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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Crise do nordeste vira disputa de força entre governadores e Bolsonaro.

Escorregada de Bolsonaro vira guerra entre forças políticas

23/07/2019 14h45

Bolsonaro não mandou bem em sua declaração no mínimo curiosa sobre os ‘governadores dos paraíbas‘, em vídeo vazado de sua reunião com jornalistas. A escorregada lhe rendeu oposição ferrenha dos governadores nordestinos, que puderam explorar o bairrismo e o sentimento de repulsa crescentes com o presidente.

O “01” não desempenhou tão bem na região durante as eleições; ainda assim, seus números foram bastante superiores aos dos candidatos tucanos à presidência, como Aécio Neves e José Serra. Houve grandes carreatas, eventos volumosos e votações expressivas nas capitais: Bolsonaro talvez pudesse quebrar a hegemonia lulista e aproximar a região do restante do país.

Essa tese, porém, parece ter ficado no passado.

A rejeição ao presidente da república disparou nos estados nordestinos. De acordo com pesquisa IBOPE, a avaliação ‘ruim ou péssimo’ chegou na casa dos 47% — números muito expressivos para um começo de mandato. Para o Diário do Nordeste:

A região Nordeste lidera a rejeição ao Governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com 47% de avaliação ruim e péssima. O índice que já era o mais alto do País cresceu sete pontos percentuais em relação ao mês de abril, de acordo com o Ibope.

O que preocupa, porém é o fato de tamanha rejeição ter se acumulado anteriormente à polêmica dos ‘paraíbas’, num momento em que os governadores da região negociavam — ainda que às escuras — a aprovação da reforma da previdência.

O descalabro na segurança pública e o crescente déficit nas contas estaduais demandavam um trabalho próximo entre os estados e o governo federal; além disso, havia uma estratégia clara de não entregar a Bolsonaro a tão aguardada polarização entre esquerda e direita.

Ninguém ali é tonto: tudo o que os estrategistas de Bolsonaro querem é uma treta partidarizada com os já tradicionais ‘pelegos de vermelho’. Mas uma hora a briga se torna inevitável — e Bolsonaro a entregou de bandeja, com requintes de crueldade.

A polêmica recente gerou vídeos-resposta de diversos governadores. De início, se destacou Flávio Dino, do Maranhão. Justamente por ter sido citado pelo presidente, era natural que polarizasse. Logo em seguida, porém, a inauguração de um aeroporto em Vitória da Conquista, na Bahia, permitiu que Rui Costa (PT), governador local, iniciasse seu festival verborrágico:

Todo mundo virou pai do Aeroporto Glauber Rocha.

Bolsonaro tratou de responder dizendo que quem foi o verdadeiro responsável pela obra foi o povo pagador de impostos. Um bom argumento. O que interessa aí, porém, não são as pequenas vitórias retóricas para cada lado: o conflito em si apenas beneficia os governadores e lideranças políticas locais, que podem explorar o sentimento de bairrismo — e consequentemente a memória de Lula — no eleitorado local.

Se a crise se a grava — ou melhor dizendo, se o tema ‘paraíbas’ continua em pauta — o presidente da república só tem a perder. Em uma região em que os governadores de esquerda são bem avaliados, a demonização de Bolsonaro torna-se extremamente facilitada. E não só a ele: cria-se um apartamento do nordeste com as demais regiões do país e às próprias ideias conservadoras que elegeram o presidente.

A esquerda vem construindo uma engenhosa estratégia de gato e rato contra Bolsonaro. Jogam no contra-ataque, fechados, sabedores de sua inferioridade numérica. O presidente, por seu turno, comporta-se como aquele lutador afobado, que leva vantagem pelo seu tamanho mas se enrosca nos próprios movimentos. Até uma hora que cansa — e ser governo inevitavelmente cansa — e abre o flanco para um contra-golpe mortal.

O ruim dessa história toda: a vida do nordestino não melhora em meio às mitadas e lacradas.

Um Brasil de fato livre deve ter um projeto para o Nordeste — para muito além de chavões bobos e simplificações idiotas sobre ‘cabra da peste’. O povo do nordeste precisa de capitalismo, crescimento econômico, dinamismo político e social.

Só assim poderá se livrar de coronéis e oligarcas que sabem muito bem trabalhar com seus medos e anseios.