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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
A visão única do Documentário Não vai Ter Golpe

Assista o filme nas plataformas de streaming e não se decepcione

09/09/2019 16h00

Na narrativa histórica, venha ela através de uma obra historiográfica ou de um romance de época, a grande dificuldade é apreender a essência do fenômeno e conseguir transmitir uma visão, que forme uma unidade de sentido e seja fiel aos fatos. Não há fatos históricos por si mesmos; é a habilidade do historiador que opera o recorte no manancial ilimitado das ações humanas. Ele narra e convence; prova e alude. Entre arte e ciência, o estilo da história impõe seus parâmetros.

Aqueles que atingem a excelência criam os grandes marcos. A visão romântica da Idade Média deve muito a Sir Walter Scott e a Chateaubriand, tanto quanto deveu aos medievalistas que se debruçaram sobre o passado da França, Alemanha, Inglaterra. Toda síntese histórica é o produto de uma época e, por seu turno, retroage sobre ela a transformando. 

Cabe fazer a mesma observação para os outros meios artísticos. Um quadro pode ser tão revelador de uma época quanto um ensaio. Um filme, idem. E é este aspecto que eu gostaria de enfatizar.

A primeira vez que vi o filme, antes de ser exibido nos cinemas, já sabia que seria um sucesso. Ancorado na jornada do herói, o filme trazia um esquema sempre renovado no cinema hollywoodiano, conseguindo, por assim dizer, convencer o espectador da sua verdade artística. Já nos primeiros minutos, o espectador era cativado pela apresentação sucinta, porém estimulante, daquelas pessoas estranhíssimas que formavam o time do MBL – um empresário frustrado, um funkeiro, um japonês nerd e estudioso, um negro de periferia homossexual, dois produtores jogados a esmo numa campanha eleitoral de uma figura excêntrica. Era a festa estranha com gente esquisita da política.

Como nos mostra Joseph Campbell, o paradigma clássico da jornada do herói é A Odisséia. A história de um homem excepcional, que atravessa todas as jornadas e retorna ao seu lar, a Ítaca. Entre deuses e terrores, Odisseu é o herói paradigmático do mundo clássico, junto com Aquiles, mas sem a gigantesca hübris deste último. Quando se escreve um roteiro heróico, é preciso montá-lo de maneira que ele seja verossímil e desperte a consciência da grandeza nos que o assistem. Não importa se é Odisseu ou se são uns jovens reunidos na Brigadeiro Luís Antônio. O que importa é que haja o esquema, a estrutura de engrandecimento e do retorno glorioso. Foi o trunfo do filme.

O tom do documentário é necessariamente intimista, sem que houvesse muita escolha quanto a isso. Felizmente, não houve dissonância de tom. O tom se manteve sempre próximo, sempre perto do espectador. Afinal, grande parte do documentário foi filmada, como disse o diretor Fred Rauh, “na guerrilha”. Por conta disto, os takes de câmera “no ato” somados à relativa simplicidade da filmagem acabaram produzindo o efeito de transportar o espectador para dentro do clima de tensão, que era o clima real de quando as cenas eram fatos vividos.

O documentário destaca o papel de pessoas que estavam participando dos eventos mais importantes do período. Para quem gosta de comparações ilustrativas, essa é uma significativa diferença entre o documentário do MBL e o da Petra. Democracia em Vertigem traduz certo intimismo, porém forçado, pois a diretora não participou da linha de frente do processo de impeachment, do lado das esquerdas. Uma das queixas recorrentes sobre o seu trabalho, de resto com méritos cinematográficos inegáveis, é que a narração é tediosa, lânguida, como se a onipresente voz de Petra Costa já carregasse a melancolia da derrota do PT.

Mais do que isso: a insistência com que Democracia em Vertigem destaca certos dramas familiares parece artificial, já que a participação mais significativa do clã Andrade Gutierrez se deu justamente como um dos parceiros de crime do PT, o que, naturalmente, é pouco focalizado. Romantizando o passado de militância dos pais, Petra não se contenta em narrar o documentário todo, mas ainda confere espaço excessivo para depoimentos da mãe. Felizmente, esse vício está ausente de Não vai Ter Golpe. Há muitos depoimentos, mas todos organicamente costurados respeitando o peso real dos agentes.

Mas, o que faz Não vai Ter Golpe tão especial? A qualidade do filme? O talento dos diretores? A excelente trilha sonora? Tudo isso ajuda mas, creio, o essencial é uma questão de autoria.

A perspectiva de quem faz o filme modula, necessariamente, a perspectiva do espectador. Contudo, quando essa perspectiva autoral é a mesma do autor dos fatos temos uma identidade diferenciada. E nisto o nosso Doc obtém uma vantagem clara em relação a outras narrativas possíveis. O MBL foi o protagonista do impeachment com o máximo destaque dentre todos por força dos fatos, e boa parte do documentário é o desdobramento desse dado histórico primário.

Outro aspecto crucial é a sensação de expectativa produzida pelo filme, que muitas pessoas observaram. Como disse Paulo Polzonoff Jr., em excelente resenha para a Gazeta do Povo, ele vibrou com a votação do impeachment como se não soubesse o resultado. De onde veio essa ilusão de perspectiva?

A ilusão é construída ao longo do documentário pela conjunção de dois fatores: primeiramente, embora o espectador saiba do desfecho, ele não sabe dos bastidores. Aí entra o trabalho cuidadoso de Alexandre e Fred, de terem filmado praticamente todos os momentos cruciais da construção do impeachment ao longo de dois anos. Em segundo lugar, a alternância entre as reflexões dos fundadores (Renan e Pedro D’Eyrot) e os takes da época, na qual havia realmente a incerteza sobre se Dilma iria cair, provoca no espectador um deslocamento temporal, gerando empatia com a emoção dos protagonistas durante o processo.

A prova de que o documentário é um testemunho de primeira ordem vem do efeito único provocado por essa confluência, que é sentida por quem assistiu e o motivo principal de tantas pessoas terem saído das salas emocionadas. Fica gravado, portanto, o juízo audaz: não há melhor maneira de conhecer a história do impeachment do que através deste documentário. Acredito que seja uma realização única, e não apenas pelo talento de Fred e Alexandre, notável na escolha e amarração de todos os elementos do filme (da excelente trilha sonora até as cenas simbólicas, como a da onça e a da cobra, uma alusão ao MBL e Lula), mas pelo que somente o movimento poderia fazer ao narrar a sua história, que em um momento singular se tornou o eixo de força da história do Brasil. Essa ilusão de perspectiva é a contração do olhar do espectador em uma perspectiva absolutamente única, que não poderá ser repetida por ninguém mais. Por isso, se alguém quer saber o que houve no impeachment, comece logo a assistir Não vai Ter Golpe.