fbpx
Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Bolsonaro x Dallagnol: o presidente acerta na prudência

Deltan não precisa da PGR para cumprir seu papel. E Bolsonaro não precisa de mais uma frente de batalha

12/08/2019 19h26

Aqueles que acompanham meu trabalho sabem bem da minha postura crítica em relação ao Presidente da República. Bolsonaro tornou-se metralhadora de impropérios, e ultimamente mais atrapalha que ajuda quando abre a boca para opinar sobre certos temas.

Não é o caso, porém, nas recentes declarações — ainda atrapalhadas, a bem da verdade — sobre a “hipótese Dallagnol” para a PGR. O caso se deu no último domingo.

Uma campanha iniciada nas redes, liderada pelos amigos do Vem Pra Rua, pressiona os perfis oficiais de Jair Bolsonaro pela nomeação do procurador paranaense para o cargo máximo do Ministério Público.

Percebendo a pressão, o time de Jair não se fez de rogado. A página “Bolsonaro Opressor 2.0” — parte da rede de influência de Tercio Arnaud e José Matheus Salles — logo postou que Dallagnol vem a ser “um esquerdista do tipo PSOL“.

A postagem foi compartilhada pela pela página oficial do presidente, gerando burburinho nas redes. Para muitos — e com alguma razão — soou um ataque desnecessário. Ainda assim, diante da pressão que se avizinha, foi uma manobra inteligente. E aqui explico.

Existe uma ferida aberta na relação Lava Jato x Presidência da República. No campo dos fenômenos políticos, são dois colossos que se confrontam, sendo eles o “Lava-jatismo” — tendo em Moro seu prócere maior e em Dallagnol, em certa medida, o “número 2” — e o “Bolsonarismo”, personificado pelo presidente, seus filhos e asseclas.

O pano de fundo é a nomeação do novo Procurador Geral da República, que tem poderes para denunciar políticos com foro privilegiado e ministros do STF. Em tempos de República em chamas, é um cargo e tanto.

Além disso, como histórico recente, temos as rusgas de Bolsonaro com o ministro Sérgio Moro, a contenda pela demissão do atual presidente do COAF e um provável acordo entre o Presidente da República e Dias Toffoli, na até agora pouco explicada decisão que beneficiou Flávio Bolsonaro e outros tantos envolvidos na Lava Jato.

É bastante coisa, a ponto de termos percebido certas movimentações de “tropas on line” — seja Olavo de Carvalho criticando Sérgio Moro, seja o Vem Pra Rua pressionando Bolsonaro. Há um clima de guerra fria entre as partes.

Independentemente disso, porém, o presidente age com responsabilidade ao levantar objeções sobre Deltan. Sim, amigos, considero que não é adequada nomeação do líder da força tarefa da Lava Jato por termos, ainda, uma perspectiva muito estreita de sua visão de mundo sobre temas chaves que são impactados pelo trabalho da PGR.

Como pensa Deltan sobre licenciamento ambiental? Sobre a MP da liberdade econômica? Sobre a ação do Ministério Público do Trabalho, sobre temas ligados a direitos humanos e família? Nada sabemos, assim como pouca informação temos dos demais candidatos ao cargo.

Nenhum, porém, traz consigo a carga simbólica da Lava Jato como Deltan Dallagnol. E isso pesa. Torna a já conflituosa relação entre os poderes impossível; confunde eventuais temas irrazoáveis — e a PGR pode ser tremendamente irrazoável, vide Rodrigo Janot — com “luta contra a corrupção”; e, pior, faz da acusação instrumento de ação midiática.

E é aí que as objeções de Bolsonaro ganham fundamento: Deltan é grande demais para ser parado. Não havendo certeza sobre suas posições, é grande a chance de se tornar um problema capital para o novo governo. Mais: de fato, as posições adotadas pela Força Tarefa durante o episódio Janot — externadas em grande medida pelo canhotíssimo Carlos Fernando — permitem sim a desconfiança sobre o viés progressista de Deltan.

“Quero um PGR que não apenas combata a corrupção, que entenda a situação do homem do campo, não fique com essa ojeriza ambiental, que não atrapalhe as obras que estão fazendo dificultando licenças ambientais, que preserve a família brasileira, que entenda que as leis têm que ser feitas para a maioria e não para as minorias. É isso que queremos”

— Jair Bolsonaro, sobre as características que demanda do novo PGR

Sua atuação política — levando em conta o material exposto pela Vaza Jato — sempre se deu no campo da centro esquerda. Normal. Não há nada de errado nisso. O presidente, porém, deve ter a prerrogativa de avaliar tal histórico no momento de sua escolha.

A luta contra a corrupção não perde tendo outro procurador que não Deltan — e não estamos falando de Augusto Aras aqui, um acinte. Mas a ideia da Lava Jato independente, funcional, a serviço do Brasil, perde e muito com sua politização. Deltan não precisa da PGR para cumprir seu papel. E Bolsonaro não precisa de mais uma frente de batalha — já basta aquelas causadas por suas declarações diárias.

São as dores inevitáveis de um processo político que chegou ao poder e que passa a viver suas contradições.

PGR