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Do lado de fora, isso foi o que vi e ouvi na posse de Bolsonaro

Micareta com clima de copa do mundo. É o patriotapalooza

05/01/2019 11h35

Imagem: Vitor Liasch

No dia 30 de dezembro de 2018, só se falava de um assunto na capital do país. O forte esquema de segurança era evidente com a quantidade de carros da Polícia que circulavam por toda área, aumentando mais o clima de medo de um possível atentado contra a vida de Jair Bolsonaro. Apesar da dificuldade para achar um hotel às vésperas, e dos comentários de que tudo estava lotado, a impressão ainda era de uma cidade desertaNo dia 31, vendedores com apetrechos para o evento já circulavam pela Praça dos Três Poderes atendendo os novos consumidores que chegavam para conhecer o local e tirar fotos com os militares que ali estavam. Até o final da tarde, algumas dezenas de patriotas falavam até em acampar no gramado em frente ao Congresso para virar o ano. Mas a ideia foi tolhida pela chuva que começava a cair. Arrisco dizer que, das milhares de pessoas que foram assistir a posse, boa parte deve ter passado o ano novo como a nossa equipe: na estrada.

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Acompanhamos durante dois dias a movimentação em Brasília para a posse do presidente Jair Bolsonaro. Na segunda-feira, com mais de 90% dos hotéis lotados, se falava em uma expectativa de 250 a 500 mil pessoas. No final do dia 1, se contabilizou cerca de 115 mil visitantes na Praça dos Três Poderes. Notamos que a grande maioria da militância apoiadora de Bolsonaro aparenta ser de classe média e baixa, com uma faixa etária média de 25 a 55 anos. Também vimos muitas crianças acompanhadas pelos pais e idosos que vão acompanhados dos filhos. Fotos @vitorliasch

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Em primeiro de janeiro o clima já era diferente. O dia estava quente.  Nas ruas, o clima era o de um after da festa de vitória da copa do mundo. Pessoas circulavam com camisetas verde-amarelo que traziam Bolsonaro 17 nas costas, entre outras estampas variadas com opções de paletas de cores completas. Um homem vestia uma cabeça gigante de Bolsonaro, servindo como uma espécie de animador que fazia a alegria da criançada, tipo Mickey Mouse.

Tinha chaveiros, adesivos de “Eu fui na posse”, identidades, faixas presidenciais, bandeirinhas e lembrancinhas para presentear amigos. Também tinha comida: pastel, cerveja, churros, pipoca, sorvete, refrigerante. Tudo isso próximo de dois pixulecos gigantes de Bolsonaro que estavam na rua que descia o Conic e serviam de fundo para fotos em família. Aliás, fui repreendida por usar esse termo. Disseram que pixuleco era “coisa do Lula”.

Após a Rodoviária, todas as vendas estavam proibidas. O dono de um carrinho de sorvete da Kibon me contou que os militares estavam apreendendo a mercadoria de quem passasse do limite permitido. Os vendedores locais não pareciam muito felizes com isso..

De fato, o esquema de segurança foi muito rígido para todos. Passamos por três revistas até a frente do Congresso, onde Bolsonaro subiria a rampa. Na primeira revista já avisavam que era pra deixar pra trás bolsas, pochetes, garrafinhas de água, cigarro, isqueiro e desodorantes. Ao lado das grades se formavam amontoados dessas coisas pelo chão. Jornalistas reclamavam da limitação para transitar pelos espaços. Cada área tinha uma credencial diferente. Se você estivesse credenciado em um espaço, não poderia passar para outro.

Quem roubou a atenção foi a primeira-dama. Michelle Bolsonaro discursou antes do marido, e em libras. Falou especificamente com a população deficiente auditiva e amoleceu o coração até mesmo dos opositores ferrenhos que já a classificavam como sua “Bolsonaro favorita”. Vejam só:  é a primeira-dama mais empoderada da história do país.

E foi maior do que a primeira posse de Lula?

Não, por conta da própria estrutura escolhida pela segurança. O que vi foram multidões dispersas e circulando. Quem levou criança pequena não conseguia ficar muitas horas debaixo do sol quente, sem água, sem banheiro, sem comida. O mesmo vale para quem está perto dos 60 anos, a maior parte do público.

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Ao contrário do que a Globo e outros veículos da velha imprensa noticiaram, o dia foi marcado por um calor intenso. Apoiadores de Bolsonaro usavam chapéus, livros, bandeiras, e o que mais conseguissem para escapar do sol. 📷 @vitorliasch

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Outros estavam “aproveitando a festa” como se fosse micareta: os atendimentos foram em maioria por embriaguez. “E o Queiroz?”, perguntávamos. A resposta era um mix de “se errou, vai pagar”, “onde estava o COAF no mensalão?”, “por que não falam dos outros assessores?”.

Conversei com um senhor chamado Mohammed, um muçulmano dono de um dos hotéis do setor hoteleiro que não estava nem um pouco contente com a presença do primeiro-ministro de Israel na sua cidade. Ele disse que não tinha lotação e que chutava no máximo 20 mil pessoas em Brasília. Falei que estimavam 115 mil. “Mentira!”, respondeu  em tom de voz mais alto. “Isso aí é tudo mentira! Jânio Quadros sim era um líder que arrastou multidões”, completou com olhar saudosista.

Na noite seguinte ainda tinha gente andando pelos gramados em torno do Congresso, Planalto, Esplanada dos Ministérios e STF. Estávamos de carro quando vimos que havia uma projeção no prédio do Congresso. “Somos lésbicas e vamos resistir”, dizia uma das frases. Estacionamos. Fui até a van que projetava as mensagens e perguntei quem era o responsável. Um português simpático respondeu que foi contratado pelo grupo “All Out”, um coletivo LGBT que estava protestando contra o novo presidente. “Já fiz trabalho para os dois lados. Aqui manda quem pagar”, disse o português entregando o cartão do seu pequeno negócio. Logo chegou a Polícia Legislativa e pediu pra parar a projeção. Os policiais me confirmaram que era a primeira ocorrência de ato contra o novo governo.

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Retrospectiva: Na noite de 2 de janeiro de 2019, nossa equipe estava na praça dos Três Poderes fotografando o local. Éramos dois jovens jornalistas, uma publicitária e um programador. Todos de São Paulo. Tínhamos ido até Brasília para cobrir a posse presidencial do novo chefe de estado, Jair Bolsonaro. Quando paramos em frente a Esplanada dos Ministérios, percebemos uma projeção no prédio mais próximo: “Somos gays e vamos resistir”. Eram 22:00 am. Alí próximo tinha uma vam. Era o veículo que projetava a mensagem. Corremos até lá. Se tratava do primeiro ato contrário ao governo recém-eleito. O dono da vam disse que tinha sido contratado por um grupo chamado “All out”. Durou 10 minutos. Logo chegou a polícia legislativa e a vam foi embora. Tinha um casal de apoiadores de Bolsonaro no local, Erica e Messias Almeida. Eles eram de São José dos Campos. Fizeram uma live e transmitiram na página “A verdade nua e crua”. 📸 @vitorliasch

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Um casal estava no local também. O homem fazia uma live e perguntou aos policiais se o grupo tinha autorização, eles disseram que não. “Não tem autorização. Daí amanhã vão ficar de mimimi”, disse para a câmera. Chamei o casal pra conversar. Se chamavam Erica e Messias Almeida, casados e moram em São José dos Campos. Donos de uma página chamada “A Verdade Nua e Crua”, eles viajaram para Brasília porque a posse era um acontecimento histórico para o Brasil. Perguntei se eles achavam que as pessoas iriam continuar acompanhando a política e eles afirmaram que sim.

Vejam só a esquerdalha, agora no congresso nacional. Esses são aqueles que gritam por igualdade mas se acham especiais.Compartilhem!

Posted by A Verdade Nua e Crua on Wednesday, January 2, 2019

Sobre o Queiroz, não acreditam que a história possa prejudicar a imagem do novo presidente e esperam que ele dê o exemplo punindo os que erraram “independente de quem for” e questionaram  os motivos da mídia só falar do ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

Já quanto ao número de pessoas na cidade, “Acho que 115 mil é pouco. Deve ter dado, no mínimo, uns 400 mil”, disse a esposa.

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O rito da posse presidencial que acontece amanhã está marcado para ter início às 14h45, na Catedral Metropolitana de Brasília, e se encerra por volta das 21h, no Palácio do Itamaraty. Foto @vitorliasch

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