Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Cortinas de fumaça e de ferro”

A manobra para sitiar politicamente o congresso

21/02/2020 18h36

Em recente vídeo do MBL “10 motivos para se preocupar…” (https://www.youtube.com/watch?v=s98-0VPW-OE), Renan Santos lista elementos presentes no cenário político brasileiro ainda dispersos, mas que causam certa apreensão, levantando a dúvida sobre o que está em jogo no momento.

Como sempre, Renan é intuitivo, percebendo movimentações internas à luz dos acontecimentos públicos.

Pois, então, apresento as minhas impressões pessoais.

Realmente, o clima de tensão está aumentando e espanta a sensação de que ocorre uma escalada de violência generalizada. A sensação, por si só, é insuficiente para formulação de qualquer juízo.

O governo reativo e improvisador parece estar agindo a partir de um plano. O aparente plano em andamento é mais uma estratégia bélica do que política. O movimento se aproxima da lógica de uma manobra militar.

A manobra funciona como cortinas de fumaça e de ferro, se preparando para um período de guerra, mas em sentido político.

Bolsonaro transparece estar pressionado para apresentar crescimento econômico concreto e melhoria no bem-estar da população e tem no horizonte próximo graves denúncias contra seu filho e eleições municipais.

Os elementos estão entrelaçados por um sujeito comum, o Poder Legislativo.

As expressões de desespero do Ministro Paulo Guedes por falta de empenho na aprovação de reformas e de apoio de suas medidas para aquecimento da economia e melhora contas públicas exigem interlocução mais eficiente com o parlamento.

É justamente nessas casas onde será selado o futuro dos projetos de Paulo Guedes.  As casas legislativas têm conseguido extrair nacos do protagonismo na aprovação da agenda de reformas ou atendido às exigências de recursos e causar certos constrangimentos ao presidente. O governo sabe que não pode perder mais batalhas e que os presidentes irão formular pedidos ainda maiores, sendo possível a tentativa de imposição de retorno dos meios de negociação da política de cooptação ou presidencialismo de coalização.

As especulações sobre as denúncias que estão por vir contra o Senador Flávio Bolsonaro prometem ser gravíssimas, relacionando o filho do presidente às atuações envolvendo agentes de milícias, que podem alcançar a figura do pai. As veementes manifestações em confronto com a imprensa demonstram um claro incomodo da presidência e sua equipe, especialmente em torno do caso do miliciano Adriano, que cruza a atuação do senador quando era vereador no Rio de Janeiro. O recurso reiteradamente utilizado pela família  no caso é acusar a imprensa de parcialidade e militância, colocando em dúvida as notícias e informações, reconhecendo apenas os seus canais “oficiais” de divulgação.

O processo contra o senador Flávio Bolsonaro caminhará lentamente até o seu desfecho, mas um processo maior pode preocupar o Presidente, o impeachment, que se não mata, fere. O preço político é cobrado no início para impedir sua abertura ou no final com a perda do mandato, lição amarga imposta à ex-presidente Dilma Rousseff. A pressão pela abertura inflaciona o preço político, dependente da atuação decisivamente pela exposição na mídia para adesão popular.  

Novamente, o campo de batalha é o congresso nacional e a imprensa será testada pelo governo para neutralização como canal em defesa das casas legislativas.

A opção do governo para tratar com o congresso foi se declarar intransigente com tratativas dessa natureza, limitando às negociações em termos mais republicanos, utilizando para isso a figura do General Braga Netto, que deverá mobilizar as tropas políticas internas do Poder Legislativo.

O governo, pari passu, age em outro flanco investindo contra o Legislativo, denunciando uma suposta “extorsão”, com medidas que reduzam o espaço para execução do orçamento, exigência de cargos e emendas, entre outras ações, sem o custo da função executiva.

O escalado é o combativo Ministro-Chefe do GSI Gen. Heleno, com atribuições muito diversas da relação como Congresso, entrou em confronto com os chefes das casas, em vazamento em pronunciamento nacional e de grupos de “Whatsapp”, apesar de ser o chefe da inteligência.

O mesmo ministro deu o “salve geral” para a virtual militância que já convoca o chamado às ruas para o “protesto a favor”, repetindo um método do início do governo. A mobilização atenua a força da imprensa em provocar reações populares, ao mesmo tempo que há o constante ataque por milícias virtuais “atiçadas” pelo próprio governo.

Em um aspecto o planalto caminha a frente ao congresso, é a atuação em mídias sociais e popularidade. O governo possui uma militância e apoiadores muito atuantes, que não existe no caso dos deputados e senadores. Os parlamentares ainda têm temor à opinião popular e especialmente quando envolve processo eleitoral.

As eleições municipais são decisivas nesse sentido. O prejuízo que o governo pode infligir nas bases eleitorais dos deputados e senadores e seus candidatos é real.

Justamente nesse momento as forças policiais estão em forte mobilização, gerando instabilidade aos postulantes aos cargos municipais, seja por insegurança ou por questões fiscais. Não há nenhum elemento que vincule o governo aos atos, mas é difícil que alguém pague para ver, exceto o insensato Senador Cid Gomes.

A estratégia pode esgarçar as noções de democracia, mas não rompe o tênue limite de ilegitimidade.

A ação não é para amadores e os grupos olavistas devem se sujeitar à acatar as ordens.

A estratégia é sitiar politicamente e fazer uma “cortina de ferro” em torno do congresso e ainda uma “cortina de fumaça” no caso “Flávio”. Se nada disso funcionar e o governo for acossado, as tropas já estão posicionadas.

Ainda que soe como um devaneio, é preciso apontar que os agentes políticos em oposição ao governo estão fornecendo todos os elementos capazes de gerar uma situação irreversibilidade. Sob o argumento de resistência ao governo fascista e violento, a oposição em vertigem já pensa e age como combatentes de uma ditadura, com licença para agredir, não negociar, atacar, causando um ciclo de violência. O governo age de forma a promover o confronto e é mimetizado pela esquerda, que deseja reocupar a cadeira e agir com a mesma forma de controle, com seus meios, até o embate mais trágico.

A imprensa não apresenta qualquer empatia, se escandalizando por qualquer ação e palavra do governo, que adota a postura de vítima.

Outros agentes políticos, por motivos singelos, já pedem a destituição.

Declarações e ações de cunho autoritário têm seus mecanismos de repreensão, mas que se usados imprudentemente, podem ser inclusive atentatórios à própria democracia e perder seus efeitos, abrindo caminho para o problema real. O resultado inevitavelmente infrutífero gera o discurso de tentativa de ataque ao mandato ou golpe, novamente se pondo como vítima.

Se nada disso se configurar, os ministros conseguirem dar um rumo e organização, aprovação dos projetos de reforma e diálogo com o congresso, todos poderão ser desacreditados e acusados de criativos ou delirantes. Prefiro e até torço para que esse risco se concretize.

Enquanto alguns democratas têm o privilégio de fingir uma resistência confundindo alucinação com vertigem, é preciso dar continuidade no pós-impeachment e discutir seriamente o contexto político brasileiro, múnus do cidadão comum que quer defender esse legado.