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Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
COMO UM GRUPO DE DESAJUSTADOS DERRUBOU A PRESIDENTE. MBL: a origem.

Um empresário falido, um nerd, um funkeiro maluco, um memeiro, dois amantes de cinema, um coxinha, um viado e uma presidente.

26/11/2019 08h33

BELO HORIZONTE– Políticos têm narrativas para tudo. As nossas crises econômicas, por exemplo, são causadas pelos banqueiros malvados e pelas políticas entreguistas, em um Estado claramente microscópico como o brasileiro. Nossa burocracia surge assim, tão extensa e complexa, porque o trabalhador exige grandes proteções e garantias. O que não combina com desemprego, não é mesmo?! A operação que investiga corrupção é também corrupta e parcial. Esta só prende aqueles que se importam com os pobres, o que levou o país a falência. E claro, impeachment é golpe.

Tudo aconteceu ao longo de 2015 e 2016, até a queda de Dilma Rousseff e do PT. Partido surgido há 39 anos, que passou a governar o Brasil a partir de 2002, 17 anos atrás, com a eleição de Lula, a primeira de 4. Após 14 anos, a hegemonia petista se encerrou com o impeachment de Dilma. E é esse o assunto abordado pelo livro “Como Um Grupo De Desajustados Derrubou A Presidente” (Editora Record), recém-lançado no V Congresso Nacional do MBL, movimento que ditou o processo e continua a nortear o debate político.

A obra é uma tentativa de explicar os bastidores do processo de impeachment e o impacto deste no futuro do país, assim como narrar o exercício de engajamento da população na política. Tudo isso contado por dois atores que foram essenciais para o processo, o que soa bastante revelador. Os autores, Kim Kataguiri e Renan Santos, utilizam-se de amarrações inteligentes, dramáticas e bem-humoradas, sempre do ponto de vista de quem esteve ativo durante todo o processo, para aprofundar e relatar informações que fazem do livro uma fonte histórica única.

Antes do processo de impeachment, o brasileiro médio não era muito afeito à política. Na verdade, falar de política era um tabu. Mas, há 4 anos, começamos a despertar o nosso lado político. Além disso, começamos a criar formas próprias de fazê-la e propaga-la (para o MBL, os memes e atos simbólicos). Isso permitiu que o grupo organizasse enormes manifestações (as maiores do país) e passasse a nortear o debate político, o que foi um dos motivos para que prevalecessem os ideais dos desajustados.

O impeachment nos levou ao governo Temer. No último ano, ao governo Bolsonaro, o primeiro governo genuinamente de direita desde a redemocratização. E “MBL: a origem” trata justamente da formação da direita. O livro mostra como esta sempre foi um organismo vivo, com diversas ramificações, visões distintas do cenário político, diferentes reivindicações e modus operandi. Ademais, ressalta como a população optou pela vertente democrática da direita, o modo com que escolheram as instituições como via de mudanças. A obra fura a bolha revolucionária do Twitter. Desse modo, fica claro que o brasileiro compartilha do sentimento político conservador exposto por Kim e Renan.

No que diz respeito a material histórico, o exemplar presta serviço positivo para dois “arcos” temporais: curto e longo prazo. Curto, pois reaquece o sentimento democrático da população, além da lembrança de como as instituições funcionam, de como a política é necessária e dá resultados. Longo, pois deixa um registro detalhado e fidedigno de um processo histórico do nosso país. Um marco no mar de narrativas políticas, artísticas e culturais dominado pela esquerda.

Os personagens são construídos e retratados da forma mais humana possível: a trágica. A vida de Renan, uma vida de merda e sem propósito, vai de desventura em desventura, de empresa falida em empresa falida. Kim tem uma vida pacata, sem grandes emoções. Na verdade, a vida do japonês antes da política é típica de um jovem viciado em games: o ápice do dia é quando o jogo trava. Resumindo: os personagens geram empatia no leitor. Afinal, possuem problemas como todos nós, e mesmo sendo pessoas normais, fizeram algo grandioso.

 A linguagem do livro é fácil e a leitura flui. Contudo, vale ressaltar a insistência na expressão sui generis. Na mente do autor, Renan, a expressão reflete o que é o MBL e as conquistas desse grupo. A locução é a definição do processo, do modo e do ator. Os estilos de escrita casam muito bem. Enquanto Kataguiri escreve de forma fria e metódica, do tipo: “a+b=c”, Renan escreve de forma emocional. Sendo justo, Renan escreve tentando explicar porque “c = a+b”. Ou seja, leva em conta diversos fatores.

Se políticos têm narrativas para tudo, o grupo de desajustados tem uma estratégia para tudo. Normalmente com aparência dos anos 80 ou retirada de um videogame, mas é uma estratégia. Se é boa ou não, cabe ao livro revelar. Gostando ou não do MBL, devemos reconhecer: a obra é um marco político, cultural e histórico. As narrativas da esquerda agora encontram um contraponto.

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