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Líder nacional do Movimento Brasil Livre e vereador na cidade de São Paulo.
De Freire a Calvino, uma resposta ao oprimido

Como a cosmovisão calvinista se contrapõe a pedagogia do oprimido.

07/06/2019 01h26

Aqui estou novamente, caro leitor, para lhe responder uma pergunta que havia deixado ao final do primeiro artigo: como rebater a Pedagogia do Oprimido teorizada por Paulo Freire e idolatrada por milhões de professores? Pois bem, eu havia listado uma série de autores que pudessem nos trazer embasamento nessa reflexão que propus, mas em uma curta conversa com um colega vereador (Rinaldi Digilio), eis que surgiu a luz: o humanismo calvinista.

Não sei se o leitor, assim como no meu caso, tem uma religião, porém, se tiver, talvez compreenda a dificuldade de alguns católicos reconhecerem benefícios advindos da Reforma Protestante e – cá entre nós – eu me enquadraria nessa categoria, o que torna escrever esse texto um verdadeiro exercício de alteridade [palavra chique, né?]  para mim. Alteridade aqui está ligada especificamente ao sentido de compreender as razões do outro a partir dos olhos do mesmo e, eu diria, procurar na existência desse outro a afirmação da própria identidade. Talvez essa minha definição possa parecer confusa, por isso fique à vontade para me xingar nos comentários caso esse trecho não tenha feito o menor sentido [não sei como os escritores eram capazes de sobreviver sem essa possibilidade de feedback imediato…].

Pois bem, posto isso, passo ao que realmente interessa nesse texto: entender como o calvinismo, enquanto um sistema de pensamento, pode ser utilizado para rebater [seria esse o termo adequado?] ou substituir [agora sim!] a Pedagogia do Oprimido dentro da sala de aula. Bom, o artigo anterior serviu para que expusesse o resumo do que acreditava Paulo Freire. Aqui, entretanto, não me aprofundarei nos pensamentos de João Calvino propriamente, até porque, apesar do nome, o calvinismo contempla diversos outros autores e, além das polêmicas teológicas, suas teses permeiam e influenciam diferentes campos da vida humana como política, ética, economia, filosofia e outros. Na nossa reflexão interessa como seu humanismo cristão influencia a educação e vai de encontro às teses de Paulo Freire.

Antes que algum sujeito espertinho [sempre tem um infeliz] me acuse de anacronismo [confusão cronológica], é bom deixar claro que as ideias calvinistas precedem – e muito – as de Freire, remontando o século XVI após a Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero. Contudo, Calvino foi capaz de criar – não sei se propositalmente – um sistema lógico de pensamento calcado no cristianismo e, especialmente, sob aspectos de sua interpretação da Bíblia. Esse sistema valoriza o Homem em sua totalidade acima de todos os seres que habitam a Terra e como a mais bela das criações feitas a imagem de um único Criador, daí provém seu aspecto humanista. Essa compreensão do significado do Homem, permitiu a Calvino, por exemplo, tratar do combate ao Bullying em sua obra “As Institutas” antes mesmo que esse conceito fosse criado e debulhado pelos pedagogos modernos. Evidentemente que, antes dele, outros já tratariam do mesmo assunto [a chamada ‘zombaria’, conforme textos bíblicos], como por exemplo, São Tomás de Aquino na Questão 75 – artigo 2 da Suma Teológica:” […] Enfim, zombar dos justos constitui ainda uma falta grave […]”. Mas é o calvinismo que leva esse conceito de forma mais pragmática para a educação. Isso porque seu sistema acredita que a escola tem o papel de formar cidadãos que precisam viver de acordo com os princípios éticos estabelecidos em sociedade e que não confrontem os conceitos bíblicos. “Ok“, – você deve estar pensando – “mas o que isso significa objetivamente?“. Na visão calvinista, isso significa que todos devem ser ensinados que somos iguais desde o nascimento; que é dever de todos trabalhar em prol da paz, tranquilidade e harmonia entre os diferentes; que devemos procurar nos conhecer para enfrentarmos nossas dificuldades internas; que devemos ter consciência da importância de se valorizar a vida humana e buscar preservar a vida do próximo.

Já posso prever alguém dizer: “Holiday, ‘cê tá’ viajando…“. Mas não se precipite, caro leitor. São nesses valores da cosmovisão reformada do calvinismo que encontramos a resposta para aqueles professores, ou mesmo alunos, que acreditam na formação de uma agenda política dentro da escola com a finalidade de combater uma suposta opressão. Enquanto de um lado, os seguidores de Freire propõem a doutrinação em massa para formação de um exército ideológico em sala de aula, o calvinismo, séculos antes, está nos dizendo que a instrumentalização do outro nunca é um caminho e que de nada adianta colocar a culpa dos seus fracassos em um agente externo (o “opressor”) se você não buscou sequer o autoconhecimento. Ou seja, como saber se o inimigo externo realmente existe se a educação que temos não busca ensinar o aluno a enfrentar suas próprias travas e medos?

O Protestantismo – sabemos há tempos – nunca foi incompatível com a lógica capitalista, menos ainda a vertente calvinista, logo, a competição é tida como algo natural [como de fato é], portanto, termos uma educação que não prepare o aluno para a competição, externamente e internamente, é pedir por uma educação fracassada. Aqui, ao meu ver, se encontra a chave para destravar a escola como o sinônimo de “reprodutora das desigualdades sociais” teorizada por Pierre Bourdieu na segunda metade do século XX. Segundo ele, o aluno entra no sistema público de ensino com determinadas desvantagens em relação aos que têm melhores condições de vida e, enquanto o segundo é capaz de trabalhar as desvantagens e tem experiências extra-escolares que lhe auxiliam na missão, o primeiro não tem sua individualidade respeitada e recebe um ensino que não dialoga com a sua realidade, assim o rico se mantém rico e o pobre se mantém pobre.

Pierre Bourdieu, francês (1930-2002)

Para Freire, a reprodução dessa distorção é resultado da ação do agente opressor. Para mim, essa reprodução de distorções sociais é resultado de uma pedagogia que busca prender o aluno na sua realidade de pobreza, a “valorização das experiências extra-escolares” que Freire tanto defendia – e que seus piratas de papagaio [não, eu não escrevi errado, só queria saber se você ainda estava prestando atenção…] espalham pelos cantos – nada mais é do que o medo de incentivar o aluno a conhecer e interagir com o diferente, impedindo maior riqueza no processo de ensino-aprendizagem e no processo de autoconhecimento do aluno.

Eu sei, talvez tenha me empolgado demais com o conteúdo, mas agora encerro o assunto… A pedagogia de Freire criou um monstro a ser combatido por meio da divisão da sociedade: é o tal do “opressor” que bate a porta. Mas, esse monstro não existe. E é por conta dessa fantasia que alunos de escola pública são desincentivados a sonhar alto porque estariam se “rendendo ao capital” ou porque seu sonho, na realidade, se traduziria em “tornar-se o opressor”. Por conta dessas sandices, alguns professores se acham no direito de fazer e desfazer a cabeça de seus alunos como bem entenderem sob a infame bandeira de uma libertação que nunca chega. Por conta dessas loucuras, alunos se convencem de que para lutar contra a “opressão” precisam se opor radicalmente ao sistema, mesmo que para isso tenham que aderir a criminalidade. Por conta disso, em muitos morros, a referência para o aluno deixou de ser o pastor ou o doutor e passou a ser o traficante ou, com sorte, o maconheiro.