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23 anos, professor de matemática e coordenador do MBL na cidade do Rio de Janeiro.
Entre o preto e o branco, há infinitos tons de cinza

É inútil a tentativa de reduzir o jogo político a uma visão maniqueísta de mundo

19/08/2019 19h16

O que são as dicotomias? Dualidades de definições ou conceitos que se contrapõem simetricamente. Abundam na natureza e na humanidade: sim e não; sucesso e fracasso; felicidade e tristeza; riqueza e pobreza; bondade e maldade; certo e errado; bonito e feio; etc. São importantes para compreender o mundo ao nosso redor? Certamente, sim. Mais do que isso, necessárias. São, porém, suficientes? Não mesmo.

A reflexão que lhes proponho nesta explanação bebe da epistemologia e pode seguir por inúmeros caminhos, desembocando em qualquer área do conhecimento, da cultura ou dos costumes. Afinal, desde antes mesmo de surgir o contraste entre o inatismo de Platão e o empirismo de Aristóteles, as dicotomias já são intrínsecas à nossa forma de pensar. Pela própria lógica clássica, sabemos que uma afirmação pode ser valorada apenas como verdadeira ou falsa e essas duas possibilidades são mutuamente exclusivas. O psiquiatra suíço Carl G. Jung, em sua obra “Tipos Psicológicos”, descreve arquétipos humanos através, fundamentalmente, de dicotomias: introversão e extroversão; pensamento e sentimento; intuição e sensação.

Como estamos num blog do MBL News, é claro que o meu objetivo é trazer essa divagação para a seara política! Sendo assim, qual é a primeira dicotomia que nos vem à mente? Impossível não responder “esquerda e direita”, a velha divisão que pode até ser tida como ultrapassada por alguns, mas não deixa de ser um fato inequívoco da realidade.

Por outro lado, a existência de esquerda e direita é um ponto tão pacífico quanto a pobreza desses mesmos conceitos para enquadrar as diferentes correntes políticas da sociedade. O problema se dá no momento em que — se me permitem alguns neologismos — a “dicotomia-mor” esquerda e direita passa a abarcar diversas “subdicotomias”, como: individualismo e coletivismo; liberalismo econômico e estatismo; nos costumes, conservadorismo e progressismo; ou reformismo e revolucionarismo.

Associando cada uma dessas “subdicotomias” a um eixo matemático, esquerda e direita seriam representadas através da linha horizontal consistente de uma sobreposição de todos os eixos. Dessa forma de ilustração, vem a ideia do Diagrama de Nolan, um método melhor, mas ainda imperfeito. Trata-se de uma espécie de plano cartesiano em que a coordenada num eixo depende de posições econômicas e, no outro, das questões consideradas de liberdade individual. Analogamente, também é possível criar classificações com três, quatro, cinco ou até mais eixos.

Muitos outros fatores alimentam a confusão gerada pela terminologia do espectro político tradicional. Vale observar, por exemplo, os aspectos local e temporal de esquerda e direita. No Brasil de outras décadas, não significavam o mesmo que hoje; em outros países de hoje em dia, tampouco. Liberais estiveram à esquerda durante a Revolução Francesa (o berço dessa divisão), ao passo que, atualmente, são vistos à direita. Tudo volúvel demais.

De qualquer forma, sou convicto de que a polarização per si não deve ser encarada como algo a ser combatido, sobretudo porque julgo como natural a existência de esquerda e direita. O debate público precisa de ambas. Democracias consolidadas, como a americana e a britânica, contam com um forte bipartidarismo. Não coloquemos a culpa do hospício em que vivemos na polarização, mas sim sigamos trabalhando para melhorá-la.

Prosseguindo, então, ao segundo e mais deletério problema dessa polarização pela qual o Brasil passa: a postura maniqueísta que leva consigo. A dicotomia do bem e do mal existe? Não guardo a menor dúvida. O grande erro, não obstante, está em acreditar que os encontraremos de maneira tão distinta quanto água e óleo no tabuleiro de xadrez da política. Para aqueles que romantizam esse jogo complexo como uma simples briga de mocinhos contra vilões, receio que trago más notícias.

Um perfeito exemplo disso ocorreu durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff: quais foram as motivações do bandido Eduardo Cunha para cooperar? Um despertar de consciência moral lhe fez escolher o lado certo? É óbvio que não. Quando o então presidente da Câmara traiu o PT e “caiu atirando”, corroborou-se a seguinte tese: pessoas erradas podem, eventualmente, fazer coisas certas por razões erradas.

Um exemplo mais recente é a distância cada vez maior entre o bolsonarismo e o lavajatismo. O ministro Dias Toffoli suspendeu todas as investigações com base em dados do COAF obtidos sem autorização judicial. A decisão prejudica a Operação Lava Jato e beneficia o investigado Flávio Bolsonaro, porém foi elogiada pelo presidente da República. E aí? Como fica o maniqueísmo da direita nessa história? Não gangrena? Na dicotomia, não seriam a família Bolsonaro e o ex-advogado do PT, respectivamente, do bem e do mal? Mas colaboram para prejudicar o combate à corrupção?

Enfim, qual é, portanto, a conclusão diante disso tudo? Explorei, nos parágrafos acima, dois problemas do fenômeno da polarização, um de natureza conceitual e outro, moral. A minha resposta para ambos é o título deste texto: entre preto e branco, há infinitos tons de cinza. Em outras palavras, as dicotomias existem e são pontos de partida para depreender a vida, mas não são absolutas. Buscar respostas mais fáceis do que essa pode até servir para tampar o sol com a peneira temporariamente, mas a realidade se imporá cedo ou tarde.

No mais, se o que escrevi não lhe demoveu da crença de que o outro lado da polarização é uma força maligna a ser eliminada, recomendo um exercício de alteridade. Pense que, para você ser como é, o seu oposto precisa existir. Onde há luz, sempre, inalteravelmente, haverá sombra e vice-versa.