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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Gente estranha com alma de petista (1)

Onde foi que erramos?

04/05/2019 03h01

Era de se esperar. Tão logo fiz uma postagem crítica ao governo neste imberbe espaço de discussões e fui “massacrado” (oprimido, em seu vocabulário) por uma turba de patriotas enfurecidos com a heresia. Como pode alguém criticar o “governo de direita” do nosso presidente? Deve ser um esquerdista! Um infiltrado!

Tudo se tornou ainda mais interessando quando — retornando ao facebook, lar virtual que me expurgou no último ano — acompanhei a área de comentários no texto em questão; alguns fãs do presidente enviavam Gifs de mortadela, como se logo eu, um pobre coitado que marchou mil quilômetros até Brasília pelo impeachment de Dilma, fosse alguma sorte de petista a soldo de Haddad.

A grande maioria não leu o texto. Ocupou-se em julgar o título e a foto, que operam como “meme” em sua timeline. E destilou sua crítica — esperada –, algo que estou acostumado também no youtube, em comentários curtos e agressivos, como de costume no universo bolsominion.

Não me ofendo com os ataques em si. São anos trabalhando com redes sociais, e o distanciamento gerado pela prática política faz com que as ofensas tornem-se mera…estatística. Isso não as torna menos preocupantes; apenas permite que você as aborde com a frieza necessária para compreendê-las mais claramente.

Acho o fenômeno especialmente interessante, pois quem o criou, de fato, conseguiu a proeza de emular as mesmas características do lulismo — o servilismo, o comportamento de manada, as expectativas ilusórias, as projeções irreais — num público mais rico e escolarizado. Sim, amigos, é possível traçar um corte social entre o homem massa da direita e da esquerda. O próprio resultado das eleições presidenciais demonstrou isso.

O servo do atual presidente considera-se mais “capaz” e “trabalhador”. Quando jovem, adquire a característica de um “opressor”, em geral imitando o estilo desbocado de algum youtuber, do filósofo Olavo de Carvalho ou do próprio presidente da república. Quando mais velho, constrói sua opinião com base em memes, notícias sensacionalistas ou vídeos de whatsapp. Estes, em geral, costumam viver a urgência do processo com mais intensidade. Até por isso, sempre estiveram presentes em maior número nas manifestações organizadas pela direita ao longo dos últimos anos.

O tiozão do zap está permanentemente irritado. Ele quer que dê certo… e logo!

Essa diferença etária é interessante, pois ocorre também na esquerda. O militante mais jovem , hoje cooptado por forças alternativas como o “cirismo” e o PSOL, é um tanto diferente do velho militante petista — mesmo aquele que já brilhava nas redes sociais.

O velho defendia feitos e realizações do lulismo, além de gastar seu tempo “refutando” os ataques e acusações dos adversários. Usava como fonte a custosa estrutura de blogs construída pelo petismo, como os já cansados ‘Brasil247″, “Diário do Centro do Mundo” e “Pragmatismo Político”; tinha como inimigo central o “tucanismo”, que era denunciado nas redes por conta de suas criminosas “privatarias” de toda sorte.

O jovem, por seu turno, apega-se a causas menores. É mais inconsistente, e opera numa sintonia quase estética. Seu esquerdismo é vinculado a uma experiência, e a experiência deve provê-lo de significados; é menos personalista que seu colega mais velho, e isso explica o desprezo devotado a ele pelos militantes de longa data. Se duvida, basta checar a opinião do clássico Rui Costa Pimenta, do PCO, sobre os “pequeno-burgueses” do PSOL.

É de chorar de rir.

Entretanto, toda a qualquer piada perde a graça diante da incômoda constatação de que, mais e mais, o ativismo virtual da direita torna-se tão pobre e servil quanto o de seus colegas de vermelho. Especialmente quando lembramos que, no início do processo, boa parte dos nossos gritos eram contra aqueles que “tinham políticos de estimação” e eram “burros a ponto de negar todo e qualquer erro de seus mestres“.

Pois é, amigos. Acho que erramos em algum momento.

Continua aqui.