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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Caso Celso Daniel: 17 anos sem respostas

Hoje (18) faz 17 anos do assassinato de Celso Daniel, ex-vereador e prefeito do Partido dos Trabalhadores

18/01/2019 10h40

Hoje (18) faz 17 anos do assassinato de Celso Daniel, ex-vereador e prefeito do Partido dos Trabalhadores – PT em Santo André, licenciado para coordenar a campanha presidencial do presidiário Lula.

O assassinato de Celso Daniel ainda não foi esclarecido, permanecendo diversas suspeitas de envolvimento de políticos e aliados que pertenceram à administração petista da prefeitura andreense, atualmente acusados e condenados por diversos crimes de corrupção e formação de organização criminosa. No ano anterior (2001) também foi assassinado o prefeito “Toninho do PT” (Antônio da Costa Santos) com suspeitas de crime político, após ameaças de morte por renegociar os contratos de fornecimento de merenda escolar e promessas de combate ao crime organizado.

Na noite de 18 de janeiro de 2002, após reunião no restaurante “Rubaiaty” entre Celso Daniel e Sergio Gomes da Silva (conhecido como “sombra”), o carro onde se encontrava o prefeito fora cercado por criminosos que estavam em três carros no bairro do Sacomã, sendo alvejado nos pneus e vidros e, embora o carro fosse blindado, os criminosos lograram extrai-lo do veículo. Sergio Gomes da Silva, que conduzia o carro, alegou que as travas e o câmbio do veículo “Mitsubishi Pajero” não funcionaram, mas os bandidos sequestraram apenas o prefeito, saindo ileso. A perícia do veículo concluiu que não houve falha mecânica.

Após dias de buscas, na manhã de domingo (20/01/2002) o corpo de Celso Daniel foi encontrado na Estrada da Cachoeira próxima da Rodovia Regis Bittencourt (BR-116 – 328 KM) com sinais de tortura e alvejado com 11 tiros.

A investigação da Polícia Civil – DHPP atribuiu a autoria do crime a uma quadrilha da Favela Pantanal em Diadema, que teria cometido o crime sem motivações políticas, com interesses apenas de obtenção de vantagem econômica.

Em uma estranha obra do acaso, empilharam-se cadáveres ligados ao caso. Sete pessoas, entre testemunhas e acusados. foram assassinados levantando suspeitas sobre o interesse em frustrar a apuração do crime. Foram assinados: Antônio Palácio de Oliveira (garçom que atendeu a mesa da reunião de Celso Daniel) em 02/2003 com documentos falsos. Sua família disse que teria recebido o valor de R$ 60 mil em sua conta bancária, desconhecendo a origem; Paulo Henrique Britto (testemunha do assassinato do garçom) morto a tiros 20 dias depois da morte do garçom; Iran Morais Redua (reconheceu o corpo do Prefeito e acionou a Polícia local) assassinado com 2 tiros em 12/2003; Carlos Delmonte Printes (legista responsável pela autópsia que atestou elementos que comprovaram que o prefeito foi torturado) morto em 10/2005; Otávio Mercier (investigador da Polícia Civil que consta no registro de ligações para o sequestrador Dionísio no dia anterior ao sequestro) assassinado em sua residência; Dionísio Aquino Severo (sequestrador e testemunha do caso), assassinado por criminosos rivais em 03/2002, apontado como a ligação com o empresário “Sérgio Sombra”. Dionísio foi extraído do presídio em Guarulhos no dia anterior ao sequestro; e Sérgio ´Orelha` (abrigou Dionísio em sua residência, onde foi encontrado), morto no presídio a facadas, após ser abandonado sem defesa de advogados constituídos (Oito cadáveres).

O menor que confessou a autoria dos disparos que vitimou o prefeito Celso Daniel sequer o reconheceu na fotografia exibida pelo Promotor de Justiça responsável, sendo mais uma suspeita sobre as conclusões das investigações.

A promotoria acusou Sérgio Gomes da Silva, o “sombra” de ser o responsável pela execução do sequestro. Ele permaneceu preso entre 12/2003 a 07/2004, solto por decisão em Habeas Corpus do Supremo Tribunal Federal – STF. Os seis criminosos contratados foram condenados após julgamento em júri popular. “Sombra” foi o único que não foi submetido ao julgamento por júri popular. No entanto, o ex-ministro do STF Nelson Jobim (ministro da defesa no governo do presidiário Lula) decidiu anular o processo por cerceamento de defesa, em razão da impossibilidade de questionamento dos réus pelos advogados, retornando o processo à fase inicial de colheita de provas. Ele faleceu em 09/2016, em decorrência do câncer que o acometia.

Além das mortes e inconsistências na investigação que levantam diversas suspeitas sobre os motivos e autoria, a tese de crime político nunca deu descanso ao Partido dos Trabalhadores.

Isto porque, havia denúncias de existência de um esquema de propinas (sistema de transporte municipal e outros serviços) que teriam abastecido o Partido dos Trabalhadores na prefeitura de Santo André que, segundo suspeitas, beneficiava os donos de empresas que prestavam serviços à municipalidade e o PT, sendo o modelo em que se baseou os escândalos de corrupção envolvendo o partido nos casos “Mensalão” e “Petrolão”. A insatisfação de Celso Daniel era que políticos do partido estavam utilizando o esquema em benefício próprio “Caixa 3”, como esclarecido por Silvio Navarro em seu livro sobre o caso.

Segundo o irmão de Celso Daniel (João Francisco Daniel), o assassinato do prefeito (a época responsável pela coordenação da candidatura à presidência do presidiário Luís Inácio Lula da Silva) foi uma queima de arquivo, pois o político demonstrava discordância com a prática dos crimes de corrupção e ameaçava revela-lo (João Francisco Daniel). O irmão Bruno Daniel relatou que na missa de sétimo dia Gilberto Carvalho teria confessado a esquema e entrega de R$ 1,2 milhão a José Dirceu, que era presidente do partido na época (Bruno Daniel).

 A senadora eleita Mara Gabrilli fez um relato sobre o esquema de corrupção, que teria afetado sua família que era proprietária de empresa de transportes no período (Denúncia Mara Gabrilli).

O PT foi condenado por improbidade administrativa pela Vara da Fazenda Pública de Santo André, que concluiu pela existência do esquema de propina no sistema de transporte comandado pelo partido. Também foi condenado Gilberto Carvalho (seminarista) chefe da casa civil do governo do presidiário Lula.

Segundo o jornalista Silvio Navarro, autor do livro “Celso Daniel: Política, corrupção e morte no coração do PT” (Editoria Record), o esquema foi o embrião dos dois maiores casos de corrupção da história da humanidade. O autor considera que o político tinha pouco estima entre seus pares no partido, que tinham obsessão em relação ao caso, conforme escutas telefônicas, eliminadas por ordem do Juiz Rocha Mattos, preso pela Operação Anaconda e aposentado compulsoriamente.  A cortina de fumaça formada impediu a progressão da apuração que poderia ter abortado o projeto de poder por meio da corrupção.

O caso reacendeu após o mensaleiro Marcos Valério decidir revelar em delação (edição 2294, ano 45, n. 45, 07/11/2012) que o condenado Ronan Maria Pinto teria chantageado a cúpula do PT, inclusive o condenado Lula, cujo silêncio teria sido pago por meio de valores obtidos ilicitamente no esquema “Petrolão” pagos por José Carlos Bumlai, obtidos com o Banco Schahin (operador no esquema da Sonda Vitória 10000), cujo recurso foi utilizado na compra do jornal regional Diário do Grande ABC, com mudança, inclusive, na linha editorial no tratamento sobre os fatos.

Novamente, em 25/12/2018, foi preso Klinger de Souza, ex-vereador e ex-secretário na gestão petista [1997/2002] de Celso Daniel na prefeitura de Santo André, sendo capturado pela polícia após abordagem quando caminhava na Avenida Portugal em Santo André. Klinger estava foragido desde 07/2017, quando fora decretada a ordem de prisão pelo Tribunal de Justiça de São Paulo na ação de improbidade juntamente com a direção do PT, juntamente com Ronan Maria Pinto, que está preso há um ano.

Apesar de ser uma figura da cúpula do Partido dos Trabalhadores – PT com perspectiva de assumir a Casa Civil e possível sucessor de Lula, não houve grande pressão de grupos de esquerda para apuração da autoria do crime, contrastando muito com a posição no caso do assassinato de Marielle Franco.

O assassinato é o caso mais sombrio envolvendo a política regional e a história do PT e aguarda solução.