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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
A nova moeda política

Quem soube representar a liderança, prevaleceu

12/07/2019 16h47

Após a votação expressiva para aprovação em primeiro turno da PEC da Previdência na Câmara dos Deputados diversos personagens se apressaram em tentar angariar para si o crédito pelo resultado, enquanto outros naturalmente já começam a receber o devido reconhecimento pela atuação em prol do projeto. 

O Presidente da Câmara Rodrigo Maia ciente disso e da oportunidade largou na frente e fez seu discurso, bem articulado, emocionado – quem sabe? –, antes de pronunciar o resultado, em frente dos demais personagens ávidos por se apropriar do momento. A batalha encampada pelo governo contra o “centrão” parece ter sido um tiro que saiu pela culatra, pois se firmou a impressão de que só se governa o país com o apoio desde grupo de deputados, que foram habilmente conduzidos sob a batuta de Maia. A meu ver mero ônus da cadeira ocupada, exceto quanto à defesa contra a tentativa do Planalto de engolfar a casa baixa parlamentar.

A narrativa previamente preparada para se fazer crer que o projeto foi aprovado sob a pressão popular exercida pelas manifestações de 26/05 não foi capaz de convencer o público não convertido. Obviamente, o lobby envergonhado de Bolsonaro para atendimento demandas de corporações e as atuações vexaminosas e ostensivas dos deputados do PSL contribuíram para que se invertesse a percepção geral quanto às posturas não republicanas (toma lá, dá cá) dos partidos que integram o “centrão” (ao menos nessa ocasião) apontada como causa da inviabilidade de governança e do projeto de Reforma e recaíram sobre a base governista. Agiram exatamente como acusavam o congresso de fazer. A liberação de emendas parlamentares às vésperas da votação não pode ser a priori como prática espúria de compra de apoio ao projeto, mas surpreende o fato de logo após o encerramento da votação o público bolsonarista já disseminava a ideia de que esse foi o motivo da obtenção dos votos do “centrão”, como modo de desqualificar a importância da articulação política e do própria casa parlamentar. A pergunta que se fazia ao tempo dos governos Dilma e Temer deve ser repetida nesse caso: quais partidos receberam emendas parlamentares? 

Não há dúvidas de que a autoria do projeto é mérito do governo, especialmente do Ministro Paulo Guedes, que foi além e se digladiou com a horda insana de representantes da oposição, que se superam em protagonizar cenas que, mais uma vez, envergonham a política nacional. Não é possível mensurar se a percepção geral de tais atuações se limitou ao próprio ministro ou também beneficiou o governo. Ressalte-se, pelo lado do governo, mais uma vez, a atuação de Rogério Marinho, atuando à frente de outro projeto de curial importância à recuperação fiscal nacional. Onix Lorenzoni que inequivocamente atuou em favor da reforma, tem seu desempenho minguante, longe de qualquer protagonismo. Outros sem qualquer intenção de figurar no páreo para obter os resultados políticos, inevitavelmente assumem como importantes agentes para o sucesso da Reforma, que valem ser destacados como Mansueto Almeida e Pedro Fernando Nery, que muito contribuíram prestando as informações e respostas para a comunicação e debate sobre o assunto. 

Deputados como Kim Kataguiri e Marcel Van Hatten estreantes na legislatura federal atuaram incansavelmente na defesa, comunicação e articulação do projeto, como prometeram desde as suas campanhas eleitorais.  

Digno de destaque também foi a postura da deputada Tabata Amaral que, contrariando a posição partidária, declarou antecipadamente a decisão de votar em favor da Previdência, sob o risco de punição com a exclusão do quadro pedetista. Possivelmente a atitude expressou maior convicção do que as declarações do Presidente Jair Bolsonaro. Insondável a consciência da deputada de esquerda quanto às razões que a levaram a declarar seu voto favorável à reforma, sem dúvida, obteve uma nova perspectiva na sua trajetória política como representante de uma esquerda modernizada, cujo custo aparentemente representou a perda de uma pequena parcela de eleitores ou simpatizantes, a maioria radical. Não se pode esquecer, como é contumaz entre os brasileiros, que a atitude não é inédita no PDT, mencionando o ex-senador Cristovam Buarque, que votou a favor do impeachment e do teto de gastos, mas foi abandonado pela esquerda e não logrou obter novo mandato no Senado. Por divergência com o próprio presidente Carlos Lupi se filiou ao Cidadania (ex-PPS) de Roberto Freire, que também seguiu o caminho contra a esquerda dominante. Não se surpreendam com o crescimento da legenda caso logrem aderir as novas representações aos seus quadros, como Tábata e Rigoni do PSB, já especulado como projeto alternativo à Presidência da República para Luciano Huck sob o patrocínio político de Fernando Henrique Cardoso. 

Nesse momento, ao invés de investir na tentativa de alcançar o posto de protagonista do processo de reforma suscitando os mais diversos argumentos para reduzir a importância dos atores envolvidos até a votação para angariar para si todo o mérito, seria talvez a hora de refletir sobre a estratégia de imposição política e soberba, baseada, especialmente, no conflito e criação de inimigos. O projeto de Reformas pode tornar a história desse governo uma das mais exitosas, mas cujo benefício para si dependerá de como será construída cada etapa. Porém, se repetido o caso da primeira votação, no cômputo geral ao término do mandato, verá o seu capital político pulverizado entre outros agentes políticos. Querer menos, nesse caso, é obter mais.

Percebe-se que, em meio ao caos, o que importa é liderar, o que pressupõe a capacidade de gestão e articulação dos grupos políticos, ao contrário do confronto e imposição, que é apenas imperar, no sentido negativo da palavra. Quem soube representar a liderança, prevaleceu.