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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Bolsonaro na ONU: porrada na esquerda e afirmação ideológica

Após a nomeação de Ernesto Araújo, o Brasil abandona cada vez mais sua disposição discreta e pragmática no jogo diplomático para navegar pelos turbulentos mares da guerra geopolítica

24/09/2019 13h20

Conforme esperado, o discurso Jair Bolsonaro na abertura dos trabalhos na ONU dividiu opiniões. Seus detratores afirmaram que o presidente ‘diminuiu o país‘, ‘foi rancoroso‘ e ‘buscou o conflito‘. É a pegada dos tuítes de líderes da oposição à esquerda e de influenciadores não alinhados ao governo:

Do outro lado, a esfera de influência governista foi aos céus. Para alguns, ‘este foi o maior discurso proferido por um brasileiro na ONU‘, um ‘tapa na cara dos globalistas‘ e uma ‘afirmação do estado nação‘. Foi essa a tônica dos twitters bolsonaristas:

Da minha parte, compreendo o sentimento de petistas e bolsonaristas: os primeiros, diretamente atingidos pelo discurso presidencial, apenas reagem a um ataque aberto e explícito do mandatário; os segundos, encantados com o momento de afirmação, vibram com a conquista de um espaço relevante para espalhar suas ideias. Nada de novo por aqui.

O discurso do presidente foi profundamente ideológico. Redigido em conjunto com seu filho Eduardo, General Heleno e Filipe G Martins — espécie de representante de Olavo de Carvalho no planalto — , a peça tem por condão a reafirmação do perfil que constroem para o presidente e o alinhamento de Jair ao bloco nacional-populista idealizado por Steve Bannon.

É sintomático que Filipe tuíte de forma desafiadora aos ‘globalistas’: “Not today”, disse ele, em tom triunfante. A fala final do presidente, “A ONU não é a organização do interesse global, mas é a Organização das Nações Unidas. E assim deve permanecer“, é mensagem clara reafirmando o papel do estado nação em contraponto à organizações globais e campanhas transnacionais que o grupo alinhado a Bannon tanto combate.

É importante ilustrar tal ponto tendo em vista que existe, sim, uma campanha orquestrada convertendo o tema do aquecimento global em apocalipse anunciado. O discurso da histérica e teatral Greta Thunberg, na última segunda feira — incensado pela imprensa mundial como profecia macabra — é representação maior da manobra política.

O Brasil de Bolsonaro configura-se como vilão perfeito para o arranjo; Jair é o ‘monstro de extrema-direita‘ disposto a tacar fogo na Amazônia e nas girafas nos vaticínios escatológicos da menina sueca. E não fez questão alguma de escapar da armadilha global em torno do tema: suas falas buscaram o conflito e não soaram convincentes quando abordado o tema dos incêndios amazônicos.

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade, e um equívoco, como dizem os cientistas, dizer que a nossa Amazônia é o pulmão do mundo” foi a fala mais clara do presidente sobre o tema, atestando inequivocamente a soberania brasileira sobre parte considerável de seu território. Irretocável. Só considero insuficiente caso seu objetivo fosse dar fim à polêmica alimentada por europeus e pela imprensa no tema ambiental.

Bolsonaro poderia acenar — estrategicamente, repito — em busca de “ajuda” e “conciliação” ao invés de investir na discórdia diplomática. Veste, assim, a carapuça de vilão almejada por seus adversários políticos no tabuleiro internacional. Estes querem capitalizar sobre o Brasil para morder importante quinhão eleitoral; Jair quer polarizar com os mesmos para agradar o eleitorado e servir ao plano global de Bannon.

É do jogo. Conforme esperado após a nomeação de Ernesto Araújo, o Brasil abandona cada vez mais sua disposição discreta e pragmática no jogo diplomático para navegar pelos turbulentos mares da guerra geopolítica. Tudo muito legal, tudo muito bacana.

Só não nos esqueçamos de um porém: somos país pobre e dependente de exportações para os mesmos países que tratamos como “globalistas” ou integrantes do “bloco russo-chinês” . Imersos em crise econômica e política, não estamos no momento de escolher parceiros e construir cruzadas infrutíferas.

É hora de pagar as contas e atrair investidores, mensagem que passou desapercebida em meio ao ‘Deus Vult‘ na Assembléia Geral.