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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
A Direita Identitária

Reflexões sobre a identidade da direita brasileira

07/06/2019 13h13

Não há maior unanimidade na direita conservadora do que a crítica ferrenha às pautas identitárias da esquerda. São variadas as reações, todas unânimes na sua rejeição. É frequente, por exemplo, a ridicularização desbragada dos atos de afirmação da identidade gay, feminina, negra, gorda, trans, trans negra, trans gorda, trans negra gorda gay feminina – esse cada vez mais complexo diagrama de Venn, em que as interseções se tornam tanto mais numerosas quanto restritivas. A antipatia sobe uns três graus quando a defesa das pautas de identidade coletiva envolve ataques às identidades coletivas alheias: os ataques aos brancos, homens, europeus, heterossexuais, cis, magros, atléticos, cristãos. E justificam-se as críticas conservadoras pelos apelos à moralidade cristã, sempre ouvidos em nossas fileiras, nas numerosas ocasiões em que a defesa de pautas identitárias acoberta os ataques a essa moral. Não que a direita seja moralíssima. Entretanto, ela sabe seguir, mesmo se ignora a fonte, a célebre máxima de La Rochefoucauld: a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Sejamos hipócritas, desde que se mantenham impolutos os critérios. Que o mundo rodopie anarquicamente, mas fique a Cruz de pé.

Bem escondido dentro da crosta dessa ojeriza às vezes desmedida e frequentemente nervosa, se esconde um núcleo de insuspeita semelhança, capaz de fazer ruborizar esquerdistas e direitistas, pegos no delito que lhes é mais reprovável: parecer uns com os outros. Se sugiro preliminarmente esta desconcertante irmandade, ainda sem ter lhe oferecido razões para tanto, não é por ter descoberto uma posição de meridiana equidade, em que eu, tornado critério dos partidos em disputa, vejo tudo sem os antolhos da ideologia. Longe disso. Apenas cumpro a tarefa, para mim também constrangedora, de revelar a semelhança genética oculta entre rivais, como se numa família de judeus brigados o primo judeu apontasse o nariz adunco de todos eles.

O nariz, ou o ponto de união, no caso, é a relação entre identidade e posição política. Há alguns meses escrevi um artigo, cujo título – “Há um lugar para o lugar de fala?” – sugeria a defesa, feita com ressalvas, do valor epistemológico do lugar de fala. Neste artigo, observei que a noção de lugar de fala, na prática política das esquerdas, era torcida de acordo com as conveniências políticas. Convenientemente, o negro embranquece se defende opiniões de direita; a mulher perde o cobertor da sororidade se rejeita o feminismo; o gordo até emagrece, na dieta abstrata das ideologias, se não assume o seu lugar de fala, que é, no fundo, um lugar de militância. Lugar de fala, sim, mas desde que todos os lugares sejam apertados neste cantinho vermelho aqui. Do contrário, são brandidas sofisticadas razões para se crer que a ovelha desgarrada do rebanho das identidades coletivas não compreende a sua inserção real. Ela, pobre ovelha, pensa o mundo com as ferramentas da ideologia que a oprime, a do lobo.

Um leitor sagaz perceberia o que se encontra implícito: a distorção, retoricamente conveniente, não surge do mero oportunismo, mas da relação complexa entre este conjunto de identidades grupais, baseadas em traços intrínsecos ou comportamentos instintivos socialmente organizados e a identidade política, reflexiva e de segunda ordem. Deste modo, mesmo uma pauta identitária, se estatuída em termos substancialmente conservadores, provavelmente careceria da legitimidade devido aos termos em que ela é posta, pois o consenso da esquerda modula, por assim dizer, a “legitimidade identitária” das pautas. Portanto, enquanto identidade reflexiva, de segunda ordem, a identidade política administrada em termos do binômio esquerda-direita é o que confere sentido às demais pautas, cuja defesa alternada obedecerá também razões táticas. Mas, o que isso tem a ver conosco?

Existem algumas observações óbvias que podemos fazer a respeito da coesão ideológica da nova direita. A nova direita já possui um mercado editorial próprio, bastante lucrativo, onde as editoras disputam um público fiel. Há também um conjunto mais amplo de leituras, do qual somente uma parte é disponibilizada neste mercado editorial. Essas leituras são consumidas com avidez. Na mídia popular, algumas referências aparecem altamente credibilizadas a seus olhos, ao passo que outras são execradas por completo. A linguagem dos pares, que traduz a conformidade das suas significações também é coesa. Repetem-se clichés, tão tipicamente de direita quanto os clichés da esquerda são de esquerda, de tal modo que se torna possível saber se alguém é de direita ou de esquerda pelas expressões usuais na conversa sem precisar levá-la para a política. No mercado das interações individuais, são trocados signos de identificação imediata, que geram empatia ou incômodo. Exemplo particularmente curioso dessa troca empática é o intercâmbio de experiências escolares. Aqui vale um depoimento pessoal. Sempre que dou alguma palestra ou conheço estudantes, universitários ou secundaristas, o assunto que rapidamente domina a roda de conversa é a experiência escolar. Mas, não se trata de qualquer experiência escolar. O que predomina são relatos das dificuldades havidas com professores de esquerda, com os demais alunos. São relatos que conferem coesão ao grupo em oposição ao universo maior dos estudantes e professores de esquerda.

O que deve ser observado é que a clivagem oferecida por estes exemplos não é por religião, cor, etnia, nacionalidade. O substrato comum em que os indivíduos se achegam como no calor de uma fogueira compartilhada não são as primitivas semelhanças das tribos. É a tribo ideológica originária da Revolução Francesa: la droite, la gauche. Até aí não seria nada mais do que uma banalidade. É perfeitamente natural que, em um ambiente onde todos são de direita, predomine conversas sobre as suas experiências enquanto direitistas. Em uma igreja, as mesmas pessoas provavelmente entabulam conversas sobre suas experiências religiosas. Na família, idem.

O que torna as coisas mais interessantes é pensar como essa identidade política se relaciona, hierarquicamente, com as outras identidades advindas da religião, papel social, família. Podemos notar que a identidade política atua como um critério abrangente. Até onde sei, não existe uma epistemologia de direita formalmente concebida. Mas, a despeito dessa ausência que preenche uma lacuna, para usar a expressão de Stalisnaw Ponte Preta, existe a crença subjacente de que as leituras de esquerda são erradas por serem de esquerda. A que outra conclusão chegaríamos ao interpretar a atitude, tão comum no nosso campo, de que as pessoas da direita simplesmente não lêem autores de esquerda? Ou quando lêem, raramente tem as suas crenças políticas minimamente afetadas, mesmo ao se deparar com autores notáveis? Uma abertura genuína aos melhores autores de esquerda obrigaria o leitor a reajustar constantemente as suas crenças; se não a abandoná-las, o que seria uma consequencia psicologicamente improvável, dado que nossas crenças políticas tem geralmente raízes profundas, ao menos a refiná-las o suficiente para absorver críticas poderosas. Não é tão simples recusar Marx, Horkheimer ou Foucault. Entretanto, não vemos isso acontecer.

As leituras religiosas obedecem o mesmo padrão. A fama de Pe. Paulo Ricardo deve-se, creio, não tanto às qualidades da sua pregação, que aliás existem, mas ao fato de que ele é conscientemente alinhado com a nova direita. Direitistas brasileiros preferem seguir, com exclusividade quase teológica, as exposições de um religioso de direita. As pessoas agem desta forma pois confiam nele. A diferença específica, motivo pelo qual elas confiam, tão típica no caso de Pe. Paulo, é o alinhamento, não ao conservadorismo teológico simplesmente – o que motivaria uma inflexão diversa – mas ao conservadorismo peculiarmente óbvio da nova direita brasileira. Do mesmo modo, a mídia que a direita consulta não é qualquer mídia, porém a mídia de direita. Na religião, nas leituras históricas, nas leituras sociais, no jornalismo, na linguagem de costumes, e até mesmo na literatura e na arte predomina uma escolha consciente, rigorosa e coesa, por aquilo que foi credibilizado pela direita. Esse é um dado bastante evidente que qualquer um pode observar, bastando-lhe prestar um pouco de atenção à formação mental dos seus pares.

Evidentemente, como à direita repugna a construção de epistemologias alternativas, uma tarefa a que a esquerda pós-moderna tem se dedicado com particular afinco, ninguém admitirá que uma verdade dita por um esquerdista é falsa porque ele é esquerdista. Mantém-se a concepção clássica da universalidade da razão. Contudo, curiosamente, a esquerda está quase sempre errada e a direita quase sempre certa em todos os campos, sob todos os ângulos, sendo essa rígida uniformidade, quando se nota algo de estranho nela, explicada em função da objetividade na natureza das coisas e na realidade dos fatos. Assim, como a garantia vem da firme crença na objetividade universal da sua própria posição, nem é preciso saber com exatidão o que pensam os autores, teólogos, jornalistas de esquerda, pois eles já se encontram, ipso facto, errados.

Sem dúvida, a identidade política é fonte normal de significado e critério habitual de confiabilidade. No entanto, nota-se algo além do truísmo das identidades. Nota-se uma clara ascendência da identidade política, estabelecida na dicotomia direita-esquerda, sobre as demais. Ao invés de lerem filósofos e jornalistas de direita porque eles são cristãos, lêem-se os autores cristãos alinhados com a direita. Ao invés de trocarem leituras por afinidade teórica interna, trocam-se as leituras validadas pela direita. Ao invés de lerem economistas porque são referências na matéria, lêem-se economistas porque são anti-estatistas, mesmo quando não são grandes referências em matéria alguma. Esse viés não se resume a uma tendência de leituras. Ele nasce do efeito ordenador que a identidade política exerce sobre as personalidades humanas desarraigadas em uma era de identidades fluidas e se espraia para distintas áreas, nas quais outras considerações deveriam importar mais. O grampo abstrato da identidade política é fincado na parede da mente: ele segura a personalidade do indivíduo, conferindo a ela a ordenação necessária de uma identidade própria que não seja a auto-expressão da própria individualidade. Apesar do cortejo de pretensos individualistas, o individualismo verdadeiro é muito raro. Com a diluição das identidades comunitárias, propiciada pelo duplo processo de padronização-individuação no capitalismo tardio (ou na sociedade do risco, como analisou U.Beck), a identidade política, reflexiva, de segunda ordem torna-se o meio de sobrevivência do resto de coerência simbólica que as pessoas, desesperadamente, buscam. Neste âmbito, a confiabilidade é a dimensão projetada nos liames intergrupais, dimensão epistêmica amplamente estudada nas modalidades da epistemologia do testemunho. Mas, a confiança é, igualmente, uma dimensão moral, o que nos leva a uma outra questão. Aceitando, infelizmente, o duro fato de que textos longos não serão lidos, deixemos para o próximo texto o término destas reflexões.