Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
As manifestações se tornaram chatas? Eis um ensaio de como torná-las divertidas. Se não divertidas, ao menos úteis.

Ano novo, manifestação nova.

05/01/2020 15h19

Observação inicial: O Texto a seguir utiliza minha participação na seguinte entrevista como pano de fundo:
https://www.otempo.com.br/politica/banalizacao-das-manifestacoes-preocupa-movimentos-politicos-1.2277520
“Isso aí é um tema que a gente vê com certa preocupação. As manifestações, além de se esvaziarem, tiveram pautas que foram se tornando cada vez menos urgentes. Passaram a ser estatizadas, era mais importante você falar que era leal ao presidente, ao Planalto, do que, de fato, ao tema da manifestação. Isso a gente viu nessa última, do dia 8, que foi a favor da (prisão em) segunda instância. Os discursos foram bizarros, poucos ou nenhum falando da técnica, da complexidade da segunda instância, porque é inconstitucional ou constitucional, cláusula pétrea, como ficaria. O resto foi falando ‘meu presidente Jair é Bolsonaro, votei 17, agora vou votar 38, no Aliança pelo Brasil’, e isso, sinceramente, essa estatização, isola, acaba com as manifestações, que são para reivindicar alguma coisa”, argumentou Caíque Januzzi, coordenador do MBL em Belo Horizonte.

No segundo domingo de dezembro, 08, ocorreram por todo o Brasil manifestações favoráveis à prisão em 2o instância. Iniciado o ato de Belo Horizonte, no qual estive presente, notei que a manifestação estava vazia. A partir disso, coloquei-me a pensar e cheguei a algumas conclusões. Atualmente, existem 3 problemas, centrais no que diz respeito às manifestações, sendo eles: a) a falta de alinhamento do discurso com a pauta; b) a dinâmica da manifestação somada à briga de egos e ao distanciamento da rua; c) a falta de jovens. Conversando com amigos ativistas de todo o país – do sertão nordestino aos pampas gaúchos – pude perceber que o mesmo se repetiu por todo o país, infelizmente. Eis, então, um ensaio sobre a origem desses problemas e suas respectivas soluções.

[A]
A falta de alinhamento do discurso com a pauta

Nas semanas que antecederam o ato, o MBL e o Vem Pra Rua convocaram a população à manifestação pela prisão em segunda instância. Em primeira análise, é inegável que a pauta é importante para o país é que há apelo popular. Contudo, os discursos proferidos pouco tiveram a ver com o tema. Afinal, alguns grupos apropriaram-se da manifestação para mostrar fidelidade ao planalto. Isso porque para tais grupos, mostrar submissão ao governo federal é mais importante do que pressionar o tão “odiado” centrão e que mobilizar a população para mudar o país via instituições.

Inicialmente, devemos buscar entender a necessidade de demonstrar fidelidade ao Planalto. Para facilitar esse entendimento, vamos dividir os grupos governistas. O primeiro, dependentes do governo. Movimentos como o Direita UF (diz respeito à respectiva unidade federativa), Movimento Brasil Conservador (MBC) e, em São Paulo, o Movimento Conservador. Dependentes, pois foram criados pela própria família Bolsonaro. Além disso, movimentos que não possuem grande respaldo e representatividade na sociedade civil. Afinal são, via de regra, movimentos de gabinete – com a possível exceção do Direita UF.

Falando dos que dependem da família presidencial para fins eleitorais, temos os que surfam eleitoralmente na onda do governo. O exemplo mais claro a nível nacional é o Nas Ruas. São movimentos que se aproveitam do Planalto para alavancarem seus nomes nas eleições. Como consequência, o papel deles nas manifestações limita-se a gritar “Bolsonaro, eu te amo”. Esse vídeo é icônico, diga-se de passagem. Você pode assisti-lo clicando aqui.

Por último, os grupos que apoiam o presidente por estarem cansados e verem numa ruptura da Norma Fundamental e do pacto social a melhor saída. Estes acreditam que o Presidente e seu staff são os mais indicados para isso. Ironicamente, esse grupo é o mais dominado pelos outros dois, que o utilizam para legitimar seus atos e discursos autoritários. São os mais ideológicos. Contudo, a maior parte dos influenciadores dessa ideologia fazem parte dos outros dois grupos supracitados.

Explicados os principais grupos que compõem o que chamamos de “Direita Bolsonarista”, fica fácil entender o motivo da falta de alinhamento do discurso com o chamado da manifestação. Para eles não interessa a pauta. A sobrevivência dos dois primeiros depende do Planalto, e deles parte toda a influência ideológica dos cansados.

Fundamentado nisso, tratarei do custo da quebra da pauta. Veja bem: você vai ao médico reclamando de dor de estômago, mas o doutor te receita um remédio para dor no pé. Resolveu o seu problema? Não! Atendeu às suas expectativas? Também não! É uma analogia ruim? Sim, mas é real. A população, ao ver que o tema da manifestação (que a fez sair de casa) foi deixado de lado, sofre com a quebra de expectativa. Ademais, com a quebra de confiança no motivo daquele ato.

Podemos ver isso claramente através da última manifestação, de 08/12. Era quase uma reclamação unânime. “Mas a pauta não era a prisão em segunda instância?”. Triste, ruim (principalmente a analogia), mas real.

[B]
A dinâmica da manifestação somada à briga de egos e ao distanciamento da rua

Chegamos, provavelmente, ao tema mais delicado desse texto. Um tema espinhoso, que deve ser tratado com cuidado. E será, mas incisiva e diretamente.

A priori, deve-se entender o que é a dinâmica da manifestação. Pois bem, o termo é autoexplicativo: consiste no funcionamento do ato. Por óbvio, não há algo escrito, nem regras explícitas definindo o que os organizadores e manifestantes farão. Contudo, já existe uma certa tradição. Por exemplo: chegar, posicionar os caminhões de som, cantar o hino nacional, começar os discursos, e entre os discursos tocar músicas como que país é esse, tropa de elite…Eis o modelo das manifestações de direita.

Tal dinâmica criou uma enorme briga de egos entre os grupos da direita. Qual grupo tem o maior carro de som, qual grupo o som será mais alto, qual será ouvido de forma mais clara, qual o melhor posicionamento do carro para que pareça o principal… coisas desse nível.

Essas mesquinharias refletem o espírito centralizador e narcisista dos grupos citados e a falta de comprometimento com a pauta. Não é o tema que os leva às ruas, mas sim a chance de aparecer. A chance de se mostrar ao público para que se aproximem de um propósito meramente eleitoral.

 Por fim, devemos entender como surgiu essa dinâmica nas manifestações. Em 2013, nas manifestações pelo “Passe Livre”, os atos não tinham uma liderança estabelecida. Era só chegar e pronto. Foi a partir do início das manifestações de 2015 (que culminaram no Impeachment de Dilma) que os movimentos perceberam a necessidade de uma liderança clara. A qual seria responsável por convocar as manifestações, construir as narrativas, levar os anseios populares ao congresso e fazer a ponte entre o povo e Brasília.

A posteriori, temos o distanciamento da rua como consequência. Os líderes das manifestações, nessa incansável briga de egos, se amontoam em gigantescos palcos e caminhões de som. Fazem discursos cada vez mais inflamados e menos verossímeis. Tudo isso para serem notados. Infelizmente, como em todo espetáculo com público, quanto mais longe está o artista, mais distante e frio está o público. É assim na comédia, assim como nas manifestações. (veja aqui, o relato de um comediante sobre o distanciamento público-artista)

Ademais, acredito que um relato pessoal seria de extrema valia para ilustrar o que disse aqui. Voltemos ao dia 09/11. Estava numa manifestação pela prisão em segunda instância, contra a soltura do Lula. Como foi uma manifestação chamada de última hora, nós do MBL não tivemos tempo de alugar um caminhão, um palco ou o que seja. Fomos para o chão, próximo ao público. Fizemos nossos discursos dali, com uma caixinha de som. Resultado: 5 mil pessoas com apenas 2 dias de chamado. Estava incrível. O povo feliz, se divertindo. Contudo, chegou o gigantesco e barulhento carro de som de algum movimento com seus discursos e sua ave maria. Resultado: sobraram 500 pessoas.

Como reverter? Indo ao público, estando junto deles. O MBL tem feito isso: desceu do pedestal, produziu faixas, montou uma bateria e está lá animando a galera.

O povo quer se sentir parte do processo, não uma massa conduzida por carros de som.

Inevitavelmente, os atos serão utilizados para promoção. A promoção individual só não pode ser a finalidade do ato, mas a consequência de um trabalho bem feito. Foi assim na época da queda de Dilma Rousseff e será assim daqui pra frente.

[C]
A falta de jovens

Somos jovens, belos, bêbados e caretas… Sempre em bandos e às vezes em dois… Curtindo grandes amores, chapados, pirados… Pelados, olhando as estrelas à espera de carinho e à procura de um futuro que não chega. -Bob Marley

Circulando pelas manifestações, observei o público. A grande maioria? Idosos. Os jovens sumiram! Via um ali, outro lá. Dentre a escassa juventude, só homens. Fiquei abismado. Onde estão meus colegas? Cadê aqueles que se mobilizaram na época do Impeachment? Sumiram…

Para entendermos a ausência do jovem e o que isso gera, dividirei esse tópico em duas partes. Sendo elas: a importância do jovem para a política e a importância do grupo para o jovem.

A importância do jovem para a política

O jovem sempre foi a parcela mais explosiva da sociedade. A parcela que age por seus impulsos e paixões.

Além disso, a juventude carrega em si a ideia de renovação, de que aquilo que defendem é o futuro, objeto de progresso para a sociedade. Ainda, esta representa um gatilho para os mais velhos, passando a mensagem de obrigatoriedade da ação. “Se essas crianças estão fazendo isso, tenho que me movimentar, afinal, sou mais experiente e sábio”.

Consequentemente, mobilizam mais de um setor da sociedade. Conseguem transcender a idade e unir gerações. Um bom exemplo do jovem como gatilho para engajamento político foi o Movimento dos Caras Pintadas (que resultou no Impeachment do Presidente Collor), que se iniciou entre estudantes e acabou por movimentar grande parcela da sociedade civil organizada.

 Clara a importância do jovem, devemos buscar o motivo da sua ausência. Por ser a camada mais explosiva da sociedade, o jovem é naturalmente mais arisco, mais contestador. Tende a questionar mais. Afinal, é previsível que com pouca experiência tenha poucas respostas. Contudo, o tom das manifestações tem afastado os jovens. É um tom subserviente, como já tratamos no tópico [A], que cria uma atmosfera de aceitação e submissão. Isso não atrai o jovem, por sua própria natureza.

A importância do grupo para o jovem

Para entender o agir juvenil, é substancial a análise das relações coletivas e como estas afetam a tomada de decisão. As turmas são um fenômeno interessante e muito denso que merece atenção especial. Utilizaremos, como auxílio, a metáfora de Arthur Schopenhauer:

“um grupo de porcos-espinhos perambulava num dia frio de inverno. Para não congelar, chegavam mais perto uns dos outros. Mas, no momento em que ficavam suficientemente próximos para se aquecer, começavam a se espetar com seus espinhos. Então se dispersavam, perdiam o benefício do convívio próximo e recomeçavam a tremer. Isso os levava a buscar novamente companhia e o ciclo se repetia na luta para encontrar uma distância confortável entre o emaranhamento e o congelamento.”
O Mundo como Vontade e Representação.

Obviamente, adolescentes não são porcos-espinhos, mas experimentam, na puberdade, uma condição que os aproxima dos mamíferos descritos por Schopenhauer: a convivência em grupo. Na adolescência, o estar em grupo é de suma importância para a sensação de aceitação e de felicidade. E na busca por essa “felicidade”, o adolescente se adapta ao coletivo e submete-se às decisões tomadas pelos líderes. Ao fazer parte de uma reunião de pessoas que têm algo em comum, o jovem consegue “calor” na forma de aceitação e acolhimento. Ao mesmo tempo, precisa se defender dos “espinhos”, posicionamentos que se chocam com a sua individualidade e podem degenerar em preconceito e agressividade.

Nos atos políticos, falta calor para os porcos-espinhos. Para a direita mais conservadora, o jovem não é muito bem quisto. São raros os grupos que conseguem acolher esses jovens e motiva-los. Não é cool ser de direita. A direita é chata, cafona e tem se tornado a caricatura desenhada na escola: violenta, antidemocrática e saudosa da ditadura.

Enquanto não fizermos os mais novos se sentirem bem acolhidos enquanto tratamos de pautas reais com um meio de comunicação dinâmico, continuaremos sendo caricatos e carcomidos.