Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Eu errei sobre as manifestações da esquerda

Atos foram um sucesso em todo o Brasil. Seria o renascimento do petismo?

16/05/2019 02h45

Publiquei neste blog, na última terça feira, um texto em que afirmava que as manifestações desta quarta seriam caricatas; que caso bundaços e danças estranhas ganhassem destaque em meio a balões da CUT e da UNE, Bolsonaro sairia fortalecido e teria seu discurso renovado.

Pois bem. Eu subestimei o tamanho da indignação. A manifestação foi grande. Muito grande. Nada comparado ao que fizemos em 2015 e 16 — ou mesmo ano passado nas vésperas da prisão de Lula. Mas foi substancial, tinha pauta ancorada no mundo real, e o melhor: tinha gente de verdade.

Sim, estudantes normais e comunidade acadêmica tomaram parte no ato. Gente que ralou durante um ano pra passar no vestibular e, ao entrar na faculdade, descobre que não haverá eletricidade; gente que perdeu sua bolsa de pesquisa — que não necessariamente é sobre “banheirão do funk” ou memes do gênero. Gente de verdade, que eventualmente saiu conosco às ruas contra Dilma e está puta com a forma como parte importante de sua vida foi tratada pelo governo.

Eu entendo a necessidade de cortes. Defendemos, no MBL — muito antes das figuras do atual governo — a inversão da pirâmide de gastos educacionais. Sei que existe ineficiência absurda, salários vultuosos, descaso administrativo. Que sindicatos e professores deliberam sobre dinheiro público como se as universidades fossem um mundo particular, alijado da realidade. Sei de tudo isso.

Mas o que Bolsonaro e Weintraub fizeram foi um desastre. Que pode lhes custar suas cadeiras.

Primeiro por não anteciparem esta questão — essencialmente orçamentária, de acordo com o discurso do ministro — ainda na virada do ano. Transição serve pra que? Falaram com os reitores? Abordaram o tema? Houve planejamento?

Segundo por tratarem os cortes como ‘oportunidade para mitar’. Weintraub os justificou, primeiro, por conta de muita “balbúrdia e gente pelada” rolando nos campus. Mitou! Põe um oclinhos nesse patriota!

A comédia é facilmente rastreável. O ministro escolheu três federais a esmo. Inventou que tinha umas “metas não cumpridas“. Não tinha. Agora fala que é pra todas. E pros institutos federais. Põe as bolsas da CAPES no meio. E a foto do gordão banhado em dendê. Compartilha time, bora oprimir!

Mas não rolou opressão. O Ministro teve que se justificar. Virou corte — e depois contingenciamento! “Precisamos inverter a pirâmide”, disse Weintraub. Sai Velez e o hino e entra o novo ministro e seus cortes. Concordo, mas … como fica o gordo com dendê? E a gente pelada? Não era essa a justificativa? Larga o meme, ganha a mitada e depois, assim… do nada!, começa a falar em dados? E os alunos, que prestaram vestibular e não sabiam disso… como ficam?

Ficam putos. E uma juventude que já não havia votado em Bolsonaro encontra uma causa pra chamar de sua. Sim, amigos, num ato aparelhado, com sindicalistas, alguns pelegos e faixas “Lula Livre”, não eram os zumbis da mortadela a bater o bumbo anti-governo. Havia gente “normal”, comum, fora da bolha. Gente que gostou da ideia de trazer danos pra um governo que só responde para uma militância histérica. Gente jovem, pra quem 2013 ficou na memória distante — 6 anos é uma vida pra quem tem 20! — e o governo Lula é história que seus pais contam.

Bolsonaro trouxe esse tipo de classe média para fora das redes nos atos pelo #EleNão, ano passado. Nesta quarta, dobrou a aposta. E não foi bom. A esquerda está nas ruas. Sem bundaço — mas com gente. E com meta. O mesmo fogo que vi nas pessoas que tomaram a paulista em 2014, protestando contra Dilma, estava nos olhos desses moleques raivosos que cruzei em meio a esplanada dos ministérios. Eles querem a cabeça do presidente.

Diferente de nós, porém, terão o apoio da mídia. Terão um centrão ainda mais rancoroso. Terão partidos, dinheiro e estratégia. Poderão crescer — e muito! — surfando nas trapalhadas do olavismo. Trapalhadas autoritárias, lunáticas, deslumbradas. Mas sempre trapalhadas. Já ganharam um presente — Bolsonaro os chamou de “idiotas úteis”, numa clara demonstração de rigor e formalismo presidencial. Não pegou bem.

Dia 26 Bolsonaro promete mobilizar seu povo pra #InvadirBrasília. Não sei o que quer dizer com isso. Os grupos que convocam o ato não são lá muito fãs dessa complicação chamada democracia. Mas é parte do tal tsunami. Teve o que queria…agora tem que mostrar a tal “aliança com o povo” que tanto falam. Se tiver aliança, mas o povo não aparecer, a esquerda vai sentir cheiro de sangue.

O congresso também.