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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Apesar do sucesso, protestos da esquerda não apontam solução; pedir “mais verbas” não ajuda muito…

Turma é nova mas o papo é velho. Será que cola?

17/05/2019 01h20

A tônica das manifestações da última quarta-feira foi a luta em defesa da educação, acossada que está diante dos cortes na ordem de 3,5% no orçamento do governo federal para a pasta. Até aí tudo bem — faz parte do jogo. Não vimos, porém, nada de novo em termos de propostas, e é aí que reside o drama.

Uma das falhas da esquerda brasileira é a falta de reflexão independente no seio de sua militância. Pacotes prontos são comprados na feirão-livre de partidos e organizações militantes. Não quer a lacração identitária do PSOL? Tem o PCdoB com seu modelo….vintage, por assim dizer. Quer algo mais majoritário, hegemônico, pra não errar? Vai de PT. Quer engrenagem, graxa e porrada? Tem PCO, com ou sem Rui Costa. Tem vermelho pra todo gosto. Basta escolher o tom e levar pra casa.

O problema é que nenhuma das alternativas elencadas, de fato, contribui para o debate público com o mínimo de honestidade necessária. E toma “terraplanismo contábil” aqui, garantismo penal ali, pirueta orçamentária acolá. Chavões desgastados — forjados a 30, 40, 50 anos atrás — ecoam inutilmente num momento em que as redes sociais permitem a checagem de fatos quase que instantânea. Não há mais chavão sem réplica; “mentiras sinceras não me interessam“, diz o consumidor político da era digital.

Corte de gastos e reforma da previdência

A inadequação da demagogia populista da esquerda aos novos tempos se fez presente nos atos de quarta feira. Manifestantes neófitos pediam “mais verba” para a educação enquanto transitavam amigavelmente com sindicalistas anti-reforma. Não ligavam os pontos — e isso pouco lhes importava naquele momento. Combater Bolsonaro, liderar uma causa, fazer amigos… eles estavam lá pra isso. Curtir o momento é também parte da iniciação.

Esse approach, digamos assim, mais lúdico da política não é necessariamente ineficaz na disputa por espaços. A história recente é recheada de epopéias estudantis (e populistas) em busca de “mais verbas” e “mais direitos”. O caso chileno, pra falar de um vizinho, é mais que emblemático. Alguns tantos irão se lembrar das aventuras irresponsáveis de Camila Vallejo, muito menos que um rostinho bonito na cena política local. Mas que operou um tsunami com seu movimento.

Você perderia uns 15 minutos lutando contra o sistema com ela?

A diferença entre o Chile de Camila e o Brasil da estudantada de quarta-feira é que nosso bananal não conta com situação fiscal exatamente chilena. A coisa está feia. O debate sobre ajuste orçamentário, já sedimentado no seio da sociedade, fala mais alto que as gritas por “ensino público, gratuito e de qualidade“. São dez anos de pindaíba. As pessoas querem emprego. E o modelo de país proposto — ainda que involuntariamente — pelos jovens manifestantes, já foi testado e reprovado nas ruas e nas urnas.

Onde pretendo chegar com isso? Creio que o movimento nascente irá esbarrar em uma série de problemas, a começar pela liderança imposta por UNE, CUT e partidos políticos. Caso os atos persistam, irão expor as contradições entre a massa voluntária e o comando partidarizado. É questão de tempo. Além disso, a incapacidade de articular uma alternativa para o problema — e “mais grana” não é uma saída — pode jogá-los na inoperância de 2013; eram tempos onde todo mundo gritava, todo mundo curtia e nada se resolvia. É o destino provável da causa estudantil.

Resta-lhes o anti-bolsonarismo. Alimentados pelas máquinas partidárias, imprensa e a própria inoperância tragicômica do governo, os jovens podem servir de vanguarda para uma deterioração do quadro político do presidente. Não é uma hipótese a ser descartada. A depender do caso, será a opção de líderes do Centrão. Mais Brasil, impossível.

Agora é acompanhar. Pode ter surgido uma turma nova no pedaço. Não nego que pretendem ir longe; seu sucesso, entretanto, é improvável. Com ideias passadas, os problemas do presente continuarão problema no futuro. Mas quem liga? Equações difíceis não ganham corações em meio a flores, gritos e baterias universitárias. É um jogo perdido.