fbpx
Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
As Seis Lições, de Ludwig von Mises (review I)

NOTA DO EDITOR: Recentemente, no 4º Congresso Nacional do MBL, tive a oportunidade de dar breve palestra

28/11/2018 19h24

NOTA DO EDITOR:

Recentemente, no 4º Congresso Nacional do MBL, tive a oportunidade de dar breve palestra sobre a formação intelectual da militância. A certa altura da apresentação, salientei a importância de se criarem grupos de estudo em cada núcleo. Assim disse, assim fizemos. Segue aqui, portanto, o primeiro fruto prático do grupo de estudos do MBL Bahia, este texto de resenha sobre livro clássico de Ludwig von Mises, “As Seis Lições”. Tendo feito pouquíssimos reparos estilísticos, vocês têm em mãos o texto original da advogada Camila Soares, uma das integrantes de nosso grupo em Salvador. Espero que ele sirva, a um só tempo, ao duplo fim de explicar alguns pontos básicos dos dois primeiros capítulos e de estimular o aparecimento de iniciativas semelhantes à nossa em outras cidades. 

Fazendo uma breve análise do livro As Seis Lições, este trata de uma série de palestras ministrada pelo próprio Mises, em Buenos Aires, no final da década de 50, após a queda de Perón. Ele expôs de forma clara e direta suas ideias sobre temas como o capitalismo, o socialismo, o intervencionismo, a inflação, o investimento externo, e, por fim, sobre a relação entre política e ideias. Tudo isso resumido em seis capítulos que põem o pensamento de toda obra ligada diretamente à ideologia da Escola Austríaca.

O primeiro capítulo do livro vai abordar o tema capitalismo. Nele, Mises traz o entendimento de que o princípio fundamental é a produção voltada aos atendimentos das demandas do público consumidor. Conforme explica o autor, a origem do capitalismo está diretamente ligada à maneira de atender as necessidades de uma crescente população, através de meios de produção em massa. Salienta-se, ainda, que o aspecto motivador principal do capitalismo se dá pela livre-concorrência, proporcionando assim uma competição entre os homens empenhados a entregar cada vez mais produtos com melhores qualidades aos consumidores, com objetivo de auferir mais ganhos.
Mises trata da ideia de que não são os empregadores que “reinam” no capitalismo, mas sim os próprios consumidores, pois são eles que irão definir o quanto os empregadores irão ganhar. Logo, os principais indivíduos no capitalismo são os consumidores, aqueles que ditam o que querem e como querem.

Ainda no primeiro capítulo do livro, o autor tenta desmistificar o ódio ao sistema capitalista, dizendo que a difamação ao capitalismo tem origem na aristocracia fundiária. Os aristocratas começaram a sentir que estavam sendo privados da mão-de-obra barata por conta da forte migração dos camponeses para as industrias em busca de condições melhores. A classe alta não aceitava que os ditos camponeses pudessem ter uma expectativa de crescimento financeiro, diminuindo com isso as diferenças entre as classes sociais existentes.

Vale a pena destacar uma passagem do livro que mostra claramente o pensamento do autor com relação ao capitalismo:

“O fato é que, no sistema capitalista, os chefes, em última instância, são os consumidores. Não é o estado, é o povo que é soberano. Prova disto é o fato de que lhe assiste o direito de ser tolo. Este é o privilégio do soberano. Assiste-lhe o direito de cometer erros: ninguém o pode impedir de cometê-los, embora, obviamente, deva pagar por eles. Quando afirmamos que o consumidor é supremo ou soberano, não estamos afirmando que está livre de erros, que sempre sabe o que melhor lhe conviria… É essa a diferença entre escravidão e liberdade. O escravo é obrigado a fazer o que seu superior lhe ordena que faça, enquanto o cidadão livre — e é isso que significa liberdade — tem a possibilidade de escolher seu próprio modo de vida. Sem dúvida esse sistema capitalista pode ser — e é de fato — mal usado por alguns”.

No segundo capítulo, o tema abordado é o socialismo. O autor já começa este tópico esclarecendo a diferença entre o socialismo e a liberdade econômica. Importa-se ressaltar que ele faz uma breve análise sobre o sistema socialista da época, trazendo a problematização dos cálculos econômicos e o cerceamento de liberdade pelo governo.
Neste segundo capítulo, destaca-se que a impossibilidade de se realizar o cálculo econômico no sistema socialista vem do fato de os preços não serem fornecidos pelo mercado, mas sim pelos “líderes”, de modo que os grandes empresários não conseguem estimar uma meta de investimentos em um determinado bem. Tudo fica nebuloso a partir do momento que não são os empresários que fornecem os valores para o mercado, mas sim o soberano, que por vezes não possui conhecimento técnico sobre as diretrizes da economia mundial.

Por esse gancho, Mises pondera também, que ao suprimir o livre mercado e consequentemente a livre concorrência, limita-se a liberdade econômica de forma que todas as demais liberdades acabam sofrendo uma restrição, pois se cerceia a liberdade de escolha. No socialismo, as decisões ficam restritas a escolha do soberano que, por se achar no papel de líder, possuirá uma grande sabedoria para planejar e determinar o rumo de vida dos cidadãos.
Com isso, fIca claro que na ideologia social não há espaço para decisões individuais e dessa forma, não se é possível ver um progresso tecnológico e científico, pois estes são produtos da manifestação individual do pensamento, da autodeterminação e do empreendedorismo de cada pessoa.

Destaca-se neste capítulo do livro, um trecho que mostra claramente a visão do autor sobre o sistema socialista de limitações:

“Quem manda no sistema econômico são os consumidores. Se estes deixam de prestigiar um ramo de atividades, os empresários deste ramo são compelidos ou a abandonar sua eminente posição no sistema econômico, ou a ajustar suas ações aos desejos e às ordens dos consumidores”.

Por tudo exposto, percebe-se que na análise destes dois capítulos o autor traz explicações plausíveis para o entendimento e o fortalecimento da ideia de livre concorrência, livre mercado e das liberdades políticas. Ainda, tenta desconstruir a ideologia social, de que é possível apenas uma pessoa, soberana, decidir em todos os aspectos a vida de uma sociedade. Mostra claramente a diferença entre o socialismo e o capitalismo, devendo a este último a verdadeira diminuição das diferenças de classes.