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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Carta aos amigos do mercado financeiro

A celeuma encontra-se no turbilhão de emoções que envolve o governo Bolsonaro

22/04/2019 13h54

Acompanho com certo espanto alguns debates travados em grupos de WhatsApp dos quais participo. Em especial, procuro entender as dúvidas de amigos do mercado financeiro — que entre mesas de operação e passeios de patinete encontram tempo para debater os rumos do país conosco. 

A celeuma encontra-se no turbilhão de emoções que envolve o governo Bolsonaro. Presumia-se, com certa lógica, que a escalação de Paulo Guedes como “superministro” da Economia resolveria as gritas por reformas, privatizações e enfrentamento de gargalos históricos; era a aposta mais lógica, imaginando-se que Bolsonaro, por seu turno, solucionaria a impopularidade das matérias através de seu carisma populista e da legitimidade conferida pelas urnas.

As expectativas foram convertidas em pontos no iBovespa; ao final de 2018 chegou-se a comentar que o governo Temer — em acordo com a nova gestão — poderia levar à frente uma versão preliminar da reforma, no formato de PL. Era grande a empolgação — a ponto de ignorar-se o discurso triunfalista e incendiário dos primeiros filhos acerca da “Velha Política” twitter afora. Ministros eram anunciados à margem dos quinhões partidários no Congresso, e quase ninguém questionava a funcionalidade do modelo adotado.

Permaneci curioso, à época. Lembro-me de que, em idos de 2017 e 2018, as previsões de Luciano Dias eram dadas como “lei” nos prédios da Faria Lima; havia até — quem se lembra? —  uma fórmula que mesclava partidos contemplados com ministérios e votos para a previdência —  muito antes de Joesley aparecer — que permitia ao analista cravar, laconicamente, que a reforma era questão de tempo. Não foi.

Luciano errava, mas era ouvido como se pitonisa fosse. Articulação (e cargos) contam!, dizia ele. Era uma meia verdade. São tempos de dissolução da política, de redes sociais e lava jato. Tudo tem de ser pesado, e uma construção de cenário mais delicada deve ser formulada. Ainda assim — e essa era a razão de minha curiosidade — boa parte de suas premissas estavam corretas. Não soava crível que fossem abandonadas por analistas e operadores, assim, do nada!, enquanto montava-se um ministeriado eclético que ia de Moro a Damares como se tudo estivesse na maior normalidade.

Nunca esteve.

Já abordamos neste blog, em alguns artigos sobre a composição deste mandato ( 1, 2 e 3 — vale a leitura!), as contradições inerentes a um governo em disputa, povoado por liberais pragmáticos, lavajatistas ambiciosos, militares burocráticos e ideólogos de uma nova era, responsáveis também pela eleição do presidente. Imaginava-se que liberais e militares iriam prevalecer — chegando a um acordo sobre os privilégios da caserna — e dar o tom de um governo reformista e dedicado ao combate à violência nos grandes centros urbanos. Era essa, aliás, a razão de ser do personagem eleitoral, não? O Mito implacável com bandidos! Como fomos parar no Golden Shower?

A turma esquecia-se de alguns detalhes. O “mito” consagrado pelas redes é uma ficção; Bolsonaro sempre foi um parlamentar do baixo clero, mais preocupado com sua gestão de gabinetes do que em pautar um debate, digamos, “conservador” na Câmara dos Deputados. Nunca articulou uma frente, nunca exerceu papel preponderante na oposição ao petismo. Como demonstra essa pesquisa da Folha de São Paulo , votou com o governo — especialmente em pautas econômicas — durante maior parte do governo Lula. Seu coração batia pelo nióbio, pelo grafeno, pelos discursos nacionalistas de Enéas Carneiro e aposentadorias privilegiadas de seus colegas militares. Era figura folclórica e irrelevante do debate público.

A carreira de Jair mudou, porém, após Dilma Rousseff tomar posse como “presidenta”. Tornou-se conhecido através das idas ao CQC e SuperPop, além de encabeçar o panteão de memes de uma subcultura de direita sarcástica que fermentava nas redes sociais nos primeiros anos da década atual. Entre 2011 e 2013, o deputado carioca ganhou tração junto a jovens que começavam a questionar o politicamente correto cada vez mais sufocante — impulsionado, em especial, pela agenda de direitos humanos do governo federal —, o que redundou nas primeiras disputas polarizadas em redes sociais. Foi nessa época que Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano tornaram-se efetivamente conhecidos para o grande público.

Seus filhos souberam compreender o fenômeno e quiseram aproveitar-se da popularidade angariada. O principal divulgador de Jair nas redes, o jovem cearense José Matheus Salles, foi cooptado por Carlos Bolsonaro para seu gabinete; de lá, articulou nos anos seguintes a rede de páginas e perfis — reais e robóticos — que determinou a eleição do patriarca campineiro à presidência da república. Foram anos de trabalho conjunto, surfando na onda das rebeliões contra o governo Dilma e seu impeachment — do qual Bolsonaro não participou, diga-se de passagem — para firmar Jair como a representação máxima do homem comum contra o “sistema” (seja lá o que isso signifique).

A partir de 2017, o projeto ganhou robustez com a chegada de Gustavo Bebbiano e a turma de Olavo de Carvalho. O primeiro começou a estruturar sua candidatura, em termos políticos e empresariais, para ganhar massa crítica eleitoral; o segundo, agregando ao discurso nacionalista e confuso de Jair os contornos messiânicos que vimos na campanha e nesse início de governo. E esse fato deve ser encarado com especial importância, posto que Jair e seus filhos passaram a acreditar — e assim tornaram-se instrumentos — de uma visão de mundo e um projeto meta-político gestado pelo filósofo da Virgínia e propagado por seus alunos mais próximos.

Em resumo, Olavo quer a destruição do tal “estamento burocrático”, nome dado ao establishment por Raymundo Faoro em seu “Os Donos do Poder”. Composto de forças políticas e burocráticas incrustadas nas instâncias de representação, máquina pública, imprensa, judiciário e empresariado, o tal estamento é responsável direto pelas mazelas do Estado brasileiro, por seu patrimonialismo arraigado e nosso atraso inequívoco. Nas últimas décadas, aliou-se com o projeto de poder esquerdista — que jurava destruí-lo — numa simbiose mortal que levou o país ao colapso. Some-se a isso a interferência de forças internacionais representadas por blocos geopolíticos como o “russo-chinês” e os “globalistas” — além da destruição da cultura nacional mediante o trabalho deliberado de agentes do marxismo cultural —  e voilá!: está dada a missão histórica da Nova Era.

Houve um casamento entre Olavo e Bolsonaro; o primeiro converteu-se na autoridade espiritual da relação — o brâmane, intelectual, formulador — enquanto o segundo perfaz o “poder temporal”, na forma do militar e líder político. Guedes, parafraseando Jair ao longo da campanha, é apenas uma amante temporária; a relação duradoura, mesmo, é com o dito “olavismo”. Juntos venceram as eleições, e juntos governarão. Acreditaram — Bolsonaro e seus filhos, Olavo e seus alunos — ter enfrentado todo um sistema corrupto durante o pleito; acreditam ter contado com a providência divina para tanto. E agora, unidos, pretendem derrubar o estamento burocrático e implementar (ou restaurar, conforme o interlocutor) uma cultura superior num país em frangalhos.

É, portanto, compreensível que se enxerguem numa cruzada; que encontrem aliados de ocasião (agro, evangélicos, empresariado), tratados de forma secundária, enquanto imploram por alianças verdadeiras mundo afora. Isso explica, aliás, o privilégio que é dado às relações com os Estados Unidos e Israel — inimigos de “globalistas” e do esquema “russo-chinês”— nos três primeiros meses de gestão. Não sem custos: os aliados de ocasião — tirando o empresariado, sempre lento em suas análises — já estão insatisfeitos. A dinâmica da aventura em Jerusalém conseguiu desagradar ruralistas e evangélicos, num verdadeiro Grand Slam de trapalhadas. Tende a piorar.

Afirmo isso pois o núcleo que envolve família e Olavismo leva a melhor em todas as disputas. Tendo Onyx Lorenzoni como braço político na Casa Civil, o grupo derrotou Guedes na queda de braço silenciosa travada pela presidência do Senado. Eles queriam Alcolumbre, enquanto Guedes preferia um nome do “jogo”, que facilitasse a aprovação da reforma. Deu a primeira opção. Meses depois, encaramos a crise do preço do Diesel. Tratando caminhoneiros como amigos íntimos, o governo tomou suas dores. E tome-lhe debacle com Guedes, que reverteu o congelamento dos preços ao passo que cedeu pela concessão de crédito aos revolucionários da boléia. 

Contra Moro, travaram embates na questão do desarmamento e no veto à Ilona Szabó. A despeito de alguns recuos no primeiro tema, saíram vencedores na contenda. No segundo, foi barba, cabelo e bigode. Moro, pela primeira vez, encarou a ira de seus próprios admiradores em redes sociais.

Tweets de Carluxo? Geram desconforto no Congresso e nos militares; Jair porém, não apenas defende, como reforça a ação política do filho. “Foi ele quem me colocou aqui”, disse em entrevista. E não teria como fazer diferente. Pai e filho(s) trabalham em simbiose. Não haverá um “puxão de orelha”, como tantos imaginam — no máximo um aceno de falso desconforto quando uma “mitada” nas redes passar do ponto. E olhe lá. 

Nada disso se compara, porém, à permissividade com a qual Jair lida com os ataques de Olavo de Carvalho à ala militar. Entenda-se: ele não é um velho louco! Tudo ali tem método. O filósofo busca neutralizar Mourão enquanto “traidor” e “vendido”, num cenário onde o vice destaca-se por sua ponderação; Santos Cruz e Heleno já foram devidamente emparedados, e permanecem atônitos diante da massa de boçais que vituperam contra eles após o call to action do ideólogo da Virgínia. 

Os milicos perderam feio nas disputas por posições no Ministério da Educação; mesmo após a queda de Vélez Rodriguez, o núcleo Bolsolavista emplacou outro nome de sua predileção. E não para por aí: na esteira do afastamento do colombiano, outra queda de braço foi travada em tempo recorde, desta vez entre o “Chanceler” — leia-se despachante olavista — Ernesto Araújo, e o presidente da Apex, o embaixador Mario Vilalva. O diplomata reclamava da ingerência da ex-namorada de Eduardo Bolsonaro, a militante Leticia Catelani (salário de R$ 43 mil), nas decisões estratégicas da Agência. O resultado? Foi demitido no mesmo dia.

É importante que esse padrão fique claro para o amigo que lê esse texto. Ignorar a proeminência do grupo ideológico perante os demais setores é exercício de inocência ou falta de tutano. A “turma dos malucos” — se assim podemos chamar — é a turma que comanda o Planalto. E seus movimentos devem ser compreendidos e levados a sério, sob o risco de incorrermos na infantilidade das análises “pragmáticas” que deram de ombros para o autoritarismo ideológico do petismo de outrora. Lições estão aí pra serem aprendidas, certo?

Chegamos, então, à questão da governabilidade e a capacidade reformista do novo governo. A recente derrota de quarta-feira (17/4) diz mais sobre o governo do que qualquer uma de suas conquistas. Não havia, note-se, qualquer estratégia sendo traçada entre o planalto e as lideranças pró-reforma — que eram maioria, lembremos — ali na CCJ. Sendo claro, não havia sequer articulação entre planalto e os líderes do governo e do PSL. Desbaratados, Major Vitor Hugo e Delegado Valdir cediam à oposição com a fluência de um macaco no laboratório. Sinal nenhum de Onyx, do presidente ou demais lideranças. A ausência de vontade política era gritante.

Nas redes sociais, onde impera o voluntarismo, as gritas das hostes patrióticas eram por uma intervenção militar no STF. Foi com a tag #Art142Já que a militância, a qual supostamente derrotaria o centrão na base da pressão, gastou seu arsenal na terça-feira. Uma análise superficial demonstra que o confronto com o Supremo cativou mais os seguidores do presidente que qualquer luta por maioria na CCJ — algo fácil de obter, diga-se de passagem. Nos resta a pergunta: se nem militância, nem governo — institucionalmente— se esforçam pela reforma, por que cargas d’água ainda achamos que a mesma é prioridade? Ou melhor: quais são as reais prioridades desse governo?

É impossível estabelecer uma resposta, digamos, “material” para essa questão. Um governo que se pretende “campanha permanente”, como observou Andreazza em artigo recente, apega-se mais ao modo como se constrói do que aos resultados apresentados. Se o que interessa é a manutenção do discurso de campanha, irá portanto qualificar-se perante a militância como “moralmente superior” aos seus adversários diretos (o dito estamento burocrático); não fará composições nem irá ceder naquilo que lhe confere poder e legitimidade. Esqueçam, nesse sentido, não apenas as articulações pouco republicanas: qualquer parceria que soe inconveniente ou incoerente perante a militância será abortada.

Seu capital político reside numa expectativa de transformação quase mágica a partir da chegada do capitão ao poder. É um capital restrito, posto que dialoga apenas com setores do eleitorado. Ainda assim, interessa ao grupo ideológico a manutenção do controle sobre tal setor. Ele é mais do que suficiente para dominar o debate público em tempos de redes sociais e mobilizações em ruas e avenidas. Estamos falando do controle sobre a classe média, algo que a esquerda lulista jamais teve. É o povo que saiu às ruas contra o PT, instrumentalizado, agora, numa causa diferente. Ao menos em expectativa. Não sabemos se o bolsonarismo tem esse reggae todo pra colocar o povo nas ruas em nome de sua cruzada.

Nesse sentido, a parceria com a turma da Lava Jato —expressa no ministério de Sérgio Moro — é sinal importante da disposição desse grupo ao conflito. O conflito deflagrado com setores do STF e do establishment — Maia que o diga — é acompanhado de ameaças de blogs e formadores de opinião governistas tendo a lava jato como instrumento de guerra. Não é uma briga qualquer. Envolve as principais instituições da república e não apresenta a menor perspectiva de uma solução negociada. Em bom português: pode dar merda. 

Das feias.

É importante que esse pano de fundo seja compreendido, pois sem solução negociada entre as partes, o país parte para o caos e anomia. E esqueçam reformas; estamos falando aqui da própria manutenção do estado democrático de direito. A fornalha de insensatez que vai da prisão ilegal de Temer até as investigações de Alexandre de Moraes está sendo alimentada por perfis de twitter e militantes ligados ao governo. Há uma grande batalha pelo caminho, e ela não é a previdência. Os sinos não dobram pelo trilhão do Guedes, mas sim pela ascensão de um grupo autocrático com tendências messiânicas em detrimento da sobrevida das velhas lideranças políticas de outrora. É uma guerra sem heróis, onde se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Não existem boas notícias pelo caminho. Os 5 anos de crise política encaminham-se para um Grand Finale de fazer inveja aos roteiristas de Game of Thrones. Pode ser o fim de um ciclo. E os exércitos enfileirados, aparentemente, não estão lutando a sua guerra.

Brace yourselves,

Winter is coming!