Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Covid-19 e a imunidade populista

A encenação populista de Bolsonaro suportará a pandemia?

16/03/2020 20h07

Em tempos de crise mundial aguda, as incertezas geradas por teorias da conspiração geralmente são catastróficas.

Há uma guerra contra o vírus, impossível de ser negada. Não admitir isso é um ato de fé, irresponsável e leviano, principalmente de um governo.

O método presidencial está manjado.

Desconfiar é um ato típico e imprescindível da população. Essa desconfiança deve recair sobre o governo, que detém as informações, recursos e instrumentos para análise da real ameaça e estimativa das medidas de combate.

É uma imunidade contra manipulação. Um povo crédulo em seu governante corre sérios riscos.

Por isso, a desconfiança não pode ser invertida e usada em benefício do próprio governante.

O governo Bolsonaro instrumentaliza o ceticismo popular para ganhos de popularidade, apenas reproduzindo ideias leigas e simplistas. Atos como citar a preocupação do “povo” em relação às partidas de futebol é uma encenação folclórica, simplória e ignorante.

Aposta na opinião comum manipulada por meio de desinformação, ações contraditórias, teorias conspiratórias e descrença em fontes de informação, gerando uma distorção dos fatos reais e deixando brechas para evitar a responsabilidade.

O presidente, tão seguro do que fala, tem o dever de provar que sua escolha tem alguma base em informações ou análises até o momento. Sua opinião pessoal é quase irrelevante, mas perigosa se confundida como declaração oficial do governo.

Confrontando os fatos que se alastram, o governo contraria o sentimento verdadeiro cético e se coloca em uma bolha imaginária, distante da realidade, sob a crença que está em alinhamento popular.

As suas falas isoladamente não têm o poder de mudar a realidade, sendo, no máximo, bravatas e fingimento populistas, que soam naturais para população em geral. Acreditar nisso é apenas um desejo em adaptar à realidade à sua vontade, o que tem sido uma tônica desse governo, que acredita que está com o “povo”.

Na atual crise do vírus Covid-19, facilmente é possível ver a estratégia “populista”, pois a questão é de saúde pública, com pouca margem interpretativa. A crise atual não é uma questão de opinião.

Naturalmente a estratégia oferece um ganho de popularidade e preservação da sua base de apoio, que ainda preserva um sentimento de indignação, descrença nas instituições e na política, preferindo um político que fale a sua “língua”.

A legitimidade do indivíduo indignado no poder se mantém retro alimentada pelo sentimento geral. Esse sentimento é justo, pois muito se fez contra a confiança popular, deterioração das instituições e desastres econômicos e sociais.  As eleições de 2018 foram movimentadas a partir disso. O presidente eleito reuniu eleitores, muito diverso em suas opiniões, mas com esse mesmo sentimento contra os políticos que dominaram o cenário político por 14 anos. Uma estratégia dessa natureza somente se mantém se alimentada cada vez com mais acirramento. O método é sempre o da representação da indignação, por meio ataques aos políticos, imprensa, instituições, que reafirmam o sentimento popular.

Contudo, a indignação e personalismo não são suficientes para se governar nosso país. Governar sob esse princípio é um oportunismo político, pois simboliza um sentimento, mas se exime de apresentar qualquer solução. Não importa se o eleito é Bolsonaro, “Boca Aberta” ou Tiririca, desde que seja capaz de fazer esse papel.

Não é possível apenas reproduzir atitudes simplórias, que, sem dúvida, gera um grande sentimento de identificação. Governar não é emular o comportamento popular. É saber reconhecer as demandas populares e liderar a nação para a melhor solução e atendimento dessas necessidades.

É preciso ser responsável e demonstrar a capacidade de reconhecer o sentimento popular, mas sendo um líder verdadeiro, guiar a nação para esses anseios.

O contrário é ser um poste narcisista, viciado em veneração, que busca o comodo caminho da declaração lacradora inflamada pelo público indignado. Não é surpresa que seja um padrão dos políticos da sua base de apoio.

A política é inviabilizada por esse meio. O efeito deletério disso, é a ausência de um plano político de recuperação nacional.

A concentração no personalismo político, especialmente nesse tipo de figura, impede a verdadeira evolução política social, que exige uma ação de coesão e consensos sobre determinadas políticas e projetos amplos, elaborados e executados em torno de um projeto partidário em torno de um grupo ou partido com sentimento e ideais comuns, cada um atuando em sincronia nos poderes legislativos e executivo.

O governo em conflito com o congresso, em uma democracia, é uma ilusão ou uma desculpa para se limitar à prática de uma política eleitoreira, baseada na opinião pública.

Um político narcisista, egoísta e paranoico jamais aceitaria um projeto dessa natureza, pois sua vaidade impede que compartilhe os resultados políticos. O histórico demonstra a destruição do grupo político que o elegeu, dos seus apoiadores eleitos, do partido pelo qual foi eleito, da base política no legislativo, dos grupos não governamentais, etc.

Estamos, assim, reféns de teorias da conspiração, desinformação, conflitos fabricados e outros métodos dessa natureza.

Contudo, a realidade vai se impor, pois não basta atuar, é preciso governar.

A aposta no calor para contenção da proliferação do vírus ou a minimização das limitações individuais que o vírus provoca é apenas um desejo, que contraria todos os elementos empíricos que se revelaram até o momento.

É nitidamente insuficiente para despreocupar a nação nesse momento de incerteza e gerar a confiança para o enfrentamento do problema que se avizinha, com a única preocupação com a autopromoção e ganhos políticos com seu público apoiador.

A sua declaração não é uma questão de opinião, mas uma política de Estado, com a responsabilidade total do Presidente.

O governo conta com um Ministro da Saúde e equipe que têm se apresentado como competente, a despeito da postura negacionista do Presidente da República. Há uma grande contradição. Até o momento, as ações e declarações da equipe de saúde têm sido frontalmente contrárias à postura e falas do Presidente da República.

A posição da Presidência tem capacidade exponencial para maximização das ações ministeriais, sendo o reverso verdadeiro.

Uma declaração de prevenção é determinante para a eficiência das campanhas e medidas do Ministério da Saúde, ampliando ou reduzindo, o que tem um custo para a máquina pública.

Os efeitos sobre a incapacitação do trabalhador brasileiro e recuperação da atividade econômica serão fundamentais para o nosso futuro próximo. Ações inadequadas podem agravar os resultados na economia.

Logicamente, em caso de agravamento da crise, haverá negação do que foi dito e manipulação da opinião usando o sentimento dos seus apoiadores, que se comprometem emocionalmente, que apoiam todos os atos do presidente, sob a alegação de que ele fez o que o povo desejava.

A traquinagem não pode ser considerada apenas folclórica. Age diretamente na capacidade de proteção às vidas brasileiras.

Nesse caso, a responsabilização do mandatário do Planalto é inquestionável e será determinante para o futuro nacional, manifestando se pretendemos viver numa fantasia ou se vamos enfrentar os nossos problemas reais e imediatos.