Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Greta Thunberg: um produto de nosso tempo

Greta, personalidade da Time de 2019. Consegue lembrar quem foi em 2018?

12/12/2019 19h13

Greta Thunberg é a personalidade de 2019 segundo a revista americana Time retornando aos debates sobre a sua representação ou importância no cenário mundial.

Surgem em destaque dois grupos de opiniões antagônicas, excessivamente afetados emocionalmente pelas sensações geradas pela adolescente sueca. De um lado seus admiradores, que reproduzem suas frases, como profecias e ensinamentos profundos à humanidade, emanados de uma figura jovem, inocente, sonhadora, corajosa, etc. De outro lado, estão muitos que têm repulsa imediata, manifestando indignação quanto à arrogância juvenil de exortar os adultos por sua ganância econômica, destacando sua idade e descolamento da realidade que assola o mundo.

Um lado a admira pela simples razão dela simbolizar uma causa pela qual tem apreço, atribuindo um significado para suas vidas. Uma garota! Uma garota, em sua tenra idade, despojada de pretensões puramente materiais, capaz de expressar o sentimento de preocupação por algo tão nobre. O outro lado, apegando-se ao fato de ser uma guria, pirralha, teenager, vinda de um país de alto grau de desenvolvimento humano, mais prósperos da humidade, além de extremamente agressiva, irritante, não poderia ser tão exaltada.

Em ambos os casos, de concordância ou divergência, são argumentos relacionados a questões superficiais, tomados a priori como relevantes, produto do mesmo fato que a fez ser tão notável, a estética como produto de uma sociedade de consumo da comunicação, rendendo por isso o lugar na revista.

Impossível negar a ideia de que Greta é uma personagem, cuja imagem e ações têm grande repercussão e influência mundial, rendendo-lhe o espaço principal da magazine americana, que não tem como finalidade destacar o personagem que teria realizado algo benefício para humanidade. A revista já estampou figuras como Adolf Hitler, Joseph Stalin, Nikita Khrushchev ou Ayatollah Khomeini, citados apenas para demonstrar o critério usado. Cita-los como forma de desqualifica-la é pueril e desproporcional.

O apoio ou crítica à garota não são irrelevantes, mas tomam como partida aspectos secundários, que espelham o quanto infantilizada a sociedade se encontra, fruto de um progresso econômico e tecnológico, resultantes, pasmem, da ascensão ocidental e especialmente de processos de globalização promovidos pela competição tecnológica (impulsionada na guerra fria), especialmente pelo sistema capitalista e ultra especialização. A obra de Niall Ferguson, em destaque “A civilização: oriente e ocidente” e o livro de Charles Taylor, “A ética da autenticidade”, são interessantes para ilustrar os caminhos percorridos até aqui, que nos põe nesse dilema. Os filósofos Hannah Arendt e Hebert Marcuse anunciavam os efeitos deletérios do sistema.

O consumo da informação e a velocidade da superação da atualização são incompatíveis com certas estruturas desenvolvidas para a maturação de questões que exigem depuração e reflexão. Não nos adaptamos ao processo, principalmente para quem é fruto de uma criação analógica. A comunicação por ser um fenômeno de massa exige a transmissão de informações em um formato estético que agregue a mensagem de forma cristalina, direta e o máximo de informações e valores implícitos.

É preciso que todos tenham uma opinião, sejam engajados, estejam a par dos acontecimentos relevantes. O que nos resta é a apreciação e crítica estética ordinárias, a partir da imagem, relacionadas ao sentimento que promove, em conformidade com os meus ideais.

Pronto, estamos consumindo o símbolo Greta, alimentando debates, na maioria estéreis.

Muitos citaram como uma entidade quase religiosa. Grave equívoco. Seria mais próximo de uma marca, uma grife.

Seu discurso não propõe uma verdadeira mensagem superior com a força de mudança de uma ordem ou civilização.

Dois exemplos nos auxiliam nisso. Quem se lembra de Severn Suzuki? Pois então, virou um cisco na história. Uma garota de 12 anos, que discursou, na Conferência da ONU Rio-92, chocando o mundo. Cito as suas palavras:

Ao vir aqui hoje, não preciso disfarçar meu objetivo, estou lutando pelo meu futuro. Não ter garantia quanto ao meu futuro não é o mesmo que perder uma eleição ou alguns pontos na bolsa de valores.
Estou aqui para falar em nome das gerações que estão pôr vir.
Eu estou aqui para defender as crianças que passam fome pelo mundo e cujos apelos não são ouvidos.
Estou aqui para falar em nome das incontáveis espécies de animais que estão morrendo em todo o Planeta, porque já não têm mais aonde ir.
Não podemos mais permanecer ignorados.
Eu tenho medo de tomar sol, pôr causa dos buracos na camada de ozônio.
Eu tenho medo de respirar este Ar, porque não sei que substâncias químicas o estão contaminando.


Eu sempre sonhei em ver grandes manadas de animais selvagens, selvas e florestas tropicais repletas de pássaros e borboletas e hoje eu me pergunto se meus filhos vão poder ver tudo isso…
Vocês se preocupavam com essas coisas quando tinham a minha idade???
Tudo isso acontece bem diante dos nossos olhos e mesmo assim continuamos agindo como se tivéssemos todo o tempo do mundo e todas as soluções.
Sou apenas uma criança e não tenho todas as soluções, mas quero que saibam, que vocês também não tem…

Não há nada de novo em seu discurso. Como Severn, apenas houve exploração de imagem, hoje esquecida e o mundo não acabou.

Ao contrário, o outro exemplo foi de um garoto da Galiléia. Seus pais o perderam por três dias durante a celebração de Páscoa, encontrando-o em ensinando a doutores. Veja o evangelho de Lucas, capítulo 2, 41-52. Esse garoto de 12 anos salvou a humanidade, sem condenar seus caminhos mundanos, mas trouxe a passagem celestial.

Isso mostra o quanto carecemos de símbolos maiores e verdadeiros, que carreguem uma verdadeira mensagem, por estarmos extremamente presos aos caminhos do progresso.

Superadas as necessidades elementares, perseguimos novos sentidos, impostos pelo progresso irrefreável que exige uma demanda justificável. A culpa que assola a consciência humana, por ter a abundância material, busca sua expiação na crítica social, humanitarismo, igualdade e outros elementos abstratos, que tem como bodes expiatórios os seres indefinidos, que são gananciosos, individualistas. A ressalva é de combater tudo isso, sem que haja um real sacrifício próprio, mas alheio.

Sendo impossível se apartar do sistema que condenam, resta seguir “fazendo a nossa parte”, apoiando fervorosamente essas causas, que Greta representa, sem abrir mão dos frutos desse mal.

Um elemento histórico é sacrificado nessa mentalidade, a forma como o ocidente superou fome, doenças, acesso à bens de consumo e educação, mobilidade social e ainda conteve os ineficientes meios de produção, que devastaram os recursos naturais na Europa. É justamente o desenvolvimento economico e tecnológico, em meio ao ambiente competitivo de mercado. Será que o que ela diz faz algum sentido? Conhece, sem frequentar a escola regularmente, a história? Seria um fenômeno, não fosse seu feito, justamente, deixar de ir à escola.

O sentido do discurso proposto por Greta combate justamente esse sistema. A forma é alarmista, propagandeando o final dos tempos. Mas o que é proposto? Isso não importa, desde que repercuta e gere engajamento.

O alvo do seu discurso denuncia para quem está falando. A mensageira e seus receptores são elites culpadas, que estão longe das reais causas e necessidades básicas humanas. Essas, em sua maioria, estão em locais onde esse sistema condenado por Gretta sequer se desenvolve.

A mesma elite se aproveita da sua figura e cria novas soluções que exigem investimentos, inclusive oriundos de países carentes, para salvação humana, sendo é claro essencial o investimento bilionário em entidades e empresas de solução ambiental.

Possivelmente Greta nem tenha interesse em tais recursos financeiros, embora jornais e sites (inclusive de esquerda) tenham citado um grande esquema entre as fundações e seus pais, mas é presumível seu regozijo na exposição, que não lhe exige qualquer sacrifício, apenas discursos, o que já temos em abundância na humanidade.

Ela é um subproduto da sociedade que ela condena.

Ninguém melhor que a revista Time para entender que se trata de um produto a ser consumido pelo público.