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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
A Revolução de Carlos Bolsonaro

Carlos Bolsonaro não gosta da democracia. Considera-a devagar — e é pra ser –, não permitindo que o governante leve a cabo ‘a transformação que o Brasil quer’

10/09/2019 12h45

Carlos Bolsonaro — Carluxo para os íntimos — gosta de falar grosso no twitter. Chama os outros de ‘isentões’, ‘prostitutas’ e ‘cadelas do sistema’. Logo ele, revolucionário que é, que vive do tal sistema desde os 17 anos de idade, vereando pelo Rio de Janeiro.

Carlos sempre manteve seus gabinetes rigorosamente lotados. Tal qual Flávio, seu irmão, responsável pelo escândalo do Queiroz e algoz involuntário da operação Lava-Jato. A ideia de ‘revolução’ para eles é bem clara: suga-se o sistema, extrai-se o possível dele, enquanto denuncia todo mundo que não se submete a sua causa.

Carlos Bolsonaro não gosta da democracia. Considera-a devagar — e é pra ser –, não permitindo que o governante leve a cabo ‘a transformação que o Brasil quer’.

A leitura do vereador é problemática. Primeiro por não entender que conservadores não gostam muito da proximidade entre as palavras ‘transformação’ e ‘velocidade’. É o princípio da prudência, meus caros. O que seria essa transformação toda que o Brasil quer? Carlos sabe descrevê-la?

Antes de tudo, imagino que ele esteja se amparando na legitimidade presidencial conferida pelo voto. Já usaram esse argumento antes, para deslegitimar o processo legislativo ao longo deste ano. É como se o parlamento — abrigo de seu pai nas últimas três décadas — simplesmente brotasse do chão, ausente de representatividade.

Galhofa. Carlos bem sabe que mentem e manipulam seus seguidores, fazendo uso de populismo barato para jogar o povo contra as instituições. Essa é a lógica que operam.

Dito isto, o raciocínio é ainda mais torpe. Primeiro pois a transformação que o Brasil quer, amparada no voto, costuma mudar de eleição pra eleição. Qual seria a ‘transformação’ pleiteada pelo Brasil que votou maciçamente em Lula em 2006 (teve mais votos que Bolsonaro)? Aproximação com a Venezuela? Petrolão? Compra do parlamento? Obras super-faturadas? Ideologia de gênero? O voto justifica tudo, para Carluxo. Então justificaria o PT.

O que parou o projeto hegemônico petista foi justamente essa tal de democracia representativa. Lenta, chata, por vezes imoral — por muitas vezes, diga-se — , por vezes republicana. É ela que impede que tiranetes se perpetuem no poder, que belos sonhos revolucionários se transformem em pesadelos de olho aberto. A democracia é uma merda, mas impede que gente como Carlos realize seus intentos — que eu prefiro nem saber quais são.

Carlos e seus irmãos foram levados a crer que Bolsonaro representa uma revolução conservadora. Olavo e seus pupilos pregaram essa peça. É a forma como instrumentalizam a família para levar à frente seu projeto hierárquico. E convenhamos: é uma delícia acreditar que você e sua família são os heróis escolhidos por Deus para salvar uma pátria em convulsão. Ainda mais se os gabinetes — e as embaixadas — valem o fardo.

A revolução de Carlos não irá acontecer. Ainda bem. Foi morta pelo conforto do gabinete de seu irmão — ferramenta disponível nas democracias representativas. E aí jaz a ironia disso tudo: ainda que por vias tortas, as delícias da democracia deram um jeito em sua sanha autoritária.