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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Conservadores sem moral

O ultraje como prática política. Um arremedo de conservadorismo.

16/10/2019 00h26

A sociedade brasileira tem como característica: o “moralismo”. Uma espécie de impulso, conclamação de um juízo sumário, falsificação do escândalo e admoestação de quem quer que seja, sem o exame pessoal e conduta que valide a postura. Não há como escapar. Seja na família, na comunidade, política ou qualquer lugar onde haja um brasileiro, lá está a incrível capacidade de dar lição de moral, sendo suficiente para identificar esse esporte nacional do falso virtuosismo, a obra do mestre Nelson Rodrigues.


O discurso não é exclusividade de uma das vertentes das posições políticas. Mais recentemente, a esquerda se elegeu com o discurso moralizador e foi escorraçada por suas práticas, mais do que demonstradas, de ilicitudes administrativas e de corrupção. Incrivelmente, o eleitorado que se manteve fiel tem a audácia de negar a verdade, sendo suficiente que sustentem a mentira para si.

Outro grupo, teve a incrível habilidade de se transformar em paladinos da virtude moral, combatendo destemidamente os comunistas, alinhando-se na frente de combate com outros grupos ressuscitados da década de 60 e seus simpatizantes, caçando, ofendendo, agredindo, em nome da luta contra o politicamente correto. A sandice desses grupos, movidos pela convicção da moralização, não distingue mais o que seria o politicamente correto do que é simplesmente o correto.


Esse público foi catalisado pelo projeto que se demonstrou viável no pleito eleitoral, especialmente adotando a bandeira do combate à imoralidade do Partido dos Trabalhadores e seus aliados, que inegavelmente tomaram o estado para si, como era esperado. Para tanto, o candidato, espelhava a atitude moralista, atacando inveteradamente sem economia de ofensas e agressões verbais gratuitas e evocando os personagens que afetam o imaginário de terror, em nome dos cidadãos de bem.


Não se vence o certame eleitoral sem quantidade, que em tempos de internet, se conquista por influência digital. A expressão radical de fidelidade partidária (submissão) e intensidade do discurso moralista eram os requisitos para alcançar o espaço no pleito, formando uma base “popular”, ecos do discurso em ascensão.

O evento inédito da onda digital e rompimento de qualquer limite para o debate ideológico, travestido de moral ou luta contra o politicamente correto, resultou em sucesso do projeto, visto como salvação para o Brasil destruído pela corrupção e má administração.

Qualquer cidadão, dotado de algum princípio e valores, mas principalmente com um pouco de vivência combinada com desconfiança dos discursos moralistas, é capaz de enxergar a manifestação repetitiva e insidiosa do moralismo da sociedade brasileira.

Como um ataque, muitas vezes seguido de vocábulos dos mais chulos ou de desejos dos mais violentos possíveis, pode ser atribuído a uma atitude conservadora? Logicamente, a nova direita “verdadeira” não teve qualquer contato com valores verdadeiros, tampouco intelectuais, inerentes ao conservadorismo.

Muitos demonstraram conhecimento, mas desprezaram a prática, pois submissos à ordem e projeto de poder político.

As relações estabelecidas nessas bases, evidentemente não tem assento na confiança, na capacidade de diálogo, respeitabilidade, deferência ou em qualquer outra virtude, mas tão somente na ascensão política.

O brasileiro, em especial, da classe política, é um tipo matuto. Sabe ter um olhar pragmático, onde há encantamento de rebanho. Sem demora, ao primeiro ruído de contradição no discurso moralista, extraiu vantagens para si, em detrimento dos demais, no caso, a sociedade. Ao prever o caos, apostam nas velhas e repetidas práticas políticas, vício governamental, que inevitavelmente incorreria o atual. Ao enxergar a oportunidade, celebraram um grande “acordão”.

Logo, surgem as demonstrações dessa contradição entre discurso e governo. Não há qualquer moral com o emprego do recurso público, mas há uma justificativa (passada de pano). Não há moral em uso das nomeações pessoais, mas há uma intenção e maior que só os seus defensores enxergam (passada de pano). Não há receio no uso do direito do sistema eleitoral, mas a culpa é daqueles que integram o partido (passada de pano). Não é preciso continuar, pois um fato é inegável, é imoralidade, quando a prática contraria o discurso.

Em pouquíssimo tempo, parece que o processo político eleitoral se revela como reflexo do passado, que ecoa o moralismo do sujeito brasileiro, que, não perde tempo em proferir o discurso com autoridade moral, mas pego em contradição, nega sem rubor a prática condenada, geralmente lhe acusando ou apontado para outrem.

Repita-se o que já mencionei, não é populismo, é populacho. Não é moral, é hipocrisia, que máscara sentidos e pensamentos perversos da natureza humana.

Como eternizado nas palavras de François La Rochefoucauld, “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.