haja visões relativamente certas e relativamente erradas, sem que precisemos generalizar o relativismo. Além disso, ainda que um lado esteja inequivocamente certo, como decidir entre eles? É razoável supor que as dúvidas, instauradas no seio da comunidade dos islamólogos, previnam qualquer decisão ágil no tocante as opções. Se os especialistas não conseguem chegar a um consenso, será que temos razões tão sólidas para excluir definitiva e inapelavelmente um dos juízos de valor?

Ora, essa fluidez é comum no campo dos juízos de valor, mas não só neles. As investigações sociológicas, historiográficas e antropológicas parecem sempre albergá-la, e o motivo pelo qual isto ocorre é, justamente, a diferença de natureza dessas investigações para com as das ciências naturais. A ideia de uma cópia servil das ciências positivas da natureza era, justamente, uma das aspirações iluministas falhadas, duplamente aliás, porque nunca aconteceu e porque o próprio apelo foi deixado de lado (há correntes minoritárias que tentam recuperá-lo, todavia).

No cerne do “lugar de fala” temos essa constatação. Que não importa quão hábeis sejam os argumentos, ou quão extensas sejam as pesquisas empíricas, a sua condição biográfica modula não apenas o modo como você argumenta e os fatos para os quais a sua atenção se volta, mas a sua própria percepção. Dois argumentos podem ser igualmente válidos e se tornarem desigualmente convincentes para plateias diversas, quando os valores dos quais as plateias são imbuídas são distintos. O compartilhamento de valores é, profundamente, um compartilhamento de olhares, do modo de ver as coisas. E, como ficou claro no início do artigo anterior, lugar de fala é a metáfora especial da qual se infere o ângulo de nossa percepção. A condição do outro exige um esforço de empatia compreensiva, que é a base da percepção e da intuição, logicamente anterior ao trabalho já construtivo de criar argumentos.

Então, isso significa, que retirada a malícia do uso político do “lugar de fala”, a esquerda está certa? Existe realmente uma barreira inultrapassável entre o branco e o preto, a mulher e o homem, o rico e o pobre, perante a qual o “opressor” deva se calar e permitir ao “oprimido” falar? Existe um privilégio epistêmico no debate?

Minha argumentação parece sugerir que sim. O que me parece muito claro é que a resposta objetivista às inflexões da esquerda é uma resposta ingênua. Essa resposta pode e costuma ser desconstruída, com louvável habilidade, por intelectuais de esquerda mais capacitados, que conseguem alcançar a abstração necessária para o debate. Esta é a razão de o neo-iluminismo ser uma ideologia minoritária no debate contemporâneo – e não simplesmente o roubo das cátedras por parte de professores malvados, o que, de fato existe, mas não serve de explanação ad hoc universal.

Contudo, existe um extraordinário problema na versão de esquerda do lugar de fala. Ela é fixa, justamente utilizando a condição biográfica como limiar rígido para excluir do debate ou reduzir o peso da fala de quem se estereotipa. Na medida em que isso ocorre, ela cai num erro gravíssimo. Ela se esquece que entre mim e você, o branco e o negro, a mulher e o homem existe mais do que a razão argumentativa – existe uma faculdade maravilhosamente empática chamada de imaginação. Neste sentido, não é preciso, de modo algum, vivenciar concretamente as situações para poder compreendê-las. É possível refinar a imaginação para com isso refinar o olhar, a percepção, o modo de ver as coisas.

A educação do imaginário é o fruto nobre da formação cultural, da paidéia. A literatura se torna inquestionavelmente importante na aquisição de cultura não apenas porque nos permite dominar esteticamente a língua, mas porque nos permite imaginar uma infinidade de possibilidades, de vivências, de modos de ser que nos tornam mais sensíveis no sentido apropriado da palavra. O indivíduo sensível não é um chorão, ou uma pessoa dramática, ou uma pessoa emotiva. A emocionalidade excessiva frequentemente se opõe a sensibilidade, porque é o extravasar quase animal de emoções pouco refletidas. O que caracteriza o indivíduo sensível é sua percepção mais afinada, ampla e profunda. Ele sente melhor e sente com maior profundidade.

Ora, a sensibilidade ultrapassa qualquer limite biográfico. É lógico que a vivência de uma situação nos permite ter um conhecimento fenomênico daquilo. Por outro lado, também nos limita, cria vezo no olhar, nos identifica em demasia com o que nos passamos. O lugar de fala, entendido como um marco biográfico, é um privilégio epistêmico ambíguo, pois dá e tira. É precisamente a aquisição da cultura que ultrapassa o marco biográfico, e permite exercitar a imaginação enquanto faculdade chave para a compreensão das situações experenciais as mais diversas, das mais variadas culturas, e daquele abismo que separa um indivíduo de outro indivíduo. Não é a toa que foi na poesia que se vê a mais bela expressão dessa empatia. Assim, o poeta John Donne expressou, em um belíssimo sermão, o sentimento de comunhão de quem sente a morte do outro “Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”