Acadêmico de economia e editor do MBL News.
Folha deixa o bolsonarismo nu novamente

Se você, nobre leitor, não gosta de corrupção, patrimonialismo ou corporativismo, deveria levar mais em conta a Folha de S. Paulo do que o Bolsonaro.

16/01/2020 18h23

A Folha de S. Paulo (sempre ela) trouxe a informação de que o chefe da Secom, Fábio Wajngarten, recebe dinheiro de emissoras e agências contratadas pelo governo Bolsonaro. A notícia é escabrosa.

A mesma Folha mostra que, desde que Wajngarten assumiu o cargo, se reuniu 67 vezes com clientes ou ex-clientes de sua empresa. Desses encontros, 62 reuniões oficiais desde abril foram com integrantes de Record, Band, SBT e RedeTV!

As viagens, claro, pagas com dinheiro público.

Vejamos o caso da TV Bandeirantes. A emissora paga R$ 9 mil por mês à empresa de Fábio Wajngarten e, curiosamente, as participações na verba publicitária da Secom vêm crescendo para a Band.

Parece ilegal? E é! A atual legislação impede que membros do alto escalão do governo mantenham negócios com entidades que possam ser atingidas por suas ações.

Tudo cheirava mal. Faltava um ingrediente para piorar tudo: Bolsonaro. O presidente da República deu mais uma de suas entrevistas quebra-queixo onde duas coisas foram típicas: a grosseria e as críticas injustas à Folha.

Na entrevista, Bolsonaro disse que “Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele”.

Tudo errado. Primeiro que Wajngarten não pode ter tais contratos com entes privados enquanto for do 1.º escalão do governo. Segundo que, se não fosse ilegal, ainda seria imoral. Onde já se viu um Secretário de Comunicação receber dinheiro de emissoras de televisão?

O curioso é que, no embate entre afirmações verdadeiras de um dos maiores jornais do Brasil, a legislação brasileira e o Princípio da Impessoalidade versus o conflito bobo e a polarização (até com a mídia), Bolsonaro escolheu o segundo grupo.

No livro “Mãos Limpas e Lava Jato: A corrupção se olha no espelho” o autor compara a classe política italiana com a brasileira. No texto, uma das semelhanças é o apego dos políticos ao poder mesmo em situações de evidente impopularidade pública ou, como no caso de Wajngarten, notório desvio de conduta.

Por esse padrão, era de se esperar que Fábio Wajngarten não pedisse demissão. Pelo contrário, partiu pra cima do jornal e sugeriu retaliação (mais uma!) ao periódico. Fábio ainda disse que Bolsonaro sabia dos contratos. Se sabia, por que não o demitiu? Por que não demite o Ministro do Turismo? E a sanção do juiz de garantias ou o fim do COAF?

A Folha erra. Errou várias vezes sobre o MBL. Errou ao colocar na capa a notícia que “Empresas contrataram disparos pró-Bolsonaro no WhatsApp” e, passado quase 1 ano, não obter nenhuma prova, mas é incontestável que vem denunciando mais “mamatas” do que o bolsonarismo.

Se você, nobre leitor, não gosta de corrupção, patrimonialismo ou corporativismo, deveria levar mais em conta a Folha de S. Paulo do que o Bolsonaro.