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Formado na Faculdade de Direito do Recife. Perdido entre a poesia de Manuel Bandeira e a de Marília Mendonça. Só bebo em copo americano.
Guimarães Rosa e a poesia de ser isentão

Com a extrema culpa de usar Guimarães pra falar da política brasiileira

15/07/2019 14h34

Hoje pela manhã acordei de sonhos intranquilos.

Nesses sonhos, algo me dizia que eu deveria reler A Terceira Margem do Rio, obra magnifica de Guimarães Rosa.

Pus me acordado, tateei o livro e li pela segunda vez o Conto do autor de Grande Sertão: Veredas.

Assim como na primeira vez, assombrei-me pelo domínio do idioma que só pôde ter sido concedido por iluminação divina direta.

Também assim como na primeira vez, entendi muito pouco do que Guimarães quis dizer com A Terceira Margem.

Toda grande obra pode ser interpretada de várias maneiras. Toda grande obra é simbólica.

Mas, angustiado, recorri ao amigo Marcelo Franco (um dos sujeitos mais inteligentes deste HIC SVNT LEONES) para que ele me alumiasse sobre um dos possíveis significados de estar à Terceira Margem do Rio.

Franco me clareou que estar à terceira margem é estar “marginalizado” da sociedade.

Não estar onde todos estão. Não fazer o que é esperado, comum ou convencional.

Estar à terceira margem demanda coragem e constância.

Resiliência – característica fundamental dos campeões, dos líderes e dos santos, como diria um amigo em comum (nosso, meu e do leitor).

No Brasil atual, a tática do “nós contra eles”, iniciada pelo petismo, encontrou eco, ressonância e espelho na direita chapa branca.

A individualidade, o maior presente de Deus à natureza do homem, não é vista como um valor altaneiro.

Aquele que ousa se posicionar conforme sua própria consciência é apedrejado como o mendigo em Apolonio de Tiana.

O recado que as facções barulhentas nos dão é muito clara: junte-se, alinhe-se, cale-se para a divergência, ressoe a unidade.

Faça isso, obedeça ou morra.

Por eles, pelos obcecados e alucinados pelo espírito de guerra, ou ficamos juntos ou estaremos dando abertura para a vitória do inimigo imaginário de ocasião: sejam os fascistas ou os comunistas.

Um teatro pé de escada sobre as horas sombrias do último século.

A guerra fria em pornochanchada.

Nessa loucura coletiva, Tabata Amaral, por exemplo, é chicoteada ambidestramente por ser de esquerda e ser a favor da Reforma da Previdência.

Como se fosse uma aberração humana ser concomitantemente a favor de legalizar maconha e entender de matemática básica.

Nesse mundo ao revés, a gente chega a discutir (e ainda vê gente defender) a idéia insana de Eduardo Bolsonaro (que nem português sabe falar) como Embaixador do Brasil nos EUA.

“Sou formado em direito e falo inglês”, diz o rapaz. Como se isto o qualificasse para o cargo de Embaixador Brasileiro nos EUA.

Se isso não for chiste, só demonstra a total idiotice do rapaz, que acredita mesmo que essas qualificações são realmente um diferencial e que o deixam apto a exercer um alto cargo na diplomacia.

Mesmo assim, aquele que se recusa a aceitar a plausibilidade da indicação de Eduardo para o cargo deverá temer as investidas dos cães de guarda do Presidente Bolsonaro.

É um mundo de terraplanismo geográfico de um lado contra o terraplanismo econômico de outro.

Uns levam a sério o pavão misterioso, ao passo que outros riem da idéia da previdência deficitária.

Num mundo destes, é preciso cada vez mais ter a coragem de estar à terceira margem.

Não será fácil. Nunca é.

Mas o que está em jogo não é uma questão de partidos políticos – de 13 ou 17 -, de cores – de ser vermelho ou verde e amarelo….

É muito maior do que política.

O que está em jogo para nós é talvez a grande pergunta dos mártires durante a história:

Você prefere estar com a turbamulta ou com a razão?

Eu, de cá, prefiro e vos convido para a terceira margem.