fbpx
Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Aras institucionaliza tese do PT

Não deve ser ignorada a importante entrevista de Augusto Aras para o Globo, na última segunda-feira. Nela,

01/10/2019 18h56

Não deve ser ignorada a importante entrevista de Augusto Aras para o Globo, na última segunda-feira. Nela, o novo PGR torna explícita sua visão acerca da operação Lava-Jato e deixa pistas — verdadeiras autoestradas, pra falar verdade — sobre sua, digamos, leitura dos acontecimentos recentes envolvendo (ou não) a operação.

Dentre as críticas ao personalismo da Lava Jato — endereçadas, obviamente, a Moro e Dallagnol — , destacam-se alguns pontos, que irei comentar abaixo. Para isto, antes, vamos expor a principal fala de Aras para o periódico carioca:

“A Lava Jato ficou personalizada. Esse personalismo gerou, como revela o ‘The Intercept’, ainda que com contestações à sua idoneidade, projetos de poder estranhos ao MPF e estranhos principalmente para quem tem o dever constitucional de não exercer atividade política. Então, o projeto de poder em uma instituição que não deve passar por política partidária, principalmente eleitoral, revela uma disfuncionalidade a ser corrigida. Isso tudo decorre da quebra do dever de impessoalidade”

Augusto Aras, para O Globo

Salta aos olhos o fato de Aras tratar como “projeto de poder” a atuação da força tarefa de Curitiba. Não que não houvesse, em meio ao solta e prende da operação, um determinado projeto sendo gestado. O fundo de mais de 2 bilhões proposto por Dallagnol é prova clara disso.

O que Aras aborda — de forma implícita, que fique claro — , é uma inconveniente independência de órgãos de investigação como o COAF, a PF e a Receita Federal ao longo dos últimos anos. Tal articulação entre instituições independentes, coordenada por uma força tarefa, atingiu mares políticos nunca dantes navegados.

Essa força política, que ora se expressa na (boa) investigação de criminosos de colarinho branco, também converte-se e instrumento de achaque e manutenção de privilégios, como demonstrado na lamentável atuação de Rodrigo Janot durante o ano de 2017. O agora escritor jogou no lixo uma reforma da previdência que tiraria o país do buraco em nome da militância sindical em nome de do MP.

Mas sabemos que essa não é a boa preocupação de Aras. O novo PGR se insurge contra tal independência, já solapada por Bolsonaro, jogando os últimos 5 anos de operação na vala comum do “projeto de poder”. Serve, neste pleito, aos interessados no já abordado “acordão” entre os poderes. E adere, mais do que nunca, à interpretação petista do histórico recente do país.

Tal intento fica claro quando Aras afirma que “o projeto de poder em uma instituição que não deve passar por política partidária, principalmente eleitoral, revela uma disfuncionalidade a ser corrigida”. Entenda-se: sabendo que nenhum membro da operação aventurou-se nas eleições 2018, a declaração do novo PGR deve significar — até por exclusão — que o tal “projeto de poder” da Lava-Jato influenciou as eleições passadas.

O beneficiário seria Bolsonaro; o vitimizado, Lula. Ponto a ponto, o novo PGR mostra as garras para quem o nomeou e reveste a tese dos derrotados com contornos institucionais. Não fala mais aqui como jurista; é, agora, o líder maior do Ministério Público tornando públicas suas críticas POLÍTICAS ao processo histórico que se passou.

É curioso o silêncio do Ministro da Justiça, Sérgio Moro, sobre as declarações do novo PGR; o mesmo digo da presidência da República e de seus prosélitos em redes sociais. Bolsonaro — conforme previmos aqui — vem cumprindo sua parte no acordão que beneficia corruptos de todos os espectros políticos.

A nomeação de Aras, acompanhada do despacho de Gilmar favorecendo seu filho, é apenas mais uma etapa desta triste parceria.