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Líder nacional do Movimento Brasil Livre e vereador na cidade de São Paulo.
Bruzundanga: o Interceptor soltou o Bandido?!

O Interceptor pode soltar o ex-presidente

11/06/2019 22h48

O leitor talvez já tenha se deparado com uma obra da primeira metade do século XX (1922) de Lima Barreto chamada “Os Bruzundangas”. A obra é interessantíssima e trata de uma civilização muito longínqua, mas que guarda vastas semelhanças com o Brasil. Aliás, se você me permite dizer, eu diria, que a obra do autor ainda poderia ser confundida, em muitos aspectos, com a realidade brasileira. E é sobre Bruzundanga que quero falar [aliás, escrever], pois recebi notícias atualizadas daquele país tão distante do nosso. Se as notícias são verdadeiras? Sinceramente, lhe confesso, amado leitor, que não sou capaz de aferir com certeza. Isso porque as notícias em Bruzundanga ultimamente precisam passar por alguns crivos de grupos selecionados para definir o que é verdade e o que, nas palavras deles, seria “Fake News”. Contudo, considerando o nível de calamidade da história que me foi passada, arrisco dizer [sem muita convicção, confesso] que tudo pode ser obra da imaginação de algum bruzundanguense qualquer.

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“Os Bruzundangas”, escrito por Lima Barreto, foi publicado em 1922, durante a República Velha, com fortes críticas aos intelectuais e ao sistema político da época.

“Mas, afinal, que diabos de história é essa?”, já deve estar se perguntando o leitor mais ansioso. Bom, tudo começou quando um ex-presidente da República de Bruzundanga foi preso após condenação pela justiça baseada em diversas provas de que o fulano teria se beneficiado [e, pasmem: teria sido comandante!] do maior esquema de desvio de dinheiro público daquele país. Molusco, era o nome do infeliz. O caso conhecido como “O Povo contra Molusco” contou com diversas provas que continham planilhas, depoimentos, e-mails, recibos, fotos, gravações telefônicas e tudo que se deve ter para colocar um bandido na cadeia. Porém [sempre tem um ‘porém’], Molusco e o seu Partido dos Moucos, fizeram de tudo para que ele fosse libertado. Nada adiantou. Seu apoio popular se esvaiu e as provas eram extremamente robustas. Nem mesmo a cartada de enganar os pobres funcionava, a maioria já tinha percebido o assalto contra seus humildes salários. Mas Molusco, tempos depois, contaria com o apoio de um “Interceptor”, esse é o nome que os bruzundanguenses dão para os chamados “hackers” que invadem sistemas de informática pelo mundo para cometer os mais diferentes crimes virtuais.

O Interceptor, cujo nome é protegido por lei em Bruzundanga [exatamente, a lei bruzundanguense protege esse tipo de crime. Mas somente em alguns casos], é um antigo admirador de Molusco e, certamente, deve ter ficado revoltado com a sua prisão e com as injustiças que poderia estar sofrendo em sua cela privativa numa fria, porém pacata, cidade do país. Sendo assim, o Interceptor tomou medidas drásticas: resolveu invadir os celulares do julgador e dos acusadores que levaram seu herói à cadeia. Um triste fim. Não havia nada de mais nas conversas, somente o óbvio: um juiz atendendo acusadores, assim como atendia defensores ou policiais. Entretanto, o Interceptor não era de desistir, se os fatos não lhe serviam, ele daria um jeito.

O Interceptor coletou trechos de conversas retiradas de contexto que pudessem deixar dúvidas sobre a imparcialidade do juiz e a intenção da acusação. Pegou essas conversas e colocou em um site. Alguns dizem que o site citado pertence ao próprio Interceptor, outros dizem que ele apenas conhecia os sujeitos. Fato é que deu certo. O conteúdo foi ao ar. O julgamento de molusco estava em xeque [e a credibilidade jornalistíca de Bruzundanga estava no cheque]. Mas, o maior ‘bafafa’ [sim, eu uso o termo ‘bafafa’] estava por vir: A lei de Bruzundanga aceita provas colhidas de forma ilícita desde que elas testemunhem em favor do réu. Com o circo montado, e de caso pensado [considerem isso apenas como um humilde palpite de quem escreve], o Interceptor havia montado um plano perfeito para libertar o Molusco.

“E o crime de invadir informações privadas?”, pergunta outro leitor mais atento. Bom, isso também estava resolvido. A defesa de Molusco teve acesso às informações por meio de um site qualquer, logo, eram públicas. “Mas e a forma que essas informações foram alcançadas?”, insiste o leitor atento e um ingênuo, devo dizer. Em Bruzundanga o sigilo da fonte “jornalística” é absolutamente inviolável e protegido por lei. O site não seria obrigado a dizer como conseguiu as informações, e nem o Interceptor seria obrigado a se revelar para proteger seu herói político. Era o plano perfeito. Contudo, faltava convencer o judiciário – e o público – de que o conteúdo das conversas entre o juiz e os acusadores realmente revelava aquilo que o Interceptor queria fazer crer. Essa tarefa seria mais difícil.

Agora, em Bruzundanga, juízes da Suprema Corte Bruzundanguense (SCB), se reúnem e tomam medidas para criar um ambiente de favorecimento ao seu velho amigo Molusco, que não puderam soltar até então por conta das fartas provas contra o sujeito. Os juízes da SCB são atentos e perspicazes, não dão ponto sem nó. Certamente estão esperando o desenrolar dessa coisa toda para saber se ainda existe mais conteúdo que possa beneficiar a tese do Interceptor. Se encontrarem uma brecha na opinião pública, agirão rapidamente sem dó ou piedade. Os juízes da SCB confiam em duas coisas: uma é a memória curta dos bruzundanguenses, e a outra é a confiança nas leis injustas de sua República. Esse último elemento eles já têm desde sempre.

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É… caro leitor, o negócio não anda fácil em Bruzundanga. Embora já tenha se passado quase um século desde que Lima Barreto escreveu sobre aquele curioso país, muitas das práticas mesquinhas – e no mínimo curiosas – ainda continuam naquela nação sorridente. O que acontecerá com o ex-presidente de Bruzundanga e com aqueles que descobriram suas tramoias? Isso eu ainda não sei responder, mas certamente, espero que todo esse texto se baseie em uma simples piada de mau gosto de algum bruzundanguense qualquer.