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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
É treta (3)! Briga é também revanche após “calaboca” de militares no olavismo

Bolsonaro é quem deve dar o basta. Mas será que consegue?

05/05/2019 20h56

Após levantarmos os elementos da nova disputa nas postagens 1 e 2, cabe aqui compreendermos, dentro da cronologia de disputas do governo Bolsonaro, como se encaixa a nova investida dos ideológicos sobre os militares.

É sabido que existe uma sonora guerra interna envolvendo os dois grupos majoritários no governo Bolsonaro. Impressiona, entretanto, o espetáculo de baixarias causado pelos envolvidos, que fazem da exposição de suas brigas intestinas a arma de combate contra seus adversários.

O grupo ideológico — liderado por Olavo e Carlos — iniciou uma escalada de ataques desde o início do mandato. As críticas eram ora revestidas de algum tipo de análise, como o tal positivismo da caserna, ora mero xingamento cru e simplório, como gostam os olavistas.

Mesmo o documentário “64: entre armas e livros“, produzido pelo Brasil Paralelo, e refletindo a visão de mundo olavista, não poupou as Forças Armadas de críticas. A todo tempo, uma política de deslegitimação do inimigo interno é conduzida pelo grupo de Olavo e os filhos do presidente — este, mero refém da situação.

Os insultos chegaram a tal ponto que exigiram uma resposta drástica dos militares. Após Carluxo compartilhar um vídeo de Olavo no canal do pai, agredindo o setor, Mourão e os demais tiveram que se posicionar; enquadram o presidente, que assinou uma humilhante nota oficial colocando ordem na casa. Carluxo surtou.

Foi o primeiro revés do grupo ideológico desde a posse do presidente. Como já abordei neste texto, destinado ao mercado financeiro, eram eles a subjugar os demais grupos — incluindo os de Guedes e Moro — nas disputas internas por teses e poder. O limite imposto pelos militares — necessário, após meses de execração pública — não foi bem digerido por Olavo e sua turma. Mas representou o melhor momento do governo até aqui.

As duas últimas semanas contaram com avanços e vitórias da reforma da previdência; houve também a edição de uma MP tratando de liberdade econômica, sintomática dos novos tempos. Além disso, notícias positivas no comércio internacional e uma clara melhora na relação com o congresso deram um tom de um governo que parecia, finalmente, tomar jeito. A calmaria só foi entrecortada pelas declarações abestalhadas do ministro da educação, que não merece maiores comentários. Mas o saldo era positivo.

As brigas entre os setores se mantiveram nos subterrâneos do planalto. Era Moro e as disputas pelo COAF quem protagonizava as celeumas aparentes. Mas o mal-estar estava lá. Olavo nunca parou com seus ataques; sua rede, ainda que relativamente plácida, parecia aguardar o momento para uma nova investida. E assim o fez.

A brecha dada por Santos Cruz ocorreu em meio a nomeação de outro militar para a APEX, área sensível para o grupo rival. É lá que atua Leticia Catelani, espécie de cão de guarda dos interesses dos filhos e do filósofo da Virgínia. A suposta ascensão de Santos Cruz sobre as diversas áreas do governo — incluso aí as olavistas — serviu de base para um interessante artigo de Cristian Derosa, para o site Estudos Nacionais. Ele é ligado ao segmento. Selecionei aqui alguns trechos:

Uma das táticas dos generais é ocupar todos os órgãos estratégicos do governo por meio de pessoas que respondam à hierarquia militar acima de qualquer outra solidariedade, incluindo com o Presidente. Para isso, a tática é retirar os quadros inconvenientes, o que os militares têm feito através de uma verdadeira operação de tomada de territórios e neutralização das defesas consideradas inimigas. Os alvos preferenciais são todos os quadros indicados pelos ministros mais fiéis a Bolsonaro.

É uma importante leitura do modos operandi dos militares no governo, sob uma ótica olavista. Vejam como ele prossegue:

Fica cada vez mais evidente que o ministro Ernesto Araújo é a bola da vez, o próximo grande alvo dos militares que não desejam o Itamaraty nas mãos de civis com ideias demais na cabeça. A tática parece ser vir de baixo para cima: a Agência Brasileira de Promoção da Exportação (Apex) é a responsável por contratos com a grande mídia e produtoras que compõem o mesmo esquema das décadas anteriores, como o filme que falava sobre o ânus humano, referido em artigo recente. Produtoras com vínculos petistas e psolistas estão na lista.

Para Derosa, aparentemente, a briga pela APEX parece ser especialmente importante. E vejam quem são os heróis da resistência:

Indicados por Ernesto Araújo, os diretores da Apex, Márcio Coimbra e Letícia Catelani têm sido a grande pedra no sapato dos conspiradores de farda e dos editores da mídia quando o assunto são os contratos com o governo. Os diretores cometeram um terrível crime: ousaram não assinar contratos de parcerias com empresas como a Terroá, citada na Lava Jato, que receberia 1 milhão de reais somente para fazer a agenda dos palestrantes para um evento sobre o Brasil nos EUA.

E aqui ele arremata:

Para implementar a agenda do alto escalão militar, porém, ele precisará passar por cima das indicações feitas pelo chanceler Ernesto Araújo, uma das maiores pedras de tropeço à continuidade da hegemonia cultural da esquerda no país. A situação é muito clara para todos: você pode ser ministro, mas se não marchar direito será enquadrado pelo quartel de milícias empoderadas. Nenhuma indicação de ministros fiéis à agenda cultural de Bolsonaro têm chances de prosperar enquanto os guardas do castelo mantiverem sua insurgência silenciosa.


Ao que tudo indica, o general Santos Cruz comanda uma verdadeira insurgência, cujo campo de batalha é a estrutura dos ministérios e agências, com o fim do controle completo e da “tutela militar”.

O artigo é importante pois demonstra a visão interna do processo por parte dos ideológicos. Derrubar Santos Cruz, além de representar um avanço sobre a SECOM, é também impedir o domínio de áreas estratégicas do governo pelos militares. Áreas em que a tal “guerra cultural”, a ser conduzida por Olavo, Ernesto e Carluxo, ocorre com maior intensidade.

A guerra fratricida entre os grupos em disputa é ruim para o governo e para o país. Um avanço dos ideológicos pode representar o fim da tênue estabilidade das últimas semanas, em prol de um modelo mais beligerante de guerra política contra tudo e contra todos.

Resta saber se o presidente, perdido em meio a tudo isso, terá sabedoria para dar fim à disputa. Torço que sim.

Os sinais até o momento, porém, não são dos mais alvissareiros…