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Formado na Faculdade de Direito do Recife. Perdido entre a poesia de Manuel Bandeira e a de Marília Mendonça. Só bebo em copo americano.
Falta Gestapo, não falta vontade

Resposta à Ricardo Almeida

21/02/2019 21h31

Ricardo Almeida, meu Mosleme favorito escreveu ontem para o MBL News um texto sobre a importância da correspondência entre linguagem e realidade pela militância política, onde nos adverte quanto aos males da verborragia histriônica no campo das discussões ideológicas.

Ricardo está correto, como sói acontecer (exceto nas discussões sobre a Revelação Divina e sobre a superioridade do Estado de Pernambuco em relação à Bahia). Mas acredito que sua opinião pode ser ainda adornada com alguns comentários.

Sim, como o texto de Ricardo diz, existe um exagero retórico na classificação dos adversários dentro do campo político brasileiro. Pouco tempo atrás, durante a grande batalha contra o PT, a direita brasileira se fartou de chamar o petismo de comunista, totalitário, revolucionário, etc. O petismo, por sua vez, acusava os seus inimigos de fascistas, nazistas, etc. Agora, na diatribe envolvendo setores da direita mais radicais e outros mais ao centro, eles têm se acusado mutuamente ora de stalinistas, ora de socialistas fabianos; ora de totalitários, ora de comunistas mascarados, etc.

Se a linguagem usada pelas facções políticas brasileiras fosse minimamente correspondente à realidade, seria muito difícil que as principais cidades brasileiras não apresentassem agora um cenário de guerra digno de Stalingrado ou que a Amazônia não fosse um imenso e colorido Gulag.

Ora, se todas as facções políticas são vistas, umas pelas outras, como comunistas, totalitárias, fascistas, nazistas, autocráticas, intolerantes e violentas, etc… é quase inexplicável como nesse país ainda há estradas, viagens, liberdades individuais, emprego e até campeonato de futebol.

Ricardo está, portanto, corretíssimo ao identificar e denunciar a logorréia paranoica da militância ideológica nacional.

Contudo, acho importante adicionar: se não há expurgos, perseguições, exílios e assassinatos, etc. isso se deve muito mais a mudanças circunstanciais no espírito do tempo do que por alguma elevação moral da atual consciência brasileira frente ao frenesi autocrático e sanguinário que dominou o mundo no século XX.

Se não temos polícias políticas, comandos de caça aos comunistas (sejam eles comunistas reais ou imaginários), é porque esse métodos ficaram “demodê” (muito felizmente) e foram substituídos pelo escracho público, boicotes irracionais, fechamento discursivo e assassinato de reputação.

Evidentemente, comparar esse tipo de ação contemporânea (mormente virtual) com os métodos brutais de prisões, e assassinatos e perseguições em massa, praticados pela URSS e quetais, é patético.

Mas o espírito de incompreensão e negação ao diálogo permanece vivo e espraiado nos mais diversos setores ideológicos do país.

Se mudaram as manifestações, o espírito parece permanecer o mesmo.

O que se nota inclusive, não só pela mitologia adotada por estes grupos (seja a ditadura Cubana ou os terroristas assassinos como Marighela, idolatrados tanto pela esquerda mais carcomida quanto pela esquerda festiva; seja na veneração quase erótica de setores da direita por Ustra e etc), mas também pela idéia de que os grupos rivais são inimigos ferozes da possibilidade de coexistência social (como nas charges esquerdistas que retratam o atual Presidente como nazista ou na nota parcamente inteligível do MEC, acusando jornalistas de serem agentes da KGB – o que, verdadeiro ou não, parece completamente inoportuno).

Tudo muito cafona, muito SOOOO cold war, mas totalmente referente a uma fantasia psicológica de guerra total, de vida ou morte, de nós ou eles.

A sanha de exclusão do adversário da vida “física” se transmuta em desejo da exclusão do discordante (por menos discordante que seja) da vida moral e intelectual da comunidade.

Como no necessário poema “When Jesus came to Birmingham” de Studdert Kennedy, troca-se apenas a sentença da Cruz pela sentença perpétua (logo, mortal) ao ostracismo.

Arrisco até a dizer que:

Se hoje, o sujeito não sente uma vontade desesperada de ligar para a Gestapo a fim de denunciar o vizinho… talvez seja muito mais por falta de Gestapo, do que por falta de vontade.