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Advogado, origamista, ex-straight edge convertido ao conservadorismo, palestrino praticante e caçador Pokémon.
Funeral de neto de Lula virou ato político

O velório do neto de Lula foi palco de ato político após permissão de acesso de público

06/03/2019 17h14

O velório do neto de Lula foi palco de ato político após permissão de acesso de público ao cemitério

O lamentável falecimento do neto de Lula, Artur de apenas 7 anos, era uma grande oportunidade para demonstrar um pouco de humanidade ou, ao menos, civilidade no cenário político atual.

Porém, estamos no Brasil, onde a civilidade já se foi há tempos, e as pessoas não exitaram em politizar o funeral, em todos os aspectos possíveis.

Sob o ponto de vista humanista, não se pode discutir o direito de alguém, mesmo preso, acompanhar o velório de um ente familiar. Qualquer pessoa despida de uma opinião meramente ideológica enxerga isso. Apesar disso, não tardou até que personagens políticos, ecoando a barbárie ideológica, se manifestassem contra o direito (não contra a viabilidade). No aspecto jurídico, a lei foi interpretada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli em “habeas corpus”, que, discordando ou não, deve ser cumprida até que uma nova decisão sobrevenha. Uma vez reconhecido o direito, o argumento da exceção não vinga, pois uma ilegalidade não justificaria a negação do cumprimento da lei e decisão judicial. Nesse caso, é lícito se discutir o “como” ou se era possível a execução da logística e os meios e recursos disponíveis [comentário abaixo].

O problema nisso tudo foi que o presidiário, que poderia exercer regularmente o direito assegurado por uma questão humanitária, praticou a figura jurídica do abuso de direito, quando perante uma questão familiar, politizou o funeral.

Agiu com desprezo à dignidade do seu ente velado, preferindo o culto à sua personalidade, em detrimento da sobriedade que um cerimonial fúnebre ao parente querido exige.

Para constatar e entender isso, é necessário relatar o que se viu durante as catorze horas acompanhando o funeral. O MBLNEWS chegou ao local do velório por volta das 23h00 do 1º de março, no cemitério Jardim da Colina em São Bernardo do Campo, desejando que a escolta fosse exitosa e o público não tivesse acesso ao local, não tendo matéria a ser divulgada.

Artur era velado no crematório. Ocorria outro velório no prédio ao lado. No local se encontravam parentes de Artur, amigos da família, funcionários da escola onde o garoto estudava, o ex-ministro Alexandre Padilha, a presidente e deputada federal do Partido dos Trabalhadores Gleisi Hoffmann, e pouquíssimos militantes, em torno de seis pessoas, que não se manifestavam.

Alguns jornalistas permaneceram de plantão perante o portão de entrada do cemitério. Durante o restante da madrugada, o movimento era apenas de viaturas da polícia militar e de alguns seguranças particulares, identificados como seguranças do sindicato, que se organizavam para a chegada de Lula.

Às 08h20 chegaram cerca de trinta viaturas da polícia militar, cada uma com cerca de quatro ocupantes, sendo desviado para o local aproximadamente 130 membros do efeito policial. Os seguranças privados, que se identificavam como seguranças do sindicato, assumiram o controle de acesso da portaria do cemitério, abordando os veículos e pessoas que desejavam ingressar no local. A imprensa foi impedida de ingressar no local com equipamentos, sendo proibido o registro de imagens. Os profissionais registravam as imagens sobre o portão de acesso.

Em torno de 09h00, cerca de vinte pessoas, entre curiosos e militantes, chegaram ao local e permaneceram à frente do portão de entrada. Os políticos começaram a chegar no local neste horário e alguns, como Guilherme Boulos, Eduardo Suplicy, Aguinaldo Timóteo, Elói Pietá, José Mentor, entraram caminhando e deram declarações à imprensa. Outros ingressaram em seus veículos, dentre eles Fernando Haddad, José Genuíno e Aloizio Mercadante.

Por volta de 10h00, cerca de cinquenta pessoas permaneciam na frente do portão para acompanhar a chegada de Lula, quando os seguranças permitiram parte do público na frente do cemitério ingressar e acompanhar o velório. Alguns militantes, cerca de 40 pessoas, puxavam palavras de ordem e cantos em favor de Lula em frente ao portão do cemitério. Pessoas que estavam na área externa pediam para não se manifestar em respeito ao “presidente” Lula.

O público, composto na maioria por moradores da vizinhança do cemitério (bairro periférico) que tomaram conhecimento da possibilidade de entrada, chegava ao local e, em grupos, era autorizado à ingressar. Centenas de veículos chegavam ao local e eram liberados pelos seguranças, sem restrições, para entrar e utilizar o estacionamento interno. Na maioria eram militantes, que acompanhariam tudo pelo lado de fora do crematório.

Os profissionais da imprensa permaneceram expostos no portão do cemitério. Militantes constantemente proferiam xingamentos e agressões aos jornalistas, com riscos constantes de sofrer agressões. A informação era que não era desejado que fossem registradas imagens de Lula. Mas profissionais de outros veículos permaneceram na parte interna e registraram o evento, inclusive, com imagens.

Lula chegou às 11h00, em viatura da Polícia Federal acompanhada por mais cinco veículos, acessando o local pelo portão de serviços. Os policiais federais portavam armamentos pesados.

A partir desse momento, muitos curiosos e apoiadores, na sua maioria da vizinhança, chegavam ao cemitério e eram liberados, aos poucos, e se aglomeravam em frente ao crematório, onde policiais militares isolavam a área com grades, tendo acesso apenas políticos e amigos próximos. Não demorou para o público iniciasse gritos e cantos em favor de Lula se intensificassem. Em alguns momentos, a manifestação assumiu contornos de protestos, com gritos de “Moro, pode esperar, que a sua hora via chegar!” e “polícia federal, vergonha nacional”. A cantilena seguia a mesma, com falas como “Não há provas”, “Cadê o Queiroz?” e até “quem deveria ter morrido era o Bozo” ou não desejo o mal para ninguém, “mas um dia os filhos do ´Bozo´ vão sofrer isso também”. Algumas pessoas saiam do prédio e pediam que interrompessem as manifestações. Políticos como Dilma Rousseff e Guilherme Boulos foram festejados no local, com gritos de guerreiros do povo brasileiro. Paulo Okamotto saiu do prédio para falar ao “público” que Lula estava proibido de se manifestar e permanecer em espaço aberto, saudando a “festa” da democracia, conforme vídeos divulgados na internet.

Lula permaneceu no local durante duas horas e vinte minutos. Alguns registros dos momentos na parte interna foram obtidos e divulgados na imprensa, em especial pelo veículo “Buzzfeed”, que teve livre acesso e obteve imagens de Lula.

O enterro foi politizado. Mesmo que se diga que não houve ingerência de pessoas próximas a Lula ou da direção do PT, o que se observou foi a liberação dos acessos ao público em geral, por seguranças particulares que assumiram o controle da portaria local, para que permanecessem na área interior do cemitério, em frente ao prédio do crematório, favorecendo a manifestação política e protestos em prol de Lula.

Ao permitir que isso ocorresse no cerimonial de despedida de seu neto, a dignidade da pessoa velada, foi simplesmente aniquilada. A visita ao seu neto para despedida era uma questão de humanismo, cabendo aos seus opositores conceder uma trégua, pois há limites para a politização. Mas, também cabia a ele agir como um humano digno, não fazendo com que o culto fúnebre se tornasse um ato político, com ataques à justiça e adversários políticos, violando os códigos de postura e usurpando do direito que lhe foi reconhecido e respeitado.

A outra família que velava seu ente falecido que seria enterrado no local foi simplesmente ignorada. Não houve qualquer preocupação com a perturbação ocasionada por permitir o acesso de simpatizantes e militantes que transitavam pelo local irrestritamente, gritando e, em alguns momentos, debatendo entre si. Não houve dignidade e humanismo para a família, que não tinha importância política, não sendo humanos para essa visão de mundo.

Lula politizou tudo o que restava em sua vida, abandonando qualquer individualidade, para ser apenas uma figura política, portanto, coletiva, onde a dignidade é apenas um instrumento a serviço do discurso enviesado.

As suas falas atestam isso. “O Arthur foi um menino que sofreu muito bullying na escola, porque era neto do Lula. Por isso, eu tenho um compromisso com você, Arthur, eu vou provar a minha inocência e quando eu for para o céu, eu vou levando o meu diploma de inocente”, disse. “Vou provar quem é ladrão neste país e quem não é. Quem me condenou não pode olhar nos olhos dos netos como eu olhava para você.”, discursou.

Isso apenas revela a incapacidade de ser apenas um individuo, agir como um ser humano, mas apenas um ser político, que no momento que deveria apenas enxergar a figura do seu neto que se foi, pensa em sua trajetória e narrativa política.

Tudo isso, diga-se ainda, poderia ser conduzido de melhor forma pela Polícia Militar, que, deslocando um efetivo imenso, muito superior ao número que atente à região, se limitou à cercar o prédio com grades e cordão de isolamento. O propósito era conduzir o preso e escolta-lo durante o enterro, o que teria sido muito mais eficiente se tivesse sido isolada a área próxima ao cemitério e restringindo o acesso ao público, dispensando grande parte do quadro mobilizado para ação. Pode-se observar que o número de pessoas que quiseram acompanhar o ato aumentou em razão da circulação da notícia que poderiam ingressar e permanecer próximo onde Lula estaria. Até então havia pouquíssimas pessoas no local.

Quando um enterro de uma criança vira uma ato político, a crença em uma sociedade mais civilizada é abalada.