Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Demitiram Alvim, mas não as suas ideias

A desonestidade sempre busca a irresponsabilidade

22/01/2020 00h56

A encenação diabólica de Roberto Alvim continua invadindo meu sono e não termina quando me desperto. A cena de um filme “gore”, que, por mais absurda que seja, remete a causas reais e invoca símbolos que nossos mecanismos mentais bloqueiam para nos tranquilizar. 

O temor não surge da capacidade do secretário de fazer algum mal, mas como esse governo é um terreno fértil para o cultivo de sectários e incapazes, adubados pelo abundante fertilizante autoritário e desonesto, que ocupa a ala ideológica governista.

O ignóbil ato publicitário governista não é uma ação deliberada de um burocrata que padece de plenas faculdades mentais ou coincidências provocadas por forças malignas. 

Ao meu ver, é, antes de tudo, uma demonstração de fidelidade de oportunistas que possuem o faro especial para atender aos desígnios daquele que detém o poder para lhe conceder as benesses desejadas. Se o presidente e seu círculo íntimo invocam personagens como Ustra, atos contra a humanidade como o AI-5, ofensas à profissionais de imprensa, entre outros, os subalternos pensam, por que não fazer algo dessa natureza? Sobeja mão de obra, pois são inúmeros os candidatos a atender às demandas, ainda que absurdas, exigindo maior sacrifício dos escolhidos, que competem para serem reconhecidos por seus atos de servilismo. Nesse caso, qual área seria a mais suscetível a demonstrações mais retumbantes desse comportamento senão a “cultura”?

Após o método de assassinato de reputação, criou-se o suicídio de reputação.

É como um “crime sem digitais”. O governo não pode ser responsabilizado pela escolha do dramaturgo de reproduzir um discurso nazista. Não haverá qualquer ato que relacione ordens superiores ao ex-secretário, que agora suportará todo encargo.

Para isso, é necessário apenas estimular o discurso violento contra o inimigo – desumaniza-lo nas palavras da filosofa Hannah Arendt –, fomentar o conflito com seu oposto extremo a fim de polarizar a discussão e calar as vozes razoáveis, atacar indiscriminadamente as fontes de informação neutralizando a capacidade intelectiva do público – como denunciado pela mesma filósofa em relação à ação de Goebbels, deixando imbecis confortáveis para travar a famigerada “guerra cultural”, onde o fim iniludível é a hegemonia. 

A estratégia política, antes denominada autoritária, hoje caracterizada como “iliberal”, consiste em criar um ambiente escatológico, que exige a eliminação de forças perniciosas para a causa última, autorizando o emprego de qualquer método que se preste a esse fim, sendo, por essa razão, mais eficiente a concentração das forças no personagem principal. Ao mesmo tempo, deve ser aplicado um verniz de razoabilidade praticando atos erráticos de recuos estratégicos ocasionais, que atendem a grupos utilitaristas que precisam ser mantidos em uma posição de apoio. Um puxa e estica, que no final mais estressa do que preserva o tecido social.

Os fiéis absorvem a imagética, praticando atos incompreensíveis em tempos de normalidade. Uma espécie de “PNL” coletiva, que afetam às incontáveis mentes altamente sugestionáveis. É nítido que os cargos em áreas de cunho ideológico são ocupados por dramaturgos, que em sua manifesta incapacidade, encenam papéis de “conservadores”, cuja concepção decorre de conceitos totalmente equivocados, tentando manejar de forma desajeitada, utilizando um vocabulário, que desacompanhado do conhecimento do significado, geram distorções e aberrações como, por exemplo, “arte nacional”, “mitos fundadores”, “valores”, etc.

Ministros e secretários como Alvim são descartáveis, como foram anteriormente outros personagens lamuriosos por terem servido a esse projeto – alienando qualquer traço de dignidade – em troca da chance de ascensão ou conquista de nacos do poder. Impressionante que durante esses meses de consumo de recursos públicos, o ex-ministro será lembrado por algumas polêmicas e por ter feito com que muitos brasileiros conheçam Richard Wagner, acreditando que era um compositor nazista.

Sua atitude é inquestionavelmente negativa, mas não deixa de servir à mensagem pulverizada no seio do governo. A polêmica provoca a reação de outros grupos autoritários – a esquerda – e em resposta apontam às manifestações em prol de outras figuras execráveis, sendo obrigadas ajustificar a tirania e terrorismo estatal – como o stalinismo – deslocando o debate para o plano do discurso ideológico, conferindo “legitimidade política” para a ação, justificando o injustificável. Nada novo, como se encontra na filosofia política formulada por Carl Schmitt. 

Naturalmente o extremo agiu e demonstrou naturalmente sua predileção por tiranos de seu regime ideológico e entrou em combate. Os espelhos estão presentes. Arrastando o debate para o fundo do poço, seu opositor também carece de moral para reprova-lo. O objetivo é alcançado.

A maior prova da concordância tácita é a ausência de uma resposta veemente para o fato. A demissão era uma ação sintomática, que, desacompanhada de uma reprovação veemente e negação da mensagem incutida no vídeo, implicitamente penetra a mensagem autoritária na mentalidade popular. A única reação foi convidar um nome popular da classe artística, demonstrando a ausência absoluta de qualquer plano para a área cultural. É como se anuísse implicitamente o rótulo imposto, trabalhando apenas para sanar o assunto e prosseguir em seus objetivos de ideologização cultural estatal.

A passividade de alas democráticas, especialmente aquelas lotadas em áreas técnicas do governo, sem exigir uma postura mais firme e explícita, apenas alimenta o terror da manutenção de entidades macabras na estrutura ministeriais.

Todos aqueles que tem a preocupação com a manutenção da discussão em assuntos e problemas reais são silenciados para o tema premente, outros preferem se manter alheios.  

O que ocorreu é reflexo da postura do governo em tentar se eximir de qualquer responsabilidade, utilizando a estratagema de imputar a causa aos seus inimigos.  Tudo é alguma conspiração ou boicote da oposição ou originário dos erros dos governos anteriores, inclusive na formação intelectual e educacional brasileira. Além disso, qualquer postura crítica contra o governo é taxada como traidora, causada por interesses pessoais egoístas, transladando qualquer um em esquerdistas. 

É lamentável que o conservadorismo esteja sendo à atos que representam exatamente o contrário do seu significado.