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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
As mentiras sobre Gabriel Monteiro

A má-fé demonstrada serve para apontar limites: a partir de certo ponto, a democracia já não encontra mais jurisdição

22/09/2019 23h59

Pipocam pelas redes sociais pequenos excertos de uma confusão envolvendo o policial militar carioca Gabriel Monteiro, membro deste movimento, e Felipe, um rapaz que se apresentava como ativista da ‘Marcha das Favelas’, também morador do Rio de Janeiro.

Nos vídeos que circulam, Gabriel aparece encurralado contra um veículo pelo rapaz, reagindo com um empurrão e um soco em seu rosto. O trecho, cortado maldosamente, sugere que Gabriel agrediu Felipe gratuitamente, justificando uma onda de protestos de gente do quilate de um Jean Wyllys nas redes sociais:

Existe uma tentativa torpe de construir uma narrativa política; em especial, ao utilizar-se da malícia para, na descrição da postagem, dar a entender que Gabriel, um policial militar, foi até o velório de Ágatha para ‘agredir’ quem prestava solidariedade.

É um desenho narrativo abjeto: como a criança foi alvejada por um policial, tenta-se demonizar Gabriel — e a polícia militar — como entidade maléfica trabalhando permanentemente pela dor alheia.

Não quero adentrar aqui essa triste ‘disputa de narrativas’ sobre a morte da menina. Ela é trágica por si só. A politização de seu cadáver — coisa de gente acostumada a fazê-lo, vide enterro de Marisa Letícia e Marielle Franco — é mais um capítulo perverso de nossa recente história política.

Também acho que Gabriel não deveria abordar esse tema, posto que o que nos resta aqui é apenas dor e tragédia. A política não cabe nestes casos. Mas isto — nem de longe! — deve ser usado como escusa para não fazer a defesa do jovem PM no caso em questão.

Trago aqui, portanto, 4 pontos que devem ser clarificados em sua defesa, refutando as mentiras que estão sendo construídas sobre o rapaz:

(1) Gabriel não estava no velório

A primeira das mentiras propaladas pelos sites de notícias falsas que abordam o caso é a de que Gabriel foi ao velório abordar os que estavam ali presentes sobre a morte de Agatha. Em momento algum Gabriel faz isso.

Entrei em contato com o policial e ele me relatou que pretendia, sim, conversar com moradores do bairro de Ágatha sobre o ocorrido, a convite de um colega da UERF — que é, inclusive, de esquerda. Disse também que pretendia debater a situação com os locais — sem relação com o velório — , trazendo ao vídeo ângulos diferentes sobre o caso.

Conforme relatado por Gabriel em seu vídeo — E EM NENHUM MOMENTO NEGADO POR FELIPE — , no bairro em questão o jovem PM foi abordado pelo ativista de esquerda, que propôs uma transmissão ao vivo de uma discussão entre os dois.

Em momento algum tratava-se de uma ‘invasão do velório para espetáculo em redes sociais’, ato abominável que, caso fosse verdadeiro, redundaria no afastamento total de Gabriel do MBL. Era apenas uma tentativa — frustrada — de diálogo… e uma armadilha de seu interlocutor.

REAGI, TIVE QUE USAR A LEGÍTIMA DEFESA

Publicado por Gabriel Monteiro em Domingo, 22 de setembro de 2019
Assista o primeiro minuto e veja

(2) Gabriel busca diálogo, não conflito

No vídeo acima, é nítido que Gabriel — após ser desafiado por Felipe para um vídeo ao vivo — tenta construir um diálogo racional, algo que prezamos nesta nova fase do MBL.

O PM, que fique claro, não tenta diminuir Felipe por conta de seu grupo político, tampouco trabalha com ironias. Há uma sincera tentativa de estabelecer um debate. Os primeiros minutos do vídeo são muito claros sobre isso, restando dúvida alguma da postura pacífica de Gabriel durante a discussão.

(3) Felipe parte para a agressão

Em entrevista para o site Fórum, Felipe deixa claro que perdeu a paciência com Gabriel sobre uma questão envolvendo estatísticas de mortes e apreensão de fuzis:

“Ele começou a passar a versão dele e as coisas começaram a ficar pior quando a gente chegou e falou que ele justificou a morte das pessoas com a apreensão de 400 fuzis sendo que são mais de 1080 pessoas mortas no estado por violência policial”

Ativista Felipe, para o site ‘Fórum’

O jovem não mente. Como vocês podem observar a partir dos 5 minutos e 25 segundos do vídeo, é neste instante que Felipe torna-se agressivo e busca o confronto. O que temos, nos minutos seguintes, é uma gritaria e tentativa de intimidação: Gabriel tentando retornar ao carro enquanto Felipe o cerca de forma ameaçadora, prensando-o contra o veículo.

(4) Legítima defesa fez-se necessária

Sejamos claros: Gabriel estava encurralado de forma agressiva e ameaçadora por parte de Felipe; a todo momento — e o vídeo a partir dos 6 minutos demonstra isso — tentou escapar da confusão, dirigindo-se ao seu carro; durante a querela, Felipe subia o tom, colocando-se “cara a cara” de forma provocativa; Gabriel tentava amenizar a discussão, falando em tom mais baixo e sereno.

Próximo ao carro, Felipe o encurralou novamente, impedindo que Gabriel, em fuga, abrisse a porta do veículo. Cercado e ameaçado — sendo vítima, também, da injusta provocação da vítima –, cabia a Gabriel afastar o rapaz, posto que corria risco de séria agressão. O fez através de um empurrão e um soco na cara do jovem, que tombou no chão.

Conclusão

Os pontos aqui relatados são muito claros. O PM Gabriel estava distante do velório e da manifestação; foi desafiado para um vídeo (ao vivo) pelo agredido; tratou o mesmo com dignidade e respeito, até que iniciaram-se os ataques; empreendeu fuga e reagiu com soco após ser encurralado junto ao carro.

A demonização do jovem PM serve de expediente para uma esquerda em busca de legitimidade na polarização à polícia (e aos governos Witzel e Bolsonaro) diante do caso Agatha. Utilizar-se de Gabriel é oportuno — oportunista — para os próceres de um discurso político que tem numa criança um palanque. É abjeto demais para ser concebido como real.

Conforme percebemos recentemente, a busca pelo diálogo é válida, e será a tônica do novo MBL. É uma transição dolorida. Ainda assim, a sombra dos intolerantes ainda se estende sobre grande plagas do esquerdismo. O caso envolvendo Felipe é um deles; a entrevista distorcida de Fernando Holiday é outro.

Ao menos a má-fé demonstrada serve para apontar limites: a partir de certo ponto, a democracia já não encontra mais jurisdição.