Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
A repulsa dos Globais

Qual a raiz do ódio à direita?

03/02/2020 20h02

Em seu último texto para a Gazeta do Povo, A revolta do Leblon, Renan Santos levantou importantes pontos a respeito da elite artística brasileira e sua militância política. Contudo, qual será a raiz desse ódio ao capitalismo – personificado no espectro da direita – que nossa elite artística propaga aos quatro ventos? É isso que me proponho a responder aqui.

Em primeiro lugar, para alcançarmos o devido entendimento, vamos examinar as elites francesas e americanas, respectivamente, para então retornarmos à elite tupiniquim.

A elite gálica, le monde – e, de modo geral, a europeia – inclui todos aqueles indivíduos de destaque em qual for a função. Políticos, líderes sindicais, médicos, advogados, cientistas, escritores proeminentes, atores, músicos, editores e donos dos principais jornais e empresários de destaque, junto com os descendentes das famílias aristocratas, compõem o que chamamos de high society. Esses membros da alta sociedade frequentam os mesmos ambientes sociais: jantares, festas, bares e restaurantes, concertos…E quando se encontram, deleitam-se em questões intelectuais, um costume desenvolvido na Itália da Renascença e aperfeiçoado na França. Hoje, via de regra, é o modelo de elite difundido por toda a Europa.

Dessa maneira, a elite europeia é acessível a qualquer sujeito que obteve destaque em alguma área. É, de certa forma, mais aberta, mesmo sendo ainda mais fácil para quem descende da nobreza e despoja de grande riqueza. Contudo, o que faz dessa elite sui generis é que, se você faz parte dela, nada pode lhe dar mais prestígio do que ser um intelectual, nem mesmo dinheiro e títulos nobres. Assim, concluiu Mises: “O foco da le monde não são os milionários, são os membros da Academia Francesa[1]”.

Já nos Estados Unidos, esse modelo de elite é completamente ilusório. A alta sociedade americana consiste, praticamente, num compilado das famílias mais ricas. É raro algum tipo de relacionamento entre os capitalistas, os artistas e os intelectuais da nação. Por conta desse abismo, os autores, cientistas, artistas e músicos americanos são predispostos a considerar o empresário próspero como um bárbaro, como um homem cujo objetivo exclusivo de vida é fazer dinheiro, ao invés de apreciar a cultura. Antes de voltarmos à elite brasiliana, analisaremos mais um fator: a insegurança que a livre concorrência gera nos artistas. No capitalismo, os consumidores são soberanos. Logo, o sucesso depende da capacidade do produtor de agradar o consumidor. Nesse caso, depende da eficiência dos artistas em entreter o público. Não há muita distinção entre o José de Abreu e um metalúrgico qualquer, afinal, ambos devem agradar – à sua maneira – seus consumidores. No entanto, a principal diferença está no fator necessidade: o metalúrgico sabe que seus produtos são comprados mediante certos requisitos concretos. Enquanto o entretenimento deve, por definição, acabar com o tédio – e nada mais chato do que um entretenimento velho e trivial.

Ou seja, o novo ganha mais likes. Assim, o artista pode no início da semana ser famoso e no fim da mesma semana cair no ostracismo. Essa competição voraz cria uma profunda ansiedade no artista. No final do dia, o desejo é sempre de se manter no topo. Consequentemente, essa elite do entretenimento busca uma espécie de alívio e, via de regra, encontra no comunismo. Pensam que o comunismo fará todos felizes. Afinal, foi isso que aprenderam na academia – composta pelos intelectuais receosos com o capitalismo supracitados.

Por fim, voltamos à nossa Pátria Amada. Não é preciso dizer que nossa elite se inspirou na norte-americana. É muito raro vermos a elite capitalista se misturando com a elite artística. Além da exclusão, o ódio é motivado por mais um fator, descrito muito bem no texto do Renan:

 “A nobreza artística carioca nunca encontrou paralelo. Vivendo em seu mundo particular, rodeando a Rede Globo, ela era, antes de tudo, uma turma de amigos, um clube fechado e exclusivo. Recebiam altos salários, conviviam nos mesmos bares, praias e restaurantes. Tinham seus líderes, suas tribos, seus rituais. Eram felizes — amados pelo povo —, e nada poderia lhes fazer mal.
(…)
As jornadas de 2013 serviram de prenúncio para uma revolução que lhes apeou do poder. Em 2016 caiu não apenas Dilma, mas o mundo das artes que lhe servia de suporte. Percebam: foi no ano seguinte, 2017, que a chamada “guerra cultural” atingiu seu ápice. Ali surgiu o “342 artes” e as iniciativas políticas mais agressivas da nobreza decadente. Em resumo, propunham brioches após a queda da bastilha. Ainda propõem. Mal sabiam que o povo — ou público, como preferem — já vivia do pão que o diabo amassou. ” [2]

Renan Santos, A revolta do Leblon

O “capitalismo de amigos” do PT distorceu tanto o mercado de entretenimento, que sepultou a capacidade de entreter e se adaptar ao público. Então, culpam o capitalismo pela brutalidade com que foram tirados da nobreza, e clamam por um Napoleão que os leve de volta ao 1º estado.

São essas as razões pelas quais a nobreza do Leblon – citada por Renan – odeia tanto a direita e o capitalismo.

Referências:
[1] Ludwig von Mises, A Mentalidade Anti Capitalista
[2] Renan Santos, A revolta do Leblon