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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Gente estranha com alma de petista (3)

Juro que termino agora

04/05/2019 13h49

O culto a Jair Bolsonaro cresceu primeiro como piada, junto a grupos de jovens no facebook como a famigerada “panelinha da direita”; migrou, porém, para o público mais velho e desesperançado tão logo o processo de impeachment avançou , terminou, e a lava – jato continuou investindo sobre a política.

O processo de emancipação das classes médias jamais precisou da liderança personalista de um político. Como afirmei anteriormente, um dos motes das manifestações era, justamente, a ideia de “não termos políticos de estimação“. O interessante, porém, foi que setores especialmente ansiosos com o fenômeno, buscando uma solução simples, rápida e vingativa, projetaram sobre a figura de Jair uma série de características que gostariam de ver em um político, ajudando a construir o meme vencedor das eleições 2018.

É especialmente espantoso tal fenômeno, pois não é o caso de um político que construiu sua liderança após feitos grandiosos. Jair não fez nada de formidável que justificasse sua alcunha de “mito”; o termo surgiu, justamente, nos grupos e páginas de humor no facebook, enquanto provocação a militantes e políticos de esquerda. Jair era, no máximo, um avatar.

Esse público mais velho, porém, ávido por uma resposta simples, encontrou no meme a personificação da solução que gostariam de ver, e passou a erguer o estandarte do político carioca como se solução fosse para nossos problemas. Foi nesse momento que o meme de Jair escalou; parte dos brasileiros hiper-engajados na queda da presidente converteu-se, após o fim do processo, em militantes do bolsonarismo.

Para esse militante, negar Bolsonaro era negar sua própria identidade, pois ele a projetara sobre o político e dela esperava tudo. Símbolos pátrios foram intimamente vinculados a Jair, permitindo que a construção de identidade nacional que descrevi no texto anterior culminasse em sua personalização. Dali em diante, o novo Brasil que nascia era Jair Bolsonaro. Tornava-se impossível dissociar as duas coisas.

Criticar seu projeto de governo, seu passado errático, seus gastos de gabinete tornou-se crime de lesa pátria. Afirmar que ele cometeu erros, exagerou em declarações ou mesmo possui pendores anti-democrático é ainda pior: você pode ser considerado um comunista! O militante tornou-se soldado da causa, e fiscal da opinião alheia. Ninguém poderia parar o processo de salvação nacional.

O problema se agravou quando sua histeria foi instrumentalizada, em especial a partir de 2017, pelo olavismo, que se acoplou de vez ao fenômeno bolsonarista. Aí tome-lhe “estratégia das tesouras” e “socialismo fabiano” goela abaixo, aumentando a neurose e justificando o comportamento agressivo do militante em redes sociais. Havia uma conspiração em curso contra o Brasil! Somente Bolsonaro e seu exército poderia salvá-lo!

Esse misto de medo, ódio, ansiedade, inconformidade com a corrupção e profundo desejo de mudança fácil transformou parte daquele povo vestido de amarelo, das grandes manifestações, em uma gente cinzenta, de olhos meio vazios, servil e instrumental. Uma gente que abdica da coerência e do orgulho próprio em nome do avatar político que sustenta, justificando aquilo que criticara nos meses — por vezes dias! — anteriores, caso o argumento fosse necessário para manter a luta de pé.

Essa massa de militantes passou a ser castigada, às vésperas das eleições, por farsantes e espertalhões de primeira ordem, que abasteceram sua histeria com mentiras ordinárias. Quem não se lembra de Frota, Bebianno, Olavo e Felipe Martins justificando a “revolução caminhoneira” para uma massa de manipulados, orgulhosos da vanguarda da boléia que os traiu no primeiro acordo com o governo? Quem não se lembra dos “600 milhões para comprar a capa de uma revista de grande circulação” — no caso a Veja — inventados por Joice Hasselmann às vésperas da eleição?

Se em algum momento você acreditou nessa história, procure o psicólogo mais próximo.

Os farsantes perceberam ser fácil manipular aqueles que conduzem. Entenderam as ferramentas da polarização, da histeria, da construção de narrativas. Fizeram disso ferramenta de gestão — basta ver os argumentos de Weintraub para os cortes nas universidades federais. “Pelados”, “maconha” e “putaria” era o apito que ressoava para ativar a militância.

A esperança e o senso de pertencimento são a mortadela do bolsonarismo. Essa militância convertida em zumbi — uma fração pequena, mas importante de seus eleitores — firmou-se como o petista de sinal trocado que vive de assombrar o debate público. São os “green and yellow walkers”. Nada diz que irão se desmobilizar, ainda que parte de seus manipuladores — agora eleitos deputados pelo PSL — tenham perdido, rapidamente, relevância e credibilidade. Buscarão contato direto com o presidente e a família real — devidamente premiada pela Ordem do Rio Branco — , que sente-se satisfeita com o debacle dos mediadores oportunistas do período eleitoral. Agora, como pede Olavo, basta ao presidente falar com o povo nas grandes redes de TV!

Há um erro mortal na tese populista. O povo, para sua desgraça, não é esse zumbi. Nem a maioria dos eleitores de Bolsonaro o são. Mas os manipulares gostam da extrapolação — tal qual o petismo fazia — pois facilita por demais seu trabalho. Vai dar errado, como sempre deu. Mas o processo, até lá, é triste e desgastante. “Lula é o povo”, dizia o vermelho; “Bolsonaro é o povo” diz o amarelo.

Triste povo que acredita nessas besteiras.