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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
A “direita” xing ling: o que o PSL foi fazer na China?

Afinal, essas pessoas foram fazer exatamente o quê na China?

18/01/2019 17h51

No famoso romance distópico, 1984, o ex-comunista George Orwell delineia o retrato lúgubre de uma sociedade totalitária tecnológica. Nessa sociedade, os cidadãos escravizados são perpetuamente lembrados da sombra do Big Brother, que a todos observa, uma óbvia caricatura estatal da onisciência divina. A divisa é reproduzida nas gigantescas telas: “Big Brother is watching you!” O Grande Irmão está lhe observando!

Desde então, o personagem fictício tornou-se uma típica metáfora contemporânea, tendo servido para as mais diversas funções: de nomear reality shows populares até ser invocado como precedente literário negativo contra iniciativas governamentais de controle comportamental via tecnologia. Nesse nobre papel, nosso “Grande Irmão” participará da construção deste modesto artigo, feito por um escrevinhador sem o talento de George Orwell para satirizar situações absurdas.

Pois a situação exigiria um grande satírico. Imaginem vocês o quadro cômico, digno dos maiores satíricos da literatura universal: um partido nanico, sem dinheiro, sem expressão, foi de 1 deputado para 52 graças ao puro desvelo da militância anticomunista, convencida de que o presidente (ele também um produto desse esforço coletivo) precisaria de um congresso afinado com as pautas de direita que tal militância tinha em vista. Então, em menos de um mês de governo, uma comitiva de dez políticos eleitos desse partido, entre deputados federais e senadores, viaja para a maior potência comunista do planeta, a China, com tudo pago pelo governo chinês, para negociar uma tecnologia de informação totalitária nas mãos dos comunistas. Não é cômico? Ou melhor, não é tragicômico?

O enredo poderia ser mais soturno e menos engraçado se esses deputados e senadores fossem agentes infiltrados no partido, que o estariam utilizando para seus próprios fins maquiavélicos. Não o são, contudo. Em vídeo recente, Olavo de Carvalho advertiu contra o risco de ir a uma potência comunista como a China negociar tecnologia de informação. Certamente, ele tinha em vista algumas declarações de membros da delegação (ver aqui), elogiando o “avanço” da China em questões de segurança pública. Nesta declaração, que o deputado Felicio Laterça (PSL-RJ) não havia de modo algum desmentido quando saiu no portal, ele claramente confessava querer aprender sobre o sistema de reconhecimento facial e se esforçar por implantá-lo no Brasil. Foi exatamente o que ele disse, em termos literais.

Desde o vídeo do Olavo, contudo, criticando a viagem da comitiva de parlamentares, tem chovido contra-ataques da delegação, “esclarecimentos”, desmentidos, observações sobre a viagem, enfim, toda a sorte de material disparatado. Por exemplo, a declaração da deputada eleita Aline Sleutjes (PSL-PR) coloca panos quentes no assunto, mas não deixa de admitir que a tecnologia de reconhecimento facial da China foi apresentada para os deputados brasileiros (veja aqui). E que a viagem era uma viagem em “busca do conhecimento”, uma espécie de jornada de eruditos pelos mistérios chineses. A nosso ver, um objetivo assim tão “neutro”, colocado nestes termos, parece contrastar com o fato de que a viagem da delegação foi paga pelo governo chinês, que certamente tem interesses mais pragmáticos do que alimentar a curiosidade desinteressada de parlamentares brasileiros no tocante às suas tecnologias. Por outro lado, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), em declaração para O Antagonista (veja aqui) nega que a delegação estivesse buscando essa tecnologia, o que desmente a declaração do outro deputado, o Felício Laterça (PSL-RJ) e torna a declaração da deputada Aline Sleutjes um tanto obscura. Se não havia nem um intuito de, ao menos buscar essa tecnologia, por que ela foi uma das tecnologias justamente apresentadas pelo governo chinês à delegação brasileira? Só para passar o tempo e distrair? E a declaração do deputado Felício foi por qual razão? Para enganar as pessoas e fazer um gracejo na mídia nacional? Esquisito.

Indo neste mesmo sentido, Cléber Teixeira, advogado que se notabilizou ao tentar roubar a marca do Movimento Brasil Livre (MBL), assessor do egrégio Alexandre Frota (que está de férias relaxando um pouco da estafante rotina), em áudio comentando uma confusão com o Direita SP, manda Olavo tirar a “bunda murcha” da cadeira para resolver a questão comercial do Brasil com a China, haja vista que temos um alto superávit na balança comercial com este país (veja aqui). Mas, por que Olavo precisaria resolver alguma questão comercial com a China? Somente o  Cléber, dono de prodigiosa papada – nos fazendo crer que a bunda dele não seja nada murcha – anda preocupado com a bunda e com as supostas obrigações do Olavo de Carvalho. De nossa parte, o que nos preocupa realmente são as várias contradições entre as declarações de pares no PSL, que ora foram para aprender sobre as tecnologias chinesas de informação e importa-las, ora foram apenas passear em um tour intelectual, ora foram discutir exclusivamente questões de comércio exterior. Afinal, essas pessoas foram fazer exatamente o quê na China?

Nunca saberemos com certeza. O que temos percebido é a construção de uma tática pela delegação xingling a fim de minorar a situação e desviar o assunto para questões comerciais que o Brasil tem com a China, como se Olavo, o MBL, a direita, e a própria militância bolsonariana estivesse atacando o superávit comercial com a China. Pode-se notar o uso desse subterfúgio nesta antipática mensagem da senadora Soraya Thronicke (PSL-MS) (veja aqui) Recentemente, um dos citados no vídeo de Olavo, o deputado Luis Miranda, faz diversas críticas à ideia de que a China poderia espionar outros países por via dos celulares (ver aqui), salientando que temos superávit comercial com a China – ninguém está negando -, e, finalmente, desprezando as acusações contra a Huawei. A postura dele, por sinal, deveria ser um pouco mais cautelosa, ao nosso juízo, pois nessa live ele está, praticamente, acusando os EUA de estarem inventando desinformação sobre a empresa chinesa com o intuito de guerra comercial. É uma acusação grave, vinda de um deputado federal de um país sul-americano, com a explícita orientação de se aproximar politicamente dos EUA e não se aproximar da China. Se não bastasse isso, o nobre parlamentar é tirado a valente: diz que ganha de todo mundo no argumento, e que ninguém é homem para confrontá-lo, que ele “mete a mão na cara e quebra os dentes” de quem o xingar. Tem a sutileza de um guarda chinês.

Entretanto, se sutileza não é o forte dele, tampouco parece ser a apreciação equânime das coisas. Pois vejamos o seguinte. Não só vem dos EUA as medidas contra a Huawei. Temos, por exemplo, entre notícias de outros países essa aqui da Alemanha (veja aqui), do Canadá (veja aqui), da Austrália e Nova Zelândia (veja aqui). Luis Miranda ainda chega a dizer que temos satélites em parceria com a China – o que é verdade, desde 88 – e que a Huawei está no Brasil – o que também é verdade. Ora, mas essas duas informações não são argumentos, pois elas deveriam causar mais cautela e não menos com a ingerência dessa empresa, suspeita de espionagem, no Brasil. A Huawei está presente em muitos outros países e o fato já é visto com precaução por diversas potências ocidentais. Mas, para o deputado Luis Miranda, não é bem assim, está tudo suave, a China é nossa amiga porque tem um socialismo “leve” (só tem alguns campos de concentração e reeducação, nada demais). Para se ver, o sistema é esse aqui, exposto nesse pequeno e ilustrativo vídeo (veja aqui).

Logicamente, o caminho de responsabilidade com a China passa por manter a boa relação comercial com essa potência, sem esquecer da promessa eleitoral feita pelo presidente Jair Bolsonaro, reiterada em inumeráveis ocasiões: a de buscar ampliar o comércio com outros países do mundo “sem o viés ideológico”, em particular sem reforçar a dependência perigosa que temos com o mercado chinês. Afinal de contas, o posicionamento geopolítico e as diretrizes da política externa brasileira se orientam para um maior alinhamento com os Estados Unidos, cuja importantíssima relação comercial com a China está sob tensão, a partir do momento que Trump deu uma guinada na economia americana visando a responder ao desafio do industrialismo chinês. Eu mesmo devo confessar que temia a situação invertida: que Bolsonaro tivesse uma atitude excessivamente polêmica com o gigante asiático e isso colocasse o país em situação delicada no tocante a balança comercial. Temia que a transição a ser operada fosse súbita demais.

Todavia, se é preciso prudência nesse aspecto, também não é preciso enviar uma delegação de deputados, digamos, “novatos” para negociar sistema de reconhecimento facial com a China (ou não? quem sabe? são tantas declarações contraditórias…). Não esperava ver uma delegação do PSL na China para objetivos pouco claros. Fiquei surpreso, mas, acredito, menos surpreso do que muitos.

A dura verdade é que o fenômeno Bolsonaro alevantou muitos oportunistas. Com todo o respeito aos deputados da comitiva, que talvez sejam boas pessoas, com convicções de direita sinceras, porém, quem pode sondar o que há na mente de cada um? É preciso expressar uma amarga verdade histórica. O que se viu no processo eleitoral recente foram ilustres desconhecidos, muitos dos quais sem nem mesmo terem militado na época do impeachment e da ascensão da direita como força pública poderosa (2014-até hoje), que, de repente, apareceram grudados no Jair Bolsonaro, dizendo: o Jair é meu presidente, ninguém é mais lindo do que ele, ninguém ama o Jair como eu, estamos juntos pelo Brasil, o Brasil é minha pátria, fora comunismo, fora Foro de SP…

Afinal de contas, quando a direita era pequenininha, pobrinha e feinha há dez anos (eu a acompanhava, caríssimos, sei do que digo), ninguém queria ser de direita. As pessoas se escondiam, punham disfarces, colocavam óculos escuros e boné para se esgueirarem nos cantos. Aí vemos a época das vacas gordas, quando ser de direita tem dado muito crédito, likes, mulheres (ou homens), dinheiro, fama e importância. Então, surge o fenômeno glorioso de uma gigantesca conversão de homens e mulheres sinceros ao discurso de direita – ansiosos por ajudarem, vale dizer, serem políticos e formadores de opinião e youtubers e intelectuais e jornalistas… Esses homens e mulheres são mais puros do que o Céu, mais reluzentes do que o Sol, todos irmanados formando uma grande máquina para destruir o comunismo no Brasil! Ora ora, caro leitor, nem toda máquina é confiável. Por isso, abra o olho. Talvez a máquina da direita tenha muitas peças feitas made in China.