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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
A direita sufocada

Não podemos fechar os olhos para indecência política

29/10/2019 20h12

A vitória dos Bolsonaros nas eleições presidenciais foi sedimentada, em grande parte, pelo discurso anti-establishment ou antissistema, proporcionando um apoio diversificado de público, desde eleitores desinteressados em política até ultra engajados. Os motivos dessa reação são os sentimentos de repúdio aos conchavos espúrios e atos de corrupção, ocupação da máquina pública em benefício próprio e distribuição de cargos, além de outros revelados especialmente pela operação “lava-jato”.

Fazia certo sentido, houve adesão à ideia, que não era personificada por outro candidato, mesmo que não se comprovasse o discurso pela carreira política do deputado. Realmente se criou enorme expectativa em torno da efetivação da ruptura, acompanhada de uma grande dúvida de como seria executado.


Ao assumir a cadeira presidencial, que seria lugar para apenas um sujeito, era esperado que mudanças radicais fossem implementadas em direção à nova orientação política. A estruturação do ministério seguiu o perfil do discurso presidencial com atenção especial para pessoas pertencentes às forças armadas – qualificadas – e outros especialistas nas áreas relacionadas à execução do plano de governo, como economia e segurança. Algumas figuras foram inseridas em ministérios e que desde o início denotavam outra faceta dos planos presidenciais, como foram os casos da educação, direitos humanos, meio ambiente, relações exteriores, cujo perfil atendiam muito mais aos aspectos ideológicos. Eram indicações políticas, em sentido diverso dos governos anteriores, não sendo meras ocupações de cargos para atendimento de pleitos, mas verdadeiramente executores da visão política pessoal do presidente. Nada inesperado, considerando o tom belicoso estabelecido durante as eleições.

Meses de governo, vimos uma ausência de atuação política, sob o pretexto de recusa em dialogar com o congresso composto por parlamentares da velha política, privilegiando a “comunicação” direta com a população. Mudanças de cadeiras foram imediatas, sendo ministros expelidos do Planalto, por não terem atendido aos propósitos ideológicos estabelecidos. A interlocução com o gabinete presidencial é apresentada como de difícil acesso, autorizada por pessoas integrantes do núcleo íntimo e apoiadores escolhidos. A imprensa tem sido apontada como opositora do governo, desqualificada como fonte confiável de informação.

Fora do Planalto, a mais singela manifestação de crítica ou divergência foi recebida de forma feroz por apoiadores, muitas vezes por perfis não identificáveis, com um certo padrão, sem qualquer limite as ações, que em regra afetam questões pessoais, de forma intimidatória. Na maior parte, as vozes que tentavam silenciar são de pessoas cuja orientação política seria pertencente ao espectro da direta, que geralmente dialogavam com muitos dos apoiadores do governo, que hoje denunciam como inimigos traidores e aproveitadores. Os ares da polarização permitiram que tais ações fossem consideradas comuns, fruto de um natural acirramento do debate.

Seria, então, esse o caminho que se optou para vencer o establishment?

Talvez de fato seria, não fosse um fato que implica em enorme contradição e atende pelo nome de “Queiroz”. Esse personagem evoca um passado obscuro, que assombra a família Bolsonaro. O problema é tão grande que não foi difícil identificar a necessidade de rendição ao antigo sistema, que gerou o célebre “acordão”, um clichê da “velha política”.

Uma nova ruptura ocorreu. Toda a ação impetuosa do governo contra os demais Poderes se converteu em subserviência, atendendo às demandas que jamais se imaginava que seriam aceitadas nesse novo governo. A cada avanço na história dos gabinetes cariocas, cada vez mais a áurea política do Presidente é ofuscada, sendo tomada pela sua verdadeira imagem do passado político parlamentar.

Contra essa redução da confiança em sua imagem, o governo decidiu investir mais profundamente na estratégia de ocupação dos canais de informação e distorção de fatos, especialmente por meio de seus apoiadores, cujo modus operandi não é difícil de se identificar por seu padrão.

Duas frentes tem sido objeto das investidas, de um lado os canais de comunicação tradicional, que por suas fragilidades e padrões ação, são levados ao descrédito, impedindo as pessoas dos fatos que incomodam o governo; de outro as redes sociais, que são reconhecidas como os meios mais eficazes de direcionamento de informações e debates, mediante a exclusão das vozes críticas ao governo, sob o singelo método de desqualificação e ataques pessoais, tratando sem piedade como traidores.

Votando às perguntas se o governo estaria agindo e se superaria o establishment, os fatos demonstraram que foram impedidos pelo passado que não pode ser apagado, ao menos para os tentáculos dos interesses políticos estabelecidos.

Isso, porém, não impede os Bolsonaros de prosseguir com seus planos, que seriam de substituir o sistema estabelecido, implantando uma forma de governo personalista, mediante a implementação da sua visão política, que consiste na ocupação política cultural, afastando os inimigos opositores, genericamente apontados como “comunistas” ou “progressistas”. Em qualquer caso, são exigidas medidas drásticas de repreensão de alas capazes de prejudicar o discurso e fins desse governo, que automaticamente são postas ao lado dos inimigos esquerdistas.

Não se encontra aqui qualquer resquício do elemento formador da indignação popular contra o establishment, que é a vontade das pessoas de retomar o controle de suas vidas, com maior espaço para desenvolvimento pessoal à margem de qualquer prisma ideológico, maior grau de organização pessoal e direcionamento do destinos da sua vida, sem esse excesso de controle político e corrupto, que não permite mais as pessoas terem alívio para o seu desenvolvimento intelectual, físico e espiritual.

O que se viu foi a mesma força centrífuga de reger as vidas em massa, a partir de uma visão particular de mundo, através do discurso e controle político.

O mau estar brasileiro é resultado desse distanciamento do anseio íntimo das pessoas, que se encontra constrito pela atuação massiva do discurso político do governo presente nos meios sociais e pela descrença de mudança das vias da indústria política que domina o cenário nacional.

Nesse ponto, o brasileiro se torna um pouco mais cético. Um pouco mais cético, poderia se ligar às vozes de uma “direita” que compartilha desse desconforto, mas por ser um número reduzido e desmobilizado, é massacrada pelos meios e métodos empregados aos sicários e asseclas dessa mentalidade coletiva.

As banalidades lançadas diariamente e as incitações aparentemente aleatórias e despropositadas sugam todo o ambiente de debates, pautam as discussões e notícias, permitindo o avanço na ocupação de espaços, normalização de ações indecentes e validação de agressões, como uma força centrífuga que aniquila qualquer opção à direita.

A direita segue sem plano, sem coordenação, sem ação, incapaz de se comunicar de forma eficaz com as pessoas e nutrir o sentimento de identidade e vontade de retomar os próprios caminhos e decisões, em busca de uma vivência mais livre.

Apesar de lamuriosos, seguimos nessa jornada, sem deixar de entoar os versos de William Blake, em “das canções das experiências” (trad. Orlando Ferreira):

Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?
Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço
De tudo que um homem possui, sua casa, sua esposa, seus filhos.
A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,
E no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão
.

É fácil triunfar sob o sol do verão
E na colheita cantar na carroça cheia de grão.
É fácil falar de prudência aos aflitos,
Falar das leis da prudência ao andarilho sem teto,
Ouvir o grito faminto do corvo na estação invernal
Quando o sangue vermelho mistura-se ao vinho e ao tutano do cordeiro

É tão fácil sorrir diante da ira da natureza
Ouvir o uivo do cão diante da porta no inverno, e o boi a mugir no matadouro;
Ver um deus em cada brisa e uma bênção em cada tempestade.
Ouvir o som do amor no raio que arrasa a casa do inimigo;
Rejubilar-se diante da praga que cobre seu campo, e da doença que ceifa seus filhos,
Enquanto nossas oliveiras e nosso vinho cantam e riem diante da porta, e nossos
/filhos nos trazem frutas e flores.
Então o lamento e a dor estão quase esquecidos, bem como o escravo que gira o moinho,
E o cativo acorrentado, o pobre prisioneiro, e o soldado no campo de batalha
Quando os ossos rompidos deixam-no gemendo à espera da morte feliz.
É fácil rejubilar-se sob a tenda da prosperidade:
Eu poderia cantar e me rejubilar deste modo: mas eu não sou assim.