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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
A direita não me parece pronta para governar

Chegamos ao poder! E agora?

03/05/2019 17h26

As recentes confusões envolvendo o neo-ministro da Educação, Abraham Weintraub, são sintomas de um problema maior que afeta não apenas sua área de atuação, mas o governo como um todo e, em última instância, a direita brasileira.

É triste constatar isso num momento em que o país, após o fiasco do consenso social-democrata da constituição de 88, procura respostas no outro lado do espectro político. As eleições de 2018 deixaram um recado claro não apenas de rejeição ao petismo, mas também de afirmação de um determinado conjunto de valores que foi amalgamado às lutas políticas recentes num todo mais ou menos coerente.

Um exemplo disso é a agenda liberal no campo econômico — bandeira exclusiva da direita brasileira num momento em que seus “colegas” mundo afora aplaudem protecionismos e obscurantismos fiscais. Ela fixou-se ao imaginário anti-petista em decorrência do importante trabalho de influenciadores (Inst. Liberal, Mises, youtubers, etc) ao longo das últimas décadas, constituindo uma saborosa e bem-vinda “jabuticaba” bem brasileira.

O domínio de ferramentas de comunicação altamente meméticas durante o processo de impeachment permitiu que os agentes políticos desse novo fenômeno fossem capazes de construir suas narrativas — muito em oposição ao modelo suplantado — e ocupar espaço no debate público. Pouco, porém, foi feito no campo prático, ou, se preferir, na conversão de valores em políticas públicas.

E eis aí o cerne do problema.

O meme permitiu a imposição da direita enquanto alternativa eleitoral. Não era, porém, embalagem para produto sólido, vistoso, real; tirante as políticas econômicas de Paulo Guedes, área em que a produção acadêmica é vasta e a implantação política encontra farta experiência histórica, boa parte das propostas da nova direita encontram-se no campo da hipótese, do grito, da propaganda.

A ausência de material acadêmico — sim, pesquisa acadêmica, feita em universidades e institutos de pesquisa — decorre de diversas razões, e dentre elas fulgura certo anti-academicismo atávico, até grosseiro. Conta também a “idade” do fenômeno; é muito pouco tempo para a construção metódica de uma rede de estudantes, revistas acadêmicas, think tanks e intelectuais dispostos a construir alternativas concretas para valores que nos são caros.

Fala-se muito em política de vouchers, homeschooling e “fim da doutrinação” na área da educação; de aumento do rigor nas penas e do “fim do estatuto do desarmamento” na segurança pública; de aproximação com as grandes potências ocidentais em termos de política externa. São todas idéias vencedoras no debate público, em certa medida. Quem nunca viu a simplificação grosseira de Bolsonaro em debates e entrevistas, dizendo que “uma mulher com arma na bolsa se defende de vagabundo” ? É um bom meme, mas uma meia verdade. Está bem longe de ser apenas isso o que garantirá a segurança das mulheres nesse turbilhão de violência.

Digo isso com a confiança de quem defende todas essas ideias, e luta pela sua implementação. Não as vejo como panacéia, para ficar claro! Mas sei que a ausência de experiência concreta na implementação de tais medidas, — além da gritante ausência de estatísticas, histórico e pesquisa — faz sim muita falta. É um problema que temos que lidar.

Além disso, as principais alternativas à direita no comando do executivo — do presidente Jair Bolsonaro aos governadores Wilson Witzel e Romeu Zema — parecem especialmente dispostas a se retroalimentar no meme que encarar os reais desafios que a administração pública impõe aos seus mandatos. E isso impede a aproximação de quadros políticos e acadêmicos responsáveis por experiências de sucesso na administração pública brasileira — e sim, meus caros, elas existem.

Instituições como a Comunitas, a Fundação Ayrton Senna e a Falconi — para ficar aqui nas mais óbvias — possuem histórico e experiência de gestão e parceria em estados e municípios governados por gente de todo o espectro político; a experiência acumulada, baseada em avanços facilmente auferidos através de indicadores, não deve ser descartada simplesmente por vir de gente considerada “socialista fabiana” ou “globalista“.

Tal prática pode ser vista no MEC ao longo desses trágicos 4 meses de gestão, onde nomes técnicos eram tratados como inimigos nos expurgos ideológicos liderados pelas turba olavete. Absolutamente vazia de quadros — outro drama da direita como um todo — a administração Velez/Weintraub rechaçou parcerias políticas com aqueles que não comungavam com a totalidade de suas crenças.

No lugar da sinalização de um caminho, permanecem espalhando a polêmica e o meme aos quatro cantos pois isso lhes permite manter o clima de campanha permanente, tão cara à ala ideológica, num governo que ainda não se firmou de pé. Exemplo maior foram as justificativas amadoras e infantis para os cortes de 30% nas universidades federais. Coisas como “putaria”, “esculhambação” e “gente pelada” foram as alegações oficiais para uma ação administrativa no mínimo temerária.

Governou-se tendo em vista o meme, a “mitada”. Prática similar ocorreu na política externa — área favorita do grupo ideológico — e na articulação política, onde a retórica de campanha estreou um curioso modelo de (in)governabilidade. No caminho contrário, temas que não rendem o meme fácil, como a previdência, contam com postura apática. Foi o próprio presidente a dizer que “eu por mim nem faria reforma…mas é que precisa“.

O recurso é comum também em Wilson Witzel e seus snipers e João Doria e sua retórica farsesca, recheada de tiros para matar e “parcerias com o setor privado” que só se sustentam na propaganda. O último, ao menos, ainda conta com gente séria e experiência de gestão para fazer o básico; o mesmo não podemos falar das demais experiências.

Vivemos tempos estranhos onde o meme deixa de ser linguagem e torna-se a razão de ser do governante de direita. Não há nada mais pós-moderno do que isso, imagino. Funciona na campanha; engaja, divide, gera participação. Mas não governa um país. A bem da verdade, nem um município se governa desse jeito

Problemas reais são dados da realidade que não se resolvem na base da mitada. Se a direita não aprender isso — logo! — irá ruir como farsa.

O mundo real também se cansa rápido do meme que perde a graça.