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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
‘Financiar a democracia’ virou desculpa pra assaltar o contribuinte.

A ideia — ainda que questionável, diga-se — do financiamento público de campanhas, consagrada em muitos países, tornou-se muleta para que a conta de multas eleitorais e honorários advocatícios seja jogada no colo do contribuinte.

19/09/2019 17h03

Chega a ser deprimente a maneira como deputados, na infame noite da última quarta-feira, defenderam a aprovação do pacote de obscenidades envolvendo fundo partidário e outras avenças.

A ideia — ainda que questionável, diga-se — do financiamento público de campanha, consagrada em muitos países, tornou-se muleta para que a conta de multas eleitorais e honorários advocatícios seja jogada no colo do contribuinte, acompanhada, obviamente, do aumento do quinhão destinado às legendas partidárias.

Marcelo Ramos, deputado amazonense, subiu no plenário para defender o pacote. Atacou deputados alinhados ao “RenovaBR” — sorte de movimento político que capacita e financia candidatos para o legislativo; argumentou que os mesmos teriam “rabo preso” com seus doadores, enquanto que ele — que só tem rabo preso com sua máfia partidária — diz ser livre para votar como quer.

Essa é justamente a ideia de Marcelo e seus colegas: apelar para o dinheiro tomado da massa difusa para, assim, não prestar contas do que faz como deputado após eleito. Como expoente do centrão, Marcelo quer dobrar a aposta que se mostrou falha nas últimas eleições, injetando ainda mais dinheiro e privilégios numa estrutura partidária falida e corrupta.

Repito aqui: a estratégia de concentrar dinheiro, tempo de TV e privilégios — mamatas que alimentam corrupção — nos mesmos caciques políticos de sempre foi um desastre total, que redundou na eleição — não necessariamente positiva — de numerosa e barulhenta bancada no parlamento.

Isso por que o cidadão não é bobo: sabe que Marcelo Ramos, Luciano Bivar, Romero Jucá, Valdemar da Costa Neto e Ciro Nogueira não são expoentes de uma democracia vibrante; a bem da verdade, são apenas sintoma de suas falhas mais profundas e arcaicas — falhas estas que se tornam mais evidentes quando votam, furtivamente, espalhando quórum , um genuíno pacote de assalto à democracia.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara, percorreu veículos de imprensa e eventos empresariais prometendo um parlamento altivo e preocupado com pautas nacionais. Entrega, no fim do dia, mais um momento de infâmia. As consequências, se tivermos sorte, serão sentidas apenas nas urnas.

Se os tempos vindouros não se confirmarem como alvissareiros, porém, temos chuvas e trovoadas pela frente: este é, talvez, o ponto de inflexão para que o discurso da descrença política — do fechamento de congresso, do golpe — torne-se mainstream no debate público.

Não foi por falta de aviso.