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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
E a Direita Xing-Ling, como fica? Oportunistas e o novo partido do presidente

Antes patriotas, agora descartáveis. O que fazer com o entulho legislativo do PSL?

19/02/2019 16h27

Comenta-se, desde o desfecho do segundo turno, a criação de um partido “verdadeiramente” de direita, capitaneado pelo presidente da república. Abrigado no artificial PSL — fruto de um arranjo político com o “liberalíssimo” Luciano Bivar —Jair Bolsonaro e seus filhos sentem-se como peixe fora d’água. Acostumados a comandar com mão de ferro sua estrutura de mídia e militância, o grupo palaciano não parece disposto a transigir com aqueles a quem devotam a alcunha de oportunistas: os deputados e dirigentes políticos alçados ao poder pelo PSL.

Seu grupo, amadurecido pela vitória eleitoral, é mais restrito do que o imaginado por seus detratores; concentra-se, basicamente, no núcleo familiar, assessores e operadores de mídia, figuras do Olavismo — que trabalham em simbiose desde 2017 —, e uma rede hierárquica de formadores de opinião no twitter, facebook e youtube. Mantém proximidade com Onyx Lorenzoni, que achegou-se na estrutura do grupo em idos de 2017 após a polêmica das 10 medidas e as denúncias de Caixa 2. 

A este conjunto, que muitos conferem a alcunha de “núcleo ideológico”, cabe a responsabilidade pela construção do mito Bolsonaro e sua conversão em fenômeno de massas. Unidos por um sentimento de vanguarda, de luta gloriosa contra tudo e contra todos, alinham-se por vínculos afetivos e coesão ideológica, o que lhes permite traçar uma linha divisória que segrega esse núcleo principal de eventuais oportunistas que se aproximam do presidente.

Foi o caso de Gustavo Bebianno, a bola da vez nos expurgos bolsonaristas. Gustavo tornou-se próximo demais do presidente; foi responsável por costuras políticas de sucesso que ajudaram a viabilizar candidaturas e palanques para Jair. Além disso, abriu espaço — através de Paulo Marinho, seu amigo — para Bolsonaro apresentar suas ideias para o empresariado carioca e paulista. Com perfil pragmático e aberto ao diálogo —  e seu histórico de lobbysta apenas reforça isso — , Bebianno angariou apoio junto ao bloco militar e o Congresso Nacional, tão logo tornou-se ministro. Foi além: permaneceu influente perante os parlamentares do PSL, especialmente aqueles que esboçam um grito de independência dos ditames da família. Bebianno tornou-se um inimigo instalado na antessala da presidência. Era questão de tempo até ser destruído.

A naturalidade com que foi expulso chega a ser educativa. As narrativas oferecidas para a militância, replicadas bovinamente em correntes de WhatsApp, oferecem uma quase parábola bíblica que justifica a deificação do grupo; nela, Bebianno é uma espécie de Judas, que pretende levar o Messias ao impeachment através de sua perfídia. O bom filho Carlos, sempre vigilante!, percebe o ardil. Com seu jeito tosco, porém sincero, expõe o traidor à turba enfurecida das redes. Pressionado pela imprensa por conta do óbvio — é um vereador gerando crises no governo federal — arvora-se em seu amor filial e na devoção à causa. Falsos revolucionários devem ser expurgados! Viva o ogro bem intencionado! Aplausos gerais. 

Percebe-se aqui como o grupo se utiliza do expurgo e da execração pública para reforçar seus laços internos de fidelidade e sua imagem externa de pureza. Crentes na ideia de que Bolsonaro é a representação final do homem comum, imaginam que serão acompanhados pelo povo ao longo de sua cruzada revolucionária; a eliminação de falsos aliados torna-se, assim, um fato pequeno diante do colosso político representado por seu grupo. É, pois, um bloco político segregador e exclusivista, pouco disposto a acolher forças estranhas a seu núcleo central. 

Neste sentido, a montagem de um partido político que materialize formalmente tal estrutura é uma necessidade premente para o agrupamento. Abrigados hoje no PSL de Bivar, percebem que seu poder de persuasão e sanção sobre os filiados e parlamentares eleitos é restrita; não foram poucos os sinais de independência enviados pela Direita Xing-Ling durante suas desventuras no Oriente. Um dos assessores de Alexandre Frota, o lobbysta Cléber Teixeira, afirmou que “quebraria a cara” de Eduardo Bolsonaro se ele aparecesse em seu gabinete. Outros tantos, como o fazendeiro pró-greve-de-caminhoneiros Nelson Barbudo, passeiam pelo congresso com a desenvoltura de quem conduz sua agenda pessoal sem compromissos com o projeto do Bolsonarismo. 

Essa ala — digamos aqui “pragmática”, para não soar deselegante — aninhou-se em Luciano Bivar e demais “pragmáticos” em busca de uma coesão política que lhes oferecesse poder de barganha nas tomadas de decisão. O massacre público liderada por Olavo aos viajantes chineses serviu de alerta: caso não se protegessem, seriam todas vítimas do grupo majoritário. Esboçaram aproximação com Rodrigo Maia, em detrimento da vontade de Onyx Lorenzoni. Tentaram fazer política. Oportunistas que são, sabem que suas aventuras pelo congresso nacional podem não durar mais do que 4 anos. Até por isso, a amizade com Bivar é um tanto quanto… prolífica: o dirigente pernambucano controla o polpudo fundo partidário da legenda, o maior de todos. Permanecer com ele é permanecer com a grana. E sabemos bem que a turma oportunista pode parecer doida — mas ninguém ali rasga dinheiro.

O escândalo do laranjal afetou não apenas Bebianno; deixou Luciano Bivar em compasso de espera aguardando sua execração. Diferente do lobbysta carioca, Bivar é deputado e proprietário da legenda ( já falei aqui que ele é liberalíssimo, certo? ); não poderá ser simplesmente “descartado” como seu amigo do Rio. Ele e o bloco de oportunistas eleitos na esteira do bolsonarismo, tão logo iniciem-se os ataques, terão que construir uma alternativa política para si e seus seguidores, que creram inutilmente terem eleito “prepostos” do capitão reformado para o legislativo. 

Não sabemos exatamente como irão proceder. O destino inglório dos 6 deputados do PRONA, puxados pelo “mito” Enéas Carneiro — grande referência para atual geração bolsonarista —, serve talvez de alerta para os patriotas eleitorais. Ou não. Previsibilidade não é com essa turma. 

Caso o partido seja criado, nomes ligados ao Olavismo e a caserna serão agraciados com a benevolência do núcleo ideológico. Outros tantos, pinçados de outros partidos, terão o privilégio de compartilhar das graças da “revolução brasileira” mediante autorização do núcleo central. É a lógica do jogo. Pode ser que nada disso venha acontecer e um impasse paralisante obrigue o diálogo entre as parte. Essa é a hipótese que o Centrão aventa para obrigar o governo a ceder nas demandas por cargos e posições na máquina pública. 

A despeito disso, porém, a ruptura com a direita xing-ling está posta à mesa. Com ou sem PSL, uma massa de zumbis políticos vaga pelos corredores da câmara à procura de significado após o bilhete premiado retirado nas urnas em outubro. São os Trutis, Abous Annis, Bibos, Frotas, Francischinis, Juliens e outros tantos que se abraçaram calorosamente ao mito e agora curtem o gelo siberiano de seu núcleo central. Resta saber se continuarão rastejando por migalhas do bolsonarismo — tarefa que exerceram com primor — ou vão se abraçar aos milhões do fundo partidário de Bivar em busca de uma comovente sobrevida

Seja qual for a escolha, não ficaremos surpresos.