Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Complexo de vira-lata

O anão diplomático que ruge

07/01/2020 13h13

A declaração do governo Bolsonaro sobre a ação ofensiva contra o regime ditatorial do Irã[1] e suas milícias é prova do despreparo para ocupar o cargo político mais importante do Brasil.

No início do governo as declarações e ações intempestivas do presidente eram vistas como idiossincrasia, folclore, desdém. Havia uma expectativa que a atitude beligerante fosse uma estratégia contra setores da sociedade, muitos deles com o propósito de inviabilizar seu governo, que seria acompanhada de ações práticas capazes de demonstrar toda hipocrisia que ocultavam ideologias, preconceitos contra certas opiniões e valores comuns populares e manipulação política. A preocupação em caso de êxito era a supressão de vozes discordantes e críticas necessárias para que não se desemboque em um governo autoritário.

Acredito que essa era justamente a ideia de grupos pertencentes à base de apoio do presidente, dentre esses a ala ideológica, importante para formulação do personagem que foi eleito com vistas a um governo inédito de direita. A estratégia demanda previsibilidade, conhecimento em comunicação, reflexão, ou seja, seria uma partida de xadrez 4D. Entendo que muitos contavam que o presidente estivesse disposto à recepção das orientações e sugestões. Com o tempo parece que não foi isso o que ocorreu, sendo sucessivas as manifestações reativas, improvisadas, sem discussão com áreas especializadas, na maioria das vezes apenas retrucando uma pergunta ou informação, inconsequentemente.

Com efeitos extremamente negativos, a postura paulatinamente afetou a crença da consolidação de um presidente com estilo popular combinado com a capacidade de liderança.

Notadamente, o presidente não deixou de ser o que foi durante três décadas na Câmara dos Deputados, um político de baixo clero, polêmico, ríspido, abrutalhado, etc. Seu conhecimento se limita à repetição de chavões de uma visão genérica sobre os valores de “direta”, que, no seu caso, sempre acaba por buscar uma visão reacionária atrelado ao regime militar. Porém, adicionou-se a soberba do poder conquistado, iludindo-se quanto à própria capacidade e olvidando das ligações que lhe impulsionou à conquista da cadeira presidencial.

Uma das áreas que mais deixou patente sua inépcia foi a das Relações Exteriores. Como chefe de estado, basicamente o presidente se envergou para a figura de Donald Trump, como forma de sujeição aos Estados Unidos da América. Donald Trump é um expoente na política internacional de como se portar como um grande negociador em prol do interesse nacional.

A aproximação era desejada e coerente com sua plataforma eleitoral exitosa. O que não se imaginava a forma como isso está ocorrendo. Um dos pilares para a formação de um grande líder de direita, especialmente com viés de um governo iliberal (com referências abundantes a governos como da Hungria, Itália, entre outros), seria a construção de um ideal de nação forte e soberana, conduzida por uma figura que tivesse apoio direto popular, a par das instituições políticas. Certamente, essa é uma das principais frustrações das alas de apoio intelectual do governo, que enxerga o esfacelamento da figura do grande líder nacional no imaginário popular brasileiro.

Os exemplos disso são diversos, a começar pela nomeação do ministro, cujo perfil surpreendeu a todos, especialmente aqueles que há muito tempo desempenham atividades de chancelaria e tem vasto conhecimento técnico. A atuação do ministro não frustrou as previsões, sendo uma enxurrada de declarações de cunho ideológico pouco elaboradas e ações que muitas vezes era mera sujeição à figura presidencial, como ocorreu em encontros internacionais, em que o filho do presidente ocupou o que deveria ser de sua alçada. A comprovação do amadorismo na diplomacia foi seguida pela presença do filho em diálogos (muito inflados pelo governo) com Donald Trump, inclusive vestindo um boné de campanha eleitoral para 2020, além da desastrada tentativa de nomeação para ocupar a embaixada americana. Não foi diferente nos ataques internacionais no caso dos incêndios na Amazônia, em que detinha todas as ferramentas para sair vitorioso na discussão, mas foi incapaz de superar uma adolescente na discussão.

A postura se coaduna com a imagem do presidente tem de si próprio. A ideia de que é capaz de dirigir determinadas áreas de governo baseado no seu instinto político, convicções pessoais (pouco elaboradas) e improviso, utilizando, geralmente, o confronto direito. É claríssima a diferença das áreas sob sua efetiva condução, como relações exteriores, educação, direitos humanos, meio ambiente, etc) com as demais áreas que ele próprio declara desconhecimento, a cargo de ministros experientes, cujo tratamento é extremamente mais elaborado, planejado e bem executado.

No caso específico do conflito entre americanos e iranianos, o governo não se habilitou como um ator relevante para figurar em discussões internacionais. Unilateralmente já declarou seu posicionamento em um conflito, no qual não tem qualquer condição participar ante sua precariedade militar e insuficiência de recursos. Além disso, um posicionamento muito precipitado, pois se reduz sua capacidade de negociação com os Estados Unidos, conforme precedentes históricos, em que houve compromissos com ganhos importantes com aliados e prejuízos em caso de imparcialidade. Além disso, sujeita à riscos o próprio embaixador brasileiro que se encontra ainda em solo iraniano.

O maior prejuízo é representado pela confirmação da imagem do Brasil que padece do complexo de vira-lata de autoria do imortal Nelson Rodrigues. O orgulho brasileiro, a ideia de uma nação séria e de importância internacional se resume a subscritora de decisões do presidente americano, que já demonstrou total indiferença, como foi na questão do ingresso brasileiro na OCDE.

A imagem de grande líder nacional é inviabilizada e consolida o complexo de vira-lata, que alcança todas as camadas nacionais. Nas palavras de Nelson Rodrigues:

“Por ´complexo de vira-lata´ entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo.

“O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.”

Com isso, ostenta o presidente o desconhecimento dos processos de formação do imaginário para formação política, como se enuncia nas obras essenciais de Ernest Cassirer, Gustav Le Bon, Elias Canetti e principalmente destacado na obra de Leo Strauss, em Reflexões sobre Maquiavel.

A construção mitológica do líder nacional é baseada na capacidade de conquista, sendo o inverso a concessão da importância e força nacional. Trata-se do maior pressuposto do projeto proposto pela ala intelectual governista que cada dia mais se sente frustrada.  

O rumo tomado pelos governos tem dificultado sobremaneira seus apoiadores, que veem a ideia do anti-establishment, combate à corrupção, combate ao patrimonialismo e agora ideia de fortalecimento nacional, derreter.

Agora, resta apenas a exaltação de resultados econômicos, infraestrutura e segurança dirigidos por pessoas gabaritadas, que se destacam em importância e capacidade em relação ao próprio presidente.

Mesmo assim, ao invés de tratar de agir para se fortalecer nesses discursos, tem implodido as bases de apoio, mediante ataques e perseguições, feitas por sujeitos de capacidade inferior, a qualquer forma de crítica e denúncia desses equívocos, resultando em uma minoria submissa.

A reversão da ideia negativa de soberania nacional e importância internacional é complexa e difícil, exigindo atuações mais estratégicas e técnicas, que não se vislumbra no horizonte presente.

A atuação do brasil serviria como um bom enredo ao melhor estilo da comédia “O rato que ruge” de Peter Sellers.


[1] http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/21184-acontecimentos-no-iraque-e-luta-contra-o-terrorismo