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Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Do herói trágico Grego à idolatria Política

Ou: por que somos tão messiânicos?

16/09/2019 08h10

Do Herói.

Nas tragédias gregas, o trágico é o inevitável, o predestinado. Aquilo do que não se pode escapar.

O herói trágico é escolhido para viver e enfrentar as situações do inevitável, esse destino que sempre é reclamado de forma maior; às vezes até pela ordem cósmica. Sim, não estamos mais na Grécia Antiga, porém o herói trágico permanece no imaginário ocidental.

O político é hoje o novo herói trágico, o predestinado a salvar o país e a humanidade – ao menos é assim que constroem a sua imagem. Para o seu grupo, tudo que ele faça é justificado, afinal, é para vencer os obstáculos da sua Odisseia.

A mentalidade trágica – no sentido grego, ou não – é a grande (se não principal) fonte dos problemas públicos no Brasil. É por causa de tal mentalidade que surge o patrimonialismo, a não distinção entre o bem público e o bem privado. Em Terra Brasilis, é raro vermos um grupo político que saiba fazer tal distinção. Trabalham na seguinte lógica: é meu ou é meu; o baixo nível do diálogo, já que são todos inimigos a serem combatidos.

Falado o problema político, vamos lembrar dos heróis nacionais. Inicialmente, Vargas, o pai dos pobres, que lutava contra os exploradores. Tudo que fazia era para os pobres, então, tudo a ele cabia e podia, até mesmo ser um ditador; mais tarde, Lula, sua história trágica contra os capitalistas malvados que queriam roubar o povo, explorar os trabalhadores e vender o país para os imperialistas americanos. Tudo ele pode, se for para alcançar o objetivo, inclusive roubar e atentar contra o Estado Democrático de Direito. Como herói ainda vivo, sua militância continua inflamada para que sua Odisseia seja retomada e cumprida; por último, Bolsonaro, o atual herói, na sua luta incansável contra o comunismo, os traidores da pátria e os falsos aliados. Todas as suas ações são válidas. Pois sem elas, o Brasil será (re)entregue aos petistas e comunistas. Até mesmo se apropriar da coisa pública, para proteger e beneficiar sua família.

Os heróis não são exclusivos da política, existem em outras áreas: Pelé, no futebol; Ayrton Senna, na fórmula 1; e por aí vai.

Os heróis são criados – e só possuem êxito nessa criação – pois há no brasileiro um enorme desejo de espelhar suas necessidades em algo maior. E por termos pouco costume de fiscalizar e cobrar nossos representantes, tendemos a depositar nossa fé em salvadores. Para a manutenção da imagem de herói, necessita-se sempre de uma missão, pela qual o herói lutará, com ímpeto suficiente para vencer qualquer inimigo.

Vamos com calma, afinal, os finais das histórias gregas são sempre negativos para os heróis que ao desagradar os deuses são punidos. Na política seria diferente?