Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Dois papas

Do filme “Dois papas” ao mundo real. Do conclave aos dias de hoje. O que aconteceu com Bergoglio?

13/01/2020 19h08

O longa dirigido pelo brasileiro (não é o José Padilha!) Fernando Meirelles  gira em torno de uma conversa fictícia entre o então cardeal de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, e o Papa Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger), pouco antes da renúncia deste, em fevereiro de 2013.

O filme trata de forma platônica os dois papas. O então Pontífice como um homem fechado, impiedoso (de certa forma), afastado do mundo e dos fiéis. Um típico intelectual membro da Aristocracia que tem nas orelhas dos livros a sua conexão mais profunda com o mundo. Enquanto Bergoglio, o atual Papa Francisco, é retratado como um homem simples, caridoso e humilde. É o típico homem do povo: dotado de sabedoria popular, que gosta de futebol, cafezinho na esquina e anda de ônibus.

É fato que, de maneira injusta, a obra se distancia da realidade ao colocar Ratzinger como um reacionário sem conteúdo. Nada mais longe da verdade! Afinal, ele é um dos maiores teólogos vivos. Além de ser um sumo intelectual da Igreja Católica.

A obra se mostra atual e instrutiva em relação ao cenário mundial hodierno: uma sociedade polarizada e que despreza o diálogo. Em “Dois papas”, nos é mostrado que visões de mundo antagônicas podem coexistir e, por meio do diálogo, entrar em conformidade. Afinal, Ratzinger é contra-reformista, enquanto Bergoglio sustém a reforma da Igreja Além disso, há em nossa sociedade uma condenação da dúvida e dos erros. Consequentemente, surge a necessidade de escondê-los. Enquanto, na verdade, a dúvida, o erro e a imperfeição são partes da condição humana. São o que impelem o homem ao conhecimento e ao eterno.

Contudo, a finalidade desse texto não é fazer uma crítica ao original Netflix. Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, retratado como o pontífice dos pobres, será o objeto de análise. Para isso, de maneira análoga ao filme, trataremos a temática em questão de maneira platônica. A partir desse momento, quando me referir ao Jorge Bergoglio, estarei falando do cardeal de Buenos Aires. Já quando me referir ao Papa Francisco, estarei falando do eleito pós-conclave.

Conforme supracitado, Jorge ficou conhecido por ser um cardeal popular que via os fracos, principalmente os pobres, como o foco da igreja. Sua crença era de que que a igreja deveria quebrar os muros construídos para abraçar o máximo de pessoas. O pecado não deveria ser motivo de exclusão, mas as feridas decorrentes dele deveriam ser tratadas.

Então assumiu Francisco. E, abraçado com Bergoglio, fez suas primeiras viagens pelo mundo. Pregou pela paz, aceitação, pelo amor ao próximo e pelo perdão. De forma simples, sem as pompas habituais, se mostrava cada vez mais parte do mundo dos homens. Consequentemente, aproximava a igreja dos fiéis.

Com o passar dos anos, Bergoglio afastou-se de Francisco. Efetivamente, foi afastado por Francisco. Podemos ver essa mudança mediante as palavras e atitudes do Papa, desde a normalização da agressão, com frases como: “Se meu amigo (…) xinga a minha mãe, ele pode esperar um soco. É normal. Não se pode provocar”, até a recusa pelo beijo dos fiéis ao anel do pescador (símbolo oficial do Papa), como vemos aqui: https://youtu.be/wboJU8BJlh4. E por último, e ainda mais inquietante, vemos o papa dando tapas na mão de uma senhora que o segurou: https://youtu.be/Y41Tqul2gJY.

Aparentemente, Bergoglio está perdido e Francisco vem agindo como antagonista do irmão cardeal, o bom homem, que se preparava para reformar a igreja, como um pai caridoso que abraça a todos os filhos sem olhar seus erros. Francisco utiliza da carga emocional e da esperança deixadas por Bergoglio como técnica de persuasão para impor sua vontade sem resposta a questão da doutrina.

Com sua filosofia pós-moderna, tornou a igreja uma instituição líquida, volátil, sem verdades absolutas, com seus princípios relativizados. Dessa maneira, a instituição que deveria estruturar a fé e encaminhar o fiel à salvação tornou-se o oposto, aceitando atitudes que, nas sagradas escrituras, afastam-no da salvação.

Bergoglio, que ia acabar com toda a discriminação e intolerância na igreja, especialmente contra minorias sexuais, tem o estilo platônico e também traz um ideal no qual a empatia, no fim das contas, é unicamente o bem de quem domina. Esse Bergoglio, progressivamente abandonado por Francisco (cujo número de fiéis decresce), tem sido, todavia, adotado como bandeira para a quebra de dogmas da igreja e desvalorização dos conservadores, como Ratzinger. E ainda tem sido utilizado para acirrar cada vez mais a relação entre os discordantes.