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Professor de filosofia, jornalista e diretor do movimento Neoiluminismo. Entusiasta da filosofia, [geo]política, economia e literatura.
Como acabar com a credibilidade da imprensa?

Um sinal de alerta repetido arbitrariamente não irá alertar em pouco tempo

16/08/2019 15h18

Todo mundo já leu ou ouviu alguma vez na vida a fábula do “Pastor mentiroso e o Lobo”. Nela, os Irmãos Grimm contam a história de um jovem pastor que levava suas ovelhas para pastar na serra. Certa vez, ele desceu até sua aldeia e começou a gritar: “Lobo! Lobo”.

Os moradores correram para socorrê-lo, mas descobriram que foram enganados pelo pastor. Ficaram muito descontentes com isso, mas o rapaz repetiu várias vezes a mentira, até que um dia apareceu, de fato, um lobo e atacou suas ovelhas, sem nenhum morador acreditar no seu pedido de socorro.

O importante desta história para este texto não é o fim a que levou o jovem pastor, mas algo que permeia toda história: credibilidade. Toda sociedade opera suas relações básicas fundamentando-se em confiabilidade, credibilidade. Isso pode ser visto em todas as instâncias sociais.

Por exemplo, o crédito é uma forma de relação social que é essencialmente baseada na confiabilidade. Ter crédito significa que os indivíduos e instituições que lhe dão crédito têm confiabilidade em você. Qualquer negócio que precise fazer no mercado exigirá o mínimo de credibilidade.

Para não desviar o foco, este texto visa tratar da credibilidade das informações. A informação sempre foi de grande importância para cada indivíduo de uma sociedade. O desenvolvimento humano está significativamente atrelado com a diminuição progressiva dos custos da informação.

Ou seja, quanto menor o custo de informações em uma sociedade, maior é a capacidade de seus membros traçarem suas rotas e se desenvolverem.

Os custos da informação diminuíram muito após o século XV, quando Johann Gutenberg inventou a máquina de impressão tipográfica, o qual chamou de imprensa. O nome ainda é utilizado para veículos que distribuem informações pela sociedade.

Não se pode negar que ter o controle da informação significa ter o controle do poder. Aos mais maquiavélicos, é importante que o governante tenha certo controle sobre a informação.

Quando o governante pode oferecer novos veículos para transmitir informações, ele precisa deslegitimar aqueles já existente. Como supracitado, a imprensa precisa perder sua credibilidade.

É notável que a façanha do jovem pastor de ovelha ocorreu algumas vezes no Brasil durante o mandato de Jair Messias Bolsonaro (PSL). Mas a façanha, neste caso, é bem mais inteligente e não tem a intenção de meramente se divertir. Tirar a credibilidade da imprensa é um ótimo caminho para quem deseja se perpetuar no poder.

No caso brasileiro, não é a origem da informação que perde a credibilidade, como o pastor de ovelhas, mas os veículos de disseminação.

É simples: se você lê em um jornal que o presidente da República falou X e algumas horas depois o próprio presidente desmente a informação, você tende a desconfiar daquele jornal.

Bom, isso ocorreu algumas vezes este ano e continua acontecendo. Anunciar uma demissão, aguardar a informação circular na imprensa e logo após desmentir. No final, a população irá entender que a imprensa é apenas uma fábrica de “fake news”.

Isso é muito bom para quem deseja estender seus tentáculos sobre o poder. Desejo este que não é nenhum segredo, escancarado na tentativa de indicar o próprio filho para embaixada dos EUA. O patrimonialismo é apenas mais um indicativo.

Tirar a credibilidade da imprensa e de qualquer outro veículo que apresente informações em desacordo com o governo é um tanto quanto perigoso. Um autoritarismo muito bem trabalhado, pois não condiciona o corpo da população, mas suas mentes.

Dizer que o pacote anticrime do ministro da Justiça Sérgio Moro ficará em segundo plano e, em menos de 24 horas, dizer que deseja que a Câmara vote o projeto. Declarar que irá privatizar os Correios enquanto o ministro Marcos Pontes diz o contrário… foram várias vezes que essa “façanha” foi utilizada.

Mas é claro, esta é apenas uma das táticas que podem ser utilizadas para deslegitimar a imprensa. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, mostrou que existe uma lista muito grande de táticas e estratégias para executar ataques aos veículos de informação.

O resultado? Orbán detem o controle de 90% da imprensa no país. Ficou no poder de 1998 a 2002 e retomou em 2010, estando até hoje como primeiro-ministro.

Fica, portanto, um alerta quanto a importância de haverem veículos de informação independentes, que podem oferecer informações necessárias para a compreensão do cenário político e econômico da sociedade.

Longe de defender que a imprensa é a detentora da informação e da verdade, pois ela também comete falhas, mas é necessária para a manutenção das instituições democráticas e do poder na sociedade.