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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Apesar do PT ou graças ao PT, temos uma democracia!

Nem Chile, nem AI5. Ninguém fala pelo povo!

27/11/2019 18h27

Nós tomamos as ruas em 2014 e não temos a intenção devolvê-las.

As figuras políticas tradicionais ainda não compreenderam o que ocorreu na nossa história recente como revelaram os polos contrários em recentes manifestações.

O ex-presidente presidiário, Lula, declarou após sua soltura que:

É uma questão de honra a gente recuperar esse País. A gente tem que seguir o exemplo do povo do Chile, do povo da Bolívia. A gente tem que resistir. Não é resistir. Na verdade, é lutar, é atacar e não apenas se defender. A gente está muito tranquilo”

O Ministro da Economia, Paulo Guedes, indiretamente respondeu:

“É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?”.

Não tenho dúvida de que, em geral, as declarações de políticos não são literais, pois procuram transmitir símbolos, buscando afetar o imaginário da população e marcar uma posição frente ao seu público.

As declarações acima são nitidamente de caráter belicoso com demonstração de força entre os antagonistas que apresentam armas e preparam para a guerra de narrativas e discursos que se avizinha.

Possivelmente, frente a polarização política, as figuras de destaques das alas em oposição são forçadas ou tendem a sustentar a ideia de que são capazes de conduzir o fenômeno cujas causas são externas às suas esferas de influência.

Por essa razão, muito do que está sendo dito são palavras ao vento, pois não têm efetivamente efeito sobre o entendimento da maioria das pessoas comuns, mas que, apesar disso, ressoam pelos meios de informação e nos resultados dos operadores do mercado financeiro por ausência de uma visão mais realista dos fenômenos sociais que definem os rumos da nossa nação.

Digo isso porque no centro do conflito estão as manifestações populares, cujo recente retrospecto revelaram a incapacidade dessas figuras políticas e partidos tradicionais de incitar ou refrear as ações espontâneas que tomaram as ruas brasileiras.

Cito, especificamente, os protestos iniciados em 2013, que desmontam as pretensões alucinadas das declarações analisadas.

Compreensível que o ex-presidente solto provisoriamente agraciado pelo benefício de recorrer em liberdade tenha as ideias distorcidas pela forte emoção promovida pela liberdade concedida.

Contudo, o intento insistente de promover uma amnésia coletiva quanto aos fatos recentes da história política revela o método promovido pelo grupo que foi escorraçado do Poder, tentando tomar carona nos acontecimentos que afetam as nações vizinhas, simplesmente ignorando o passado recente.

O êxito da tentativa de surfar na onda de revolta continental esbarra no acontecimento político mais importante da história recente brasileira: as manifestações populares iniciadas em 2013, que se consolidaram no imaginário político nacional como um mito fundador, que sua superação exige muito mais do que discursos empolgados.

Quero dizer com isso que nossa história já vivenciou, por suas próprias razões, a convulsão pública e popular que hoje afeta nossos pares latinos americanos, que marcou profundamente a dinâmica da política e movimentos populares.

Isso altera significativamente as condições para mobilização de rua, pois demanda uma consonância dos motivos para o chamamento à ação e a voz interna do cidadão comum quanto ao significado da mensagem recebida, a partir dos fatos vivenciados.

Os meios adotados pelo Partido dirigido de fato pelo ex-presidente para mobilização estão ultrapassados. As mobilizações tinham como modelo o uso de estruturas partidárias, sindicais e de grupos organizados da “sociedade civil”, que restaram cooptados e dependentes do uso da máquina pública. A motivação mais genuína que atinge efetivamente os ânimos das pessoas está totalmente atrelada às pautas de natureza progressistas e que tem alcance extremamente vinculado ao público convertido, ou seja, não são pautas populares.

Os motivos que mobilizam realmente a exaltação pública foram totalmente implodidos pelo histórico registrados pelo partido nos 15 anos de governo. A pauta do combate à corrupção, contra os interesses de grupos de interesses das elites, uso da máquina pública para fins pessoais e troca de favores políticos e exigência de resultados de bem-estar sócio econômico (esse último ainda com margem para exploração), são prejudicados pelas ações e resultados legados.

As causas acima foram exatamente as que deram origem às mobilizações desde 2013 que foram dirigidas ao próprio partido quando estava no poder. Somente pelo uso da falácia e distorção dos acontecimentos para desvincular esses importantes fatos do próprio partido viabilizaria o protagonismo nesse discurso que pretendem conduzir.
Como isso seria feito? Depende muito das decisões e atitudes do atual governo Bolsonaro.

O outro extremo parece igualmente ignorar os rumos históricos que derrubaram o governo anterior e culminaram na eleição do Presidente Jair Bolsonaro.

O ministro Paulo Guedes parece seguir a tradição liberal, segundo a qual há apenas um aspecto importante na sociedade, o fim econômico, em detrimento de todas as nuances que permeiam a sociedade e impulsionam a vida política.

A minha impressão é a de que, em momento algum, o ministro validou a medida autoritária, uma vez que no contexto da sua fala estabelece uma relação de ação e reação.

Os efeitos da sua declaração carregam, porém, outros elementos que não podem ser negligenciados por um ministro de estado dessa estatura. A declaração insere na esfera dos debates públicos a ideia de ala de pessoas das mais transloucadas ou desconhecedoras dos efeitos deletérios da ação autoritária. Advinda de uma pessoa que integra o governo, implicitamente permite a ideia de que a ação, que somente pode partir do âmago do poder governista, é uma possibilidade, sem que haja a exaltação dos mecanismos democráticos que asseguram a reação necessária às atitudes extremas, sem quebra das garantias e liberdades individuais.

Se consciente, pode demonstrar a eterna mania brasileira de infantilizar atitudes de pessoas que ocupam posições de representação, isentando de suas responsabilidades.

De toda forma, uma omissão importante na fala do ministro revela desconhecimento ou ignora o significado da história dos protestos que temos tratado acima.

Isso porque o Brasil já esteve diante de atos de violência e protestos de agentes extremos, possivelmente patrocinados ou incentivados por grupos políticos, a partir do ambiente de indignação e repulsa da sociedade em relação à classe política.

Entretanto, em um dos raros momentos de mobilização e união de brasileiros, os protestos violentos e agentes do terror foram expurgados, por meio do mais legítimo mecanismo democrático, quais sejam as manifestações populares pacíficas.

As ações circunscritas ao movimento manifestamente vinculado a grupos políticos foram simplesmente tomadas pela sociedade civil, cuja liderança natural conduziu grupos à frente dos protestos, subestimados inicialmente, demonstraram uma força avassaladora na Política, alterando as bases e métodos de atuação.

Um exemplo disso foi o nascimento do Movimento Brasil Livre – MBL, cujo ação embrionária foi a tomada da liderança de um ato no vão do MASP por Renan Santos, como registrado em conjunto com Kim Kataguiri no recente livro “Como um grupo de desajustados derrubou a Presidente: a origem: MBL”.

Isso demonstra que o Brasil passou por uma experiência democrática profunda, em que seus limites institucionais foram testados ao extremo e em diversas formas, desde atos de transgressão e violência, como ameaças de grupos sustentados por atores políticos, recursos públicos para sustentação da base política e ação contra a opinião popular, além da utilização à exaustão de medidas e artifícios judiciais para deslegitimar e impedir um processo que decorreu exclusivamente da vontade popular.

Isso tudo provando que o povo brasileiro é capaz de caminhar sobre as próprias pernas marchando contra abusos do estamento burocrático, sem que tenha de recorrer aos arroubos autoritários de agentes do governo, que julgam ser o único meio de conduzir os interesses nacionais, sempre com a concentração de poder em torno de uma figura personalista.

Apesar do PT ou mesmo graças ao PT, os mecanismos democráticos se revelaram eficazes, testados ao limite pelas ações de grupos que tinham um projeto autoritário de controle da máquina do estado.

A farsa empregada para estatizar as ruas ignoram um importante elemento: pessoas que reconhecem a ação e são capazes de sacrificar tudo em defesa do palco democrático que é a rua e que pertencente a todos os brasileiros.

Os meios de comunicação também parecem expressar uma realidade na qual sejam os protagonistas da manutenção do ambiente democrático, fazendo grande alarde frente as declarações dessa natureza. Obviamente necessário para que se assegure sua importância e protagonismo.

Logicamente, para isso sacrificam o mesmo fato elementar que é: sem a amparo das ruas, sejam os representantes da esquerda ou da direita, não são capazes de concretizar seus discursos, especialmente para convencendo que expressam algo verdadeiramente de interesse popular, sem ações “disruptivas” (revolucionárias) ou de concentração de força do poder estabelecido.

Dessa forma repercutem declarações e promovem debates intensos sobre algo que somente teria relevância se ressoasse na sociedade civil. No seu âmago, superestimam a própria capacidade de fazer corresponder sua opinião com a maioria das pessoas, pois essa se forma a partir de uma construção invisível e gradual, incapaz de ser captada por um raciocínio soberbo e elitista.

As mobilizações são de natureza espontânea, sendo errôneo pretender controlá-las e de forma racional.

Vivemos em uma democracia sim. Isso já foi provado e se preciso confirmado sempre que precisar.