fbpx
Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Cortes na educação (I)

Uma análise dos cortes na educação

09/05/2019 13h53

Depois dos cortes de espadachim japonês do ministro Weintraub, estamos todos perplexos. Os cortes são legítimos? Quais os efeitos? O que fazer? Um bom começo para entender a situação atual é partir de dados consensuais, que fornecem as balizas para nós refletirmos sobre o assunto.

Os dados para esses posts foram colhidos, preferencialmente, em documentos oficiais – notadamente o relatório da OCDE, a partir do qual muitas inferências são feitas em artigos na mídia popular, tanto pela esquerda quanto pela direita. Sendo assim, examiná-lo parece-me um bom começo para refletirmos sobre essa questão.

Existem, basicamente, duas visões gerais sobre a relação investimento/qualidade na educação. Há uma visão crítica liberal, que tende a desfazer ou minorar essa relação (o que se pode ver neste artigo do mercado popular) ou ainda neste artigo da Gazeta do Povo e uma visão de esquerda que, na sua expressão mais simples, tende a estabelecer uma correlação rígida entre investimento/qualidade na educação. No Brasil, debates ideológicos giram em torno dessa dicotomia sem alcançar um consenso razoavelmente bem estabelecido. A ascensão da nova direita trouxe ao panorama a visão crítica liberal, hoje hegemônica nos setores governistas.

O modo correto de se enfrentar este tema, a meu juízo, é recorrer, primeiramente, ao exame e cotejo dos dados factuais, após o que deve-se tentar interpretá-los globalmente, inserindo estes dados na historicidade. Suponho, portanto, algumas premissas (i) que os dados factuais aqui utilizados não são falseados (ii) que a metodologia estatística é válida e possui poder de apreensão sobre a realidade retratada.

O Brasil possui uma disparidade visível entre o que é investido na educação superior e o que é investido na educação média e básica. Este gráfico é de 2011, mas segundo artigos mais atualizados sobre o tema essa diferença não minorou significativamente ao longo do tempo,

Pode-se perceber que essa diferença é da casa de quase cinco vezes mais. Mais adiante nestas notas nós veremos se alguns mitos sobre a educação superior e básica sobrevivem ao escrutínio cuidadoso dos números. Por ora, sigamos na leitura dos pontos centrais do longo estudo de caso da OCDE.

1. Na participação de programas técnicos e vocacionais, o Brasil aparece em último lugar com apenas 4% de jovens envolvidos com esse tipo de atividade (veja aqui o estudo da OCDE, pg 30), numa faixa que vai de 4% a 30% segundo os autores do estudo.

2. O percentual de jovens entre 25-34 anos que não tem o ensino médio é amplamente superior à média dos países do OCDE (veja aqui o estudo da OCDE, pg. 42). Vejam o que eles denominam de upper secondary school (veja aqui) e como essa classificação internacional corresponde àquilo que denominamos de ensino médio.

3. O percentual de jovens entre 25-34 que não tem o ensino superior é também amplamente superior à média dos países da OCDE. Com efeito, o Brasil aparece muito próximo ao último lugar do estudo (veja aqui o estudo da OCDE, pg. 48), constituindo menos da metade da média, e somente perdendo para Índia, Indochina e África do Sul. Deste modo, parece-me claro que a educação superior, constituída em nosso país majoritariamente pela educação universitária, já é, ao menos no que concerne à sua divisão percentual quantitativa, um privilégio das elites.

Outro fato interessante é a relativa desaceleração da participação proporcional no ensino superior, comparando-se a ascensão dos nascidos em 1930-1950 com a ascensão dos nascidos em 1960-1980, o que pode nos fornecer uma visão histórica da disparidade acentuada que, ao que indicam os dados, tem sido uma marca do Brasil nos principais concernentes à educação. Veja o gráfico abaixo:

Nas próximas notas, continuaremos nosso exame. Se você souber de algum estudo interessante, coloque nos comentários.